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Notas do Café   Notas do Café
ED 083

O Asa Branca que amadurece no cerrado de Brasília

Uma cultivar de porte baixo criada para calor e ferrugem, colhida cereja a 1.100 metros no cerrado do DF e coada na cafeteira elétrica.

Cafeteira elétrica de filtro branca com jarra de vidro sobre uma mesa de madeira gasta em sítio familiar do cerrado do Distrito Federal, com cesto de papel de fundo reto aberto ao lado cheio de café moído, tigela rasa de frutos vermelho escuro quase cor de vinho, castanhas-de-caju cruas, um quadrado de chocolate ao leite partido, potinho de melado com colher de madeira, xícara branca de porcelana com café escuro, pacote kraft de 250g com etiqueta escrita à mão e, ao fundo, um terreiro de cimento com o fruto inteiro secando em camada fina e um rodo de madeira encostado, com fileiras de cafeeiros baixos de copa compacta no solo vermelho e o horizonte aberto do cerrado

A cafeteira elétrica e o cereja do cerrado do DF

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Dentro do Distrito Federal existem pouco mais de 460 hectares de café plantado, que rendem perto de 966 toneladas por ano nas mãos de 138 produtores. Ao lado de Minas Gerais, que sozinha responde por metade da safra brasileira, o número é migalha de mapa.

Só que o café do Planalto Central não brotou por acaso. A capital foi erguida numa chapada acima de mil metros, com inverno seco e amplitude térmica alta, exatamente a combinação que o arábica pede para amadurecer devagar e acumular açúcar dentro do fruto.

A colheita cai em plena seca, entre junho e setembro, quando a umidade do ar despenca e o terreiro trabalha sem risco de chuva no meio do processo. Poucos lugares do Brasil entregam uma janela de secagem tão limpa.

As lavouras se concentram no PAD-DF e no Núcleo Rural Jardim, no Paranoá, na Tabatinga, em Planaltina, e no Lago Oeste, em Sobradinho. São propriedades pequenas, quase todas de família, muitas colhendo à mão em colheita seletiva.

O problema do cerrado nunca foi a altitude, foi o calor e a estiagem. Boa parte das cultivares clássicas foi selecionada no clima mais ameno de Minas e de São Paulo, e sofre quando o termômetro passa dos 32°C por semanas seguidas e a chuva some por cinco meses.

Some a ferrugem, o fungo que chegou ao Brasil em 1970 e obriga o produtor a pulverizar a lavoura todo ano. Numa lavoura de família, cada aplicação a mais é dinheiro e dia de trabalho que ninguém tem sobrando.

A saída veio do melhoramento genético. Nos anos 1980, no antigo IBC de Londrina, cruzaram o Sarchimor 1668, que carrega os genes de resistência do Híbrido de Timor, com o Mundo Novo, que carrega produtividade. Do cruzamento saiu o Acauã, e do Acauã saíram seleções feitas para terra quente.

A cultivar de hoje é uma dessas seleções, tem nome de pássaro do sertão e está plantada num sítio de família dentro do próprio cerrado do Distrito Federal.

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I  O Grão do Dia

Cereja colhido a 1.100 metros no Paranoá

O grão do dia é um Asa Branca de lavoura familiar, colhido a 1.100 metros no cerrado do Distrito Federal, na região do PAD-DF, a menos de uma hora de carro do centro de Brasília.

Asa Branca é cultivar registrada pela Fundação Procafé. Não é varietal antigo achado no mato: é seleção dentro do Acauã, feita nos campos de Coromandel, no Cerrado Mineiro, onde duas plantas se destacaram em produtividade e em uniformidade de maturação.

O nome vem do pássaro do sertão, na mesma linha do Acauã e do Bem-te-vi, e foi escolhido pela característica que interessa aqui: a planta aguenta seca.

