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O pé de café que rende meio quilo por ano
Arara natural de talhão de morro em Carmo da Cachoeira, colhido a dedo, secado no terreiro e coado na Kalita Wave.
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A Kalita Wave e o Arara de Carmo da Cachoeira
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Um pé de café adulto e bem tratado entrega de três a quatro quilos de fruto maduro numa safra inteira. É o total do ano, não da semana: o cafeeiro floresce uma vez, amadurece o fruto ao longo de meses e devolve tudo numa janela curta de colheita.
Desse monte de cereja vermelha sobra pouca coisa dentro do pacote. A fruta é quase toda água, casca e polpa. O que interessa está no meio, duas sementes achatadas encostadas uma na outra, do tamanho de uma unha.
A primeira perda é a secagem. O fruto chega ao terreiro com perto de 60% de umidade e só sai de lá quando cai para 11%. Some água, some peso, e o que resta é um caroço seco preso dentro de uma casca dura.
A segunda perda é o beneficiamento, nome do maquinário que descasca esse fruto seco e libera o grão verde. Casca e pergaminho viram palha, lenha e adubo. Não viram café.
A terceira perda é a torra. O grão verde entra no tambor, larga a água que ainda tinha e queima parte da própria matéria enquanto o açúcar caramela. São de 15% a 18% do peso que evaporam ali dentro.
Empilhadas, as três dão a regra de bolso que todo produtor sabe de cor: perto de seis quilos de cereja para cada quilo de grão verde, e um punhado a mais para fechar um quilo já torrado.
Traduzido para a xícara, um quilo torrado rende perto de 45 coadas de 22 gramas. Todo o resto que a balança viu na lavoura ficou pelo caminho em forma de água, casca e vapor.
A conta quase nunca desce até a planta individual. A colheita chega em balde, em litro, em saca de 60 quilos, e o número de cada pé se dissolve no lote da lavoura inteira.
O café de hoje veio de um lote onde a família resolveu fazer o caminho ao contrário, pé por pé, com fita amarrada no tronco e balança pendurada na beira do talhão.
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I O Grão do Dia
O Arara do talhão de morro em Carmo da Cachoeira
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O grão do dia é um Arara natural de talhão de morro em Carmo da Cachoeira, no Sul de Minas, colhido a dedo e comprado direto de quem planta.
Carmo da Cachoeira fica a pouco mais de 900 metros, na faixa de morro que separa Três Pontas de Boa Esperança. A lavoura sobe pela encosta em vez de se espalhar no plano.
A inclinação tem uma consequência prática antes de qualquer conversa sobre sabor: colheitadeira não sobe ali. Onde a máquina não entra, a safra sai na mão.
O Arara é cultivar brasileira, registrada em 2012, saída do cruzamento entre o Sarchimor e o Catuaí Amarelo. Do Sarchimor veio a resistência à ferrugem, do Catuaí Amarelo veio o açúcar que aparece na xícara.
Na lavoura ela tem fama de produzir bem. O que muda a conta neste lote não é a planta, é o terreno: encosta inclinada e espaçamento largo por causa da erosão.
A família amarrou fita em vinte pés do talhão e pesou, passada por passada, o que cada um entregou. O balde de cada planta ia para a balança antes de subir no caminhão, e o número entrava num caderno de capa dura.
A média da safra inteira fechou em 3,5 quilos de cereja por pé. O melhor passou de cinco quilos e o pior não chegou a dois, na mesma fileira, a poucos metros um do outro.
Colher a dedo quer dizer passar planta por planta e tirar só o fruto vermelho, deixando o verde amadurecer para a rodada seguinte. Foram quatro passadas no mesmo talhão entre maio e julho.
O processo é natural, e natural quer dizer secar o fruto inteiro, com casca e polpa agarradas ao grão, sem lavar e sem descascar antes. O açúcar da polpa atravessa para dentro da semente enquanto a água sai.
O terreiro é de cimento, camada fina, rodo passando várias vezes ao dia e pilha coberta com lona antes do sereno. São de catorze a vinte dias até a umidade cair para perto de 11%.
Fruta escura na xícara é assinatura de natural bem conduzido. Quando a polpa fica agarrada ao grão o tempo certo, a doçura vira ameixa; quando passa do ponto, vira fermentado e álcool.
Depois vem o descanso na tulha, que iguala a umidade dentro do caroço antes do beneficiamento. Só então os 3,5 quilos de fruto de cada pé viram menos de 600 gramas de grão verde, que a torra ainda encolhe até o meio quilo.
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Vinte pés com fita no tronco, uma balança na beira da encosta e a média da safra fechada pé por pé.
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Na xícara o Arara de Carmo da Cachoeira abre em chocolate ao leite, mostra caramelo no meio e fecha em ameixa, com corpo médio para alto e acidez média para baixa. Notas de chocolate ao leite, caramelo e ameixa. Faixa de preço dos 250g comprados direto do produtor: R$ 54 a R$ 82.
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II Como Preparar
A Kalita Wave e o leito plano
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A prova de hoje é na Kalita Wave, o coador de fundo plano que a japonesa Kalita lançou em 2010 e que dividiu a bancada do café especial com os cones.
A Kalita fabrica coador em Tóquio desde 1958, e o Wave é a peça que a tirou do mercado interno. O nome vem do filtro: um papel ondulado, de vinte dobras, que fica de pé sozinho dentro do suporte.
O desenho troca o furo único do cone por três furos pequenos no fundo chato. A água encontra uma cama rasa e larga em vez de um cone fundo, e o pó fica com espessura parecida do centro à borda.
O resultado prático é um método que perdoa mão trêmula. Os três furos seguram o fluxo, o leito plano espalha a extração, e um despejo torto atrapalha menos do que atrapalharia num cone.
Para esse Arara a escolha é deliberada. Café natural de doçura pesada ganha com extração parelha: o chocolate e o caramelo aparecem inteiros, e a ameixa entra como fruta, não como fermentado.
A temperatura fica em 93°C. O grão de encosta com maturação lenta é denso, e água morna demais deixa a xícara rasa; água fervendo puxa o amargor de casca e apaga o caramelo no fim do gole.
A moagem é média, textura de açúcar cristal. Fundo plano tolera pó um pouco mais fino que o cone, mas apertar demais o moedor entope os três furos e trava o escoamento.
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A régua do Arara de morro na Kalita Wave
| Receita | 22g de café para 350ml de água, proporção 1:16 |
| Água | 93°C, filtrada |
| Moagem | média, textura de açúcar cristal |
| Pré-infusão | 50ml e 45 segundos de espera |
| Despejo | em três levas, em círculos pequenos no centro |
| Tempo total | 3min a 3min30 até a última gota |
| Custo por coada | 250g rendem perto de 11 coadas, de R$ 4,75 a R$ 7,22 |
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Escalde o papel antes, com o coador já montado na jarra, e jogue fora a água do escaldo. Papel seco entrega gosto de papelão e coador frio rouba calor da primeira leva.
Na pré-infusão, molhe todo o pó e espere a cama inchar. Café secado inteiro no terreiro e torrado há poucos dias solta gás, e o gás empurra a água para longe do caminho que ela deveria fazer.
Despeje em círculos pequenos no meio do leito, sem levar o fio de água até a parede. Na Kalita a borda do papel não tem pó embaixo, e a água que cai ali atravessa o filtro sem extrair nada.
Sirva assim que a última gota cair. O chocolate ao leite domina quente, o caramelo aparece quando a bebida desce dos 60°C e a ameixa fica no fim, junto com o corpo.
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