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Agora o passo que quase nenhum pacote conta: antes de ser fechado, o café de hoje passa por uma mesa de catação.
A mesa fica na varanda, ao lado da tulha. O lote sai do torrador ainda morno, é espalhado em camada fina na bandeja e a família passa a mão pelo café puxando um grão de cada vez.
O que sai da mesa é sempre o mesmo tipo de grão: o que ficou pálido. Enquanto o lote inteiro escureceu no tambor, uns poucos permaneceram claros, quase amarelos, do tom de amendoim cru.
O nome técnico do defeito é quaker, e a causa está na lavoura. É grão de fruto imaturo, pobre em açúcar e em proteína, sem a matéria-prima que o calor precisa para caramelizar e escurecer.
Verde, o defeito é quase invisível. O grão imaturo tem o mesmo tamanho e quase a mesma cor dos outros na saca, e só se denuncia no fogo.
Na xícara, um punhado deles derruba o lote inteiro. Bastam três ou quatro grãos pálidos dentro de dezessete gramas para o chocolate sumir e sobrar gosto de amendoim cru, cereal e papelão.
O processo natural aumenta o risco, e é honesto dizer. No café lavado, o fruto passa pelo lavador e o imaturo boia, separado pela água antes de secar. No natural não existe essa etapa: tudo seca junto.
A régua internacional é dura no ponto. Pela classificação da SCA, uma amostra de café especial não pode ter nenhum quaker; o grau logo abaixo, o premium, tolera até três.
Existe máquina para o serviço. A selecionadora eletrônica por cor lê grão a grão e sopra fora o que destoa em minutos. Custa dezenas de milhares de reais, fora do alcance de quem colhe cinquenta sacas.
A mão é a alternativa barata em dinheiro e cara em tempo. Uma pessoa cata perto de um quilo de café torrado por hora, o descarte come de 2% a 5% do peso do lote, e o custo entra na etiqueta do pacote.
Aí mora uma parte do preço do pacote. O produtor paga a hora da catação e joga fora o que catou, e o custo entra na etiqueta.
O contrapeso existe. O olho cansa depois da segunda hora, a torra clara diminui o contraste, e o café separado não some: vai para a garrafa da própria casa.
Dá para conferir na sua cozinha. Compre em grão, espalhe cem grãos num prato branco e conte os claros: mais de três e o lote não passou por mesa nenhuma.
Na nossa opinião: vale a compra para quem toma café puro e percebe o gosto de amendoim cru no meio do chocolate. Quem toma com leite e açúcar vai pagar por um cuidado que não chega na xícara.
A prova está na bandeja da varanda. Fruto vermelho colhido na encosta, secado inteiro no terreiro e depois catado grão a grão, para que o chocolate e o melado cheguem inteiros na sua xícara.
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