Na roça, reconhecer a cultivar é fácil pelo porte. A copa é arredondada e compacta, mais baixa que a do Catuaí, com ramificação secundária abundante e muita folha por metro de ramo.

Porte baixo tem consequência prática. A colheita sai sem escada, a roseta de fruto fica na altura da mão e uma família consegue passar no talhão três vezes na safra, tirando só o que já está cereja.

A resistência à ferrugem vem do Híbrido de Timor, que entrou pelo lado do Sarchimor. Em campo, a cultivar chega perto da imunidade ao fungo, e ainda tolera bem o nematoide Meloidogyne exigua, praga de raiz que derruba lavoura inteira em solo infestado.

Para o produtor pequeno, a conta muda de figura. Menos pulverização significa menos gasto com fungicida, menos combustível no trator e menos dia perdido, num sítio onde o dono é o próprio tratorista.

A colheita é seletiva e manual, feita quando o fruto passa do vermelho vivo para um vermelho escuro, quase cor de vinho, ponto em que a cultivar entrega o pico de açúcar.

O processo é natural: o fruto vai inteiro para o terreiro, com casca e mucilagem grudadas no grão. Nada de descascador, nada de tanque de fermentação.

A secagem é o passo delicado. Camada fina no terreiro de cimento, rodo passando de hora em hora nos primeiros dias, pilha coberta com lona ao entardecer e de doze a vinte dias até a umidade cair para perto de 11%.

Depois vem o descanso em tulha por trinta dias, antes do beneficiamento que solta a casca seca do grão. O tempo parado iguala a umidade dentro do caroço e tira o gosto verde de café recém-seco.

Cultivar de porte baixo e resistente à ferrugem, cereja colhido na mão a 1.100 metros e fruto inteiro secando no terreiro.

Na xícara, o natural do cerrado abre em chocolate ao leite, mostra castanha-de-caju no meio e fecha num doce escuro de melado, com corpo alto e acidez baixa. Notas de chocolate ao leite, castanha-de-caju e melado. Faixa de preço dos 250g comprados direto do produtor: R$ 50 a R$ 80.

 
 

II  Como Preparar

A cafeteira que já está na tomada

A prova de hoje é na cafeteira elétrica de filtro, aquela de jarra de vidro e chapa quente embaixo, que já está na tomada de meio Brasil.

O aparelho combina com esse café por um motivo direto: extração longa, contínua e sem mão humana no meio. O natural do cerrado tem açúcar de sobra e acidez baixa, e aguenta o tempo extra dentro do cesto sem ficar áspero.

O papel grosso segura parte do óleo e devolve uma bebida limpa. O chocolate e o melado atravessam o filtro inteiros, e o que fica retido é o excesso de gordura que embaça a xícara.

A cafeteira tem três defeitos conhecidos, e todos têm conserto.

O primeiro é a temperatura. A maioria dos aparelhos domésticos entrega água entre 85°C e 89°C no cesto, abaixo dos 92°C que a extração pede, e o resultado é café raso.

Conserto: encha o reservatório com água já quente da chaleira, perto de 80°C, em vez de água da torneira. A resistência sobe o resto e o cesto recebe água na faixa certa desde o primeiro pingo.

O segundo defeito é a distribuição. O chuveirinho quase sempre despeja num ponto só, e o pó da borda fica seco enquanto o do meio é lavado duas vezes.

Conserto: nivele o pó com as costas da colher antes de ligar e, quando o cesto encher, dê uma mexida rápida com um garfo de plástico para molhar o que ficou de fora.

O terceiro é a chapa quente embaixo da jarra. Ela mantém a bebida perto de 80°C e continua cozinhando o café já pronto, e em vinte minutos o melado vira gosto de queimado.

Conserto: passe o café para uma garrafa térmica assim que a jarra encher e desligue o aparelho na hora.

