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O amargo do último gole começa no grão cru

O arábica cru guarda de 4% a 8% de ácidos clorogênicos. A torra média desfaz metade deles e fecha o resto em lactonas amargas.

Grãos de café crus e grãos de torra média em tigelas ao lado de uma xícara pela metade

Grão cru e grão de torra média lado a lado

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Em 2006, os químicos Oliver Frank, Gerhard Zehentbauer e Thomas Hofmann, da Universidade Técnica de Munique, separaram as moléculas de um café de torra média e provaram as frações uma por uma. As que mais pesaram no amargo foram as lactonas dos ácidos clorogênicos; a cafeína, que todo mundo culpa, respondeu por uma parte pequena.

O resultado saiu na revista European Food Research and Technology e mudou a pergunta. O amargo do café de todo dia vem menos de um estimulante e mais de uma família de ácidos que o grão já traz da lavoura, antes de chegar perto do torrador.

Essa família se chama ácidos clorogênicos (os ácidos que o cafeeiro acumula na semente para se defender de inseto e de sol forte). Na revisão que Adriana Farah e Carmen Donangelo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicaram em 2006 no Brazilian Journal of Plant Physiology, o arábica cru aparece com 4% a 8% do peso seco formado por eles.

A mesma revisão registra o que a torra faz com a reserva: numa torra média, perto de metade dos ácidos clorogênicos some. Uma parte quebra em pedaços menores, outra se prende às moléculas escuras que dão cor ao grão, e uma parte fecha em lactonas (moléculas que se dobram em anel quando o ácido perde água no calor).

São essas lactonas que o grupo de Munique apontou. Elas não chegam ao nariz como o aroma de caramelo nem enchem a boca como o corpo. Aparecem na língua, mais para o fundo, e ficam mais claras nos goles finais, quando a xícara esfria e a doçura recua.

Quem toma café coado sem açúcar conhece a cena: o primeiro gole é redondo, o terceiro já tem um amargo seco de cacau que antes não estava ali. O café saiu da mesma garrafa. Mudou a temperatura, e com ela o que a língua consegue separar.

A seção abaixo começa pelo grão cru do dia: onde ficam esses ácidos, o que a torra média faz com cada um deles e por que o Mundo Novo do Cerrado Mineiro ajuda a sentir a mudança.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Grão do Dia

Um Mundo Novo na torra média

O grão do dia é um Mundo Novo do Cerrado Mineiro, plantado perto de 1.000 metros, seco pelo processo natural (o fruto inteiro seca ao sol com a casca) e levado à torra média. O Mundo Novo foi selecionado pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e lançado em 1952, do cruzamento natural entre Sumatra e Bourbon Vermelho.

Cru, o grão é verde-claro, duro e quase sem cheiro de café. Quem morde um grão cru sente pouco amargo e muita adstringência (aquela sensação de boca seca que o caqui verde também dá). Boa parte dela vem dos ácidos clorogênicos, guardados no grão antes de qualquer fogo.

O nome engana. Clorogênico não tem cloro: a palavra vem do grego para “gerar verde”, porque o extrato do grão fica esverdeado quando reage com o ar. Cada molécula da família junta 2 peças, o ácido cafeico e o ácido quínico, presas por uma ligação que o calor consegue desfazer.

O membro mais comum se chama 5-CQA, sigla técnica para ácido 5-cafeoilquínico. Na revisão de Farah e Donangelo, ele aparece como o maior grupo isolado dentro da família no arábica cru, à frente de dezenas de parentes menores.

A ficha do grão:

A ficha do Mundo Novo

VariedadeMundo Novo
RegiãoCerrado Mineiro, Minas Gerais
Altitude de cultivocerca de 1.000 metros
Processonatural
Torramédia, cor de chocolate ao leite, sem óleo na superfície
Notascaramelo, chocolate ao leite e final de cacau
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 45 a R$ 70

Na torra, o grão passa de 200 graus por dentro. Os ácidos clorogênicos reagem por 3 caminhos ao mesmo tempo. No primeiro, a ligação se rompe e sobram ácido cafeico e ácido quínico soltos; o quínico dá à xícara um azedo seco que se nota na garganta.

No segundo caminho, a molécula perde água e se fecha sobre si mesma, virando lactona. No terceiro, ela se prende às melanoidinas (os pigmentos marrons que a torra cria a partir de açúcar e proteína) e sai da conta como molécula separada.

A torra média é o ponto em que o grão já perdeu metade dos ácidos e ainda guarda o máximo de lactonas.

Em 2005, Adriana Farah e colegas mediram as lactonas em torras cada vez mais longas e publicaram no Journal of Agricultural and Food Chemistry: a quantidade sobe nas torras claras, chega ao pico entre a clara e a média e só depois volta a cair, quando as próprias lactonas começam a se desfazer.

Por causa desse pico, o Mundo Novo de torra média é um bom grão de estudo. O processo natural traz caramelo e fruta madura no começo da xícara, e as lactonas aparecem por baixo, no final de cacau que o pacote anuncia.

 
 

II  Como Preparar

O coador que separa os goles

O preparo do dia é o coador de papel, em porção para 1 pessoa: 15 gramas de café, 250 mililitros de água a 93 graus, moagem média e cerca de 3 minutos do primeiro jato ao último pingo.

