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ED 123

67% escolheram Nota 80 da SCA. Sai em 24/09.

A contagem de defeitos que virou preço em Santos

A Bolsa Oficial de Café abriu em Santos em 1922 com uma mesa de classificação: 300 gramas de café cru e a contagem de grãos ruins fechava o tipo.

Grãos de café cru espalhados sobre mesa preta de classificação, com concha de amostra e bandeja de contagem ao lado

Grãos crus na mesa de classificação de Santos

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Em 1922, a Bolsa Oficial de Café inaugurou em Santos uma sala de classificação que reduzia a briga de preço a uma contagem: 300 gramas de café cru espalhados sobre a mesa preta, e cada grão defeituoso valendo um ponto. Grão preto, um defeito. Grão ardido, meio. Pedra grande, cinco. Amostra com 4 pontos fechava como Tipo 2; amostra com 360 pontos descia para Tipo 8, o último degrau da tabela.

A conta tirava a palavra final do vendedor e do comprador e entregava a um terceiro, o classificador da Bolsa. Dois homens que discordavam sobre quanto valia um lote podiam continuar discordando, desde que aceitassem o número que saía da mesa.

Santos era o funil por onde escoava a maior parte do café brasileiro embarcado para fora, vindo de trem das lavouras do oeste paulista e do sul de Minas. Sacas de fazendas diferentes, colhidas em meses diferentes, chegavam ao cais precisando virar mercadoria comparável antes de entrar no porão de um navio.

O prédio da Rua XV de Novembro resolvia a parte humana da comparação. Corretores credenciados negociavam no pregão, a sessão em que as ofertas eram gritadas e anotadas na hora, enquanto na sala ao lado os classificadores mediam peneira, contavam defeito e provavam a bebida em xícara.

O nome da cidade ficou colado na mercadoria. Contrato de exportação até hoje descreve um café brasileiro como Santos 2/3 ou Santos 4/5, com peneira e tipo de bebida anexados, mesmo quando o grão nunca passou perto do litoral paulista e embarcou por outro porto.

Para entender o que a tabela media, o melhor caminho é um café que teria ido para aquela mesa. Começamos por um Mundo Novo da Alta Mogiana, região que abastecia Santos de trem desde o século 19, com ficha de lavoura, perfil de torra e preço de pacote.

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I  O Grão do Dia

Mundo Novo da Alta Mogiana que enchia porão de navio

O grão do dia é um Mundo Novo da Fazenda Santa Luzia, em Pedregulho, na Alta Mogiana paulista. Lote de talhão único, colhido por derriça seletiva em duas passadas e processado como cereja descascada.

Pedregulho fica na borda da Serra da Canastra, com lavouras em encosta, latossolo vermelho profundo e noites frias na seca. Este lote cresce entre 1.040 e 1.160 metros, altitude que segura a maturação e dá ao grão a doçura de melado que a região ficou conhecendo.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Mundo Novo da Santa Luzia

VariedadeMundo Novo, cruzamento natural de Bourbon Vermelho com Sumatra, porte alto
OrigemFazenda Santa Luzia, Pedregulho, Alta Mogiana, interior paulista
Altitude de cultivo1.040 a 1.160 metros, em latossolo vermelho de encosta
Colheitaderriça seletiva em duas passadas, com abanação e catação do verde
Processocereja descascada, 9 dias em terreiro e 20 horas de secador a 40 graus
Perfil de torra11 minutos no total, com descarga 140 segundos depois do primeiro estalo
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 48 a R$ 72

Cereja descascada quer dizer que a casca saiu na máquina logo depois da colheita e a mucilagem, a camada pegajosa e doce que fica grudada no grão, secou junto. O método entrega doçura de melado com menos risco de fermentação que o natural, porque a polpa inteira não fica dias sobre o terreiro.

O Mundo Novo é a variedade que ergueu o volume do café paulista desde os anos 1950, selecionada pelo Instituto Agronômico de Campinas por produzir muito e aguentar seca. Rende mais por pé que o Bourbon e entrega um copo de corpo redondo e acidez baixa.

A torra média com descarga 140 segundos depois do primeiro estalo existe para puxar amendoim e chocolate sem queimar o melado. Torra mais escura apaga a doçura e devolve amargor de carvão, e torra clara demais deixa o Mundo Novo com gosto de cereal cru.