A régua do Asa Branca na cafeteira

Receita30g de café para 500ml de água filtrada
Moagemmédia, textura de areia grossa
Papelescaldado com 200ml de água quente antes de receber o pó
Águaentra no reservatório já a 80°C
Tempo4 a 5 minutos até a jarra encher
Custo por xícara250g rendem 8 jarras, perto de 25 xícaras, de R$ 2,00 a R$ 3,20 cada

Escalde o papel antes do pó. Passe 200ml de água quente pelo filtro vazio, jogue fora o que caiu na jarra e devolva o cesto: sai o gosto de papelão e o vidro entra no preparo já aquecido.

Moagem média é o ponto de equilíbrio do cesto. Fina demais entope o papel, a água empoça e transborda pela borda; grossa demais atravessa correndo e entrega bebida rala.

Mexa a jarra antes de servir. Os primeiros pingos descem muito mais concentrados que os últimos, e a bebida fica em camadas dentro do vidro se ninguém agitar.

Sirva em xícara branca e beba em duas temperaturas. O chocolate ao leite domina os primeiros goles, a castanha aparece quando a bebida baixa dos 60°C e o melado fica no fim, junto com o corpo.

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III  O Detalhe

O preço quando ninguém entra no meio

Agora a parte que muda o valor do pacote: o café de hoje é comprado direto de quem planta, sem atravessador entre o terreiro e a sua cozinha.

Comprar direto significa pagar a família que colheu, com o lote identificado, a data de colheita dita na hora e a torra feita num torrador pequeno da região.

A diferença de dinheiro é grande. A saca de 60 quilos de arábica bom, vendida no atacado, paga ao produtor algo em torno de R$ 2.000 em ano normal, perto de R$ 33 por quilo de café verde.

A mesma saca, já torrada e fracionada em pacotes de 250 gramas, sai por R$ 200 a R$ 300 o quilo no varejo. Entre uma ponta e outra entram beneficiamento, torra, embalagem, marca e loja.

Quando o produtor vende direto, ele fica com uma fatia dessa diferença e o comprador ainda paga menos que na prateleira do café especial. Os dois lados ganham quando a fila encurta.

Tem o ganho que não aparece na etiqueta: o frescor. Café torrado perde aroma rápido, e o pacote que sai do produtor costuma chegar com menos de duas semanas de torra, contra dois ou três meses de gôndola.

No Distrito Federal a compra direta é literal. Dá para pegar o carro no fim de semana, subir para a Tabatinga ou para o Lago Oeste, ver o terreiro trabalhando e voltar com o pacote no banco de trás.

O contrapeso existe e é honesto dizer. Torrador pequeno oscila mais: um lote sai redondo e o seguinte vem escuro demais porque o dono errou meio minuto no tambor.

E o lote acaba. Uma família que colhe cinquenta sacas não tem estoque o ano inteiro, então o café que você gostou em agosto pode não existir mais em novembro.

Três perguntas resolvem quase tudo antes de pagar: qual a data da torra, qual o processo e qual a cultivar. Produtor que responde as três de cabeça costuma ter o mesmo cuidado no resto da lavoura.

A data ideal de torra fica entre cinco e trinta dias. Antes de cinco o café ainda solta gás demais e a xícara sai irregular; depois de trinta o aroma cai de um jeito que dá para perceber na xícara.

Na nossa opinião: vale a compra para quem gosta de café doce, encorpado e de acidez baixa, do tipo que se toma o dia inteiro sem cansar. Quem procura xícara ácida e floral vai achar a bebida pesada demais.

A prova está no terreiro do sítio. Fruto colhido no ponto de vinho, secando inteiro a 1.100 metros com o inverno seco do Planalto Central em cima, para que o chocolate e o melado cheguem inteiros na sua xícara.

 
 
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ABourbon Amarelo com Catuaí Vermelho
BSarchimor 1668 com Mundo Novo, nos anos 1980
CTypica com Híbrido de Timor, ainda em Portugal
DIcatu com Catimor, no Paraná em 1972

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