O coador de papel serve ao teste porque o papel segura os óleos e as partículas finas. Sem a turbidez da prensa, o que muda de um gole para o outro fica mais fácil de perceber, e o amargo das lactonas aparece limpo, separado do corpo.

As lactonas se dissolvem bem em água quente. Quanto mais tempo a água fica em contato com o pó, e quanto mais fina a moagem, mais delas vão para a xícara. A receita controla os 2 fatores para que o amargo fique no fundo e a doçura do natural apareça na frente.

A ficha do preparo:

A ficha do preparo

Café15g, moagem média
Água250ml, filtrada, a 93 graus
Proporção1 para 16,7, em peso
Moagemmédia, parecida com açúcar cristal
Métodocoador de papel
Tempo totalcerca de 3 minutos
Rendimento1 xícara de cerca de 220ml

1  Escalde o filtro de papel com água quente e descarte essa água.

2  Coloque os 15g de café moído e faça um buraco raso no centro.

3  Despeje 30ml de água, molhe todo o pó e espere 30 segundos.

4  Complete até 250ml em jatos lentos e circulares, sem bater no papel.

5  Deixe escorrer até o fim, em torno de 3 minutos no total.

6  Sirva numa xícara de louça escaldada e não mexa o café depois de servir.

O passo 3 tem razão química. O grão de torra média ainda solta gás carbônico; a pausa deixa o gás sair, e a água seguinte molha o pó por igual em vez de abrir caminhos onde passa rápido demais.

O passo 5 também. Se a água demorar bem acima de 3 minutos para escorrer, a moagem está fina e o contato longo puxa lactonas a mais. A xícara chega amarga já no primeiro gole, sem dar tempo para o caramelo aparecer.

Moagem e tempo decidem quanto das lactonas chega à xícara; a torra decide quanto delas existe no grão.

Para ajustar pelo paladar, mexa em um fator de cada vez. Amargo cedo demais pede moagem um ponto mais grossa. Xícara rala e azeda pede moagem um ponto mais fina ou 16 gramas de café, mantendo a água em 250ml.

A temperatura da água também conta. Água abaixo de 90 graus extrai menos de tudo, e a doçura cai junto com o amargo. A faixa entre 92 e 94 graus segura o equilíbrio do Mundo Novo natural.

Coador, moedor e balança →
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III  O Detalhe

Quando a xícara esfria

O amargo das lactonas está na xícara desde o primeiro gole. A diferença é o quanto a língua consegue notar a cada temperatura, e aqui entram 2 efeitos que a ciência do paladar já descreveu.

O primeiro é a doçura. Em 2005, Karel Talavera e colegas da Universidade Católica de Lovaina publicaram na revista Nature que o canal TRPM5, uma proteína das células do paladar, responde mais forte ao doce quando a comida está mais quente. Com o café esfriando, a doçura percebida cai, e o amargo, que estava ao lado dela, ganha espaço.

O segundo é o aroma. Café quente solta mais moléculas voláteis (as que evaporam e chegam ao nariz por dentro da boca), e boa parte do que se chama sabor de caramelo vem delas. Conforme a xícara esfria, o aroma enfraquece, e a língua fica sozinha com o que não evapora: o amargo e o azedo.

As lactonas estão nesse segundo grupo. Elas não evaporam na temperatura da xícara, então continuam lá, inteiras, depois que o aroma se foi. Daí o amargo seco de cacau aparece com mais força nos goles finais de um café de torra média.

O peso exato de cada efeito ainda não está medido. Os estudos de Lovaina usaram camundongos e soluções simples, sem café; os de Munique provaram frações isoladas, sem medir o gole a gole de uma xícara inteira esfriando. A explicação junta 2 resultados sólidos, mas nenhum grupo publicou ainda a curva completa do amargo da primeira à última gota.

O que se sabe com segurança é a origem: o amargo do final vem de um ácido que o cafeeiro produziu na lavoura e que a torra transformou. A dose depende de quanto ácido o grão trouxe, de quão longe a torra foi e de quanto tempo a água ficou em contato com o pó.

Na nossa opinião: o amargo de lactona faz parte do desenho da torra média. Num Mundo Novo bem torrado, ele aparece tarde e some rápido da boca; quando chega cedo e fica, a receita puxou demais.

Teste amanhã: prepare o Mundo Novo na receita acima e prove 3 goles do mesmo café, um logo ao servir, outro aos 10 minutos e o último aos 20 minutos. Dê uma nota de 1 a 5 ao amargo em cada um. Espere a nota subir 1 ou 2 pontos do primeiro para o terceiro gole, com a doçura caindo junto.

“Em qual dos 3 goles o seu amargo apareceu?”

 
 
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Quiz da edição

Segundo o grupo da Universidade Técnica de Munique, que separou as moléculas de um café de torra média, qual fração mais pesou no amargo da xícara?

AA cafeína do grão
BO ácido quínico solto
CAs lactonas dos ácidos clorogênicos
DAs melanoidinas da torra

Resultado da última edição: 6 de 8 acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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