Na mesa de classificação, um lote assim se defende pela limpeza. Poucos grãos pretos, pouco ardido, peneira uniforme na 17 e 18, o tipo de amostra que os corretores de Santos chamavam de café de contrato, sem prêmio de bebida excepcional e sem desconto por sujeira.

Grão feio não some na torra. A contagem de defeitos existe porque um punhado de grãos pretos num quilo de café limpo derruba a xícara inteira para o lado do mofo.

Na xícara, um café de corpo redondo, doçura de melado e final de amendoim. Notas de melado, amendoim torrado e chocolate ao leite, no pacote de 250g entre R$ 48 e R$ 72.

 
 

II  Como Preparar

Coador de papel a 94 graus, com a xícara em três leituras

O preparo deste grão é o coador de papel 103, moagem média, 24 gramas de café para 360 mililitros de água a 94 graus, num tempo total de 3 minutos.

O coador de papel entra por ser o aparelho que quase toda cozinha brasileira já tem, e por segurar o óleo que embaça o gole. Café de corpo redondo e acidez baixa não precisa de método sofisticado, precisa de água quente na hora certa e de uma cama de pó nivelada.

A ficha do preparo:

A ficha do coador de papel a 94 graus

Café24g
Água360ml, filtrada, a 94 graus
Proporção1 para 15, em peso
Moagemmédia, textura de areia grossa
Métodocoador de papel 103 sobre porta-filtro plástico, em três despejos
Tempo3 minutos no total, com 30 segundos de pré-infusão
Rendimentocerca de 300ml, servidos em duas xícaras
1  Escalde o papel com água fervente e despeje fora a água do escaldo, para tirar o gosto de celulose sem esfriar o porta-filtro.
2  Despeje 50ml de água a 94 graus sobre os 24g de café moído na hora, em espiral do centro para fora, e espere 30 segundos de pré-infusão.
3  Complete até 200ml num despejo lento e contínuo, mirando a cama de pó e evitando a parede do papel.
4  Despeje os 160ml restantes assim que o nível baixar até a metade, em movimento curto e central.
5  Retire o coador quando a última gota cair, por volta de 3 minutos, e sirva sem adoçar.

Moagem fina demais empoça a água e estica o tempo acima de 4 minutos, o que puxa amargor e adstringência. Passou de 4 minutos duas vezes seguidas, abra um ponto no moedor.

Água acima de 96 graus queima a doçura de melado deste lote. Sem termômetro, desligue a chaleira na fervura e conte 40 segundos com a tampa aberta, que a temperatura cai para a faixa certa numa cozinha comum.

Prove o mesmo café em três momentos: recém-coado, cinco minutos depois e dez minutos depois. Anote uma palavra por leitura antes de tomar a seguinte, porque o gole novo apaga a lembrança do anterior em segundos.

Na primeira leitura, avalie aroma e corpo. Um Mundo Novo bem extraído chega denso, com amendoim no nariz e nenhuma ponta ácida agressiva.

Na segunda, avalie a doçura. O melado aparece quando a bebida sai da faixa de queimadura, e uma xícara que fica aguada aqui costuma indicar moagem grossa demais ou proporção fraca.

Na terceira, avalie o defeito. Fundo de mofo, gosto de terra ou azedo de vinagre são os sinais que a classificação de Santos punia com queda de tipo, e o copo frio expõe todos eles.

O grão torrado dura cerca de 30 dias em pacote com válvula, contados da data de torra impressa no rótulo. Passado o prazo, o amendoim vira papelão e o chocolate some primeiro.

Coador e balança →
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III  O Detalhe

O prédio da Rua XV que virou museu sem perder a palavra

A Bolsa Oficial de Café abriu as portas em Santos em 1922, num prédio projetado por Felisberto Ranzini e erguido em concreto, granito e mármore, com torre de relógio de 40 metros e um salão de pregão coberto por vitral e por painéis de Benedito Calixto sobre a história do café no Brasil. O edifício não era decoração de cidade rica: era o lugar onde o preço do principal produto de exportação do país era formado todos os dias úteis.

"Santos tornou-se o grande empório cafeeiro do mundo, e a sua praça passou a ditar cotações que os mercados estrangeiros acompanhavam", escreveu Affonso de Escragnolle Taunay em História do Café no Brasil, publicado pelo Departamento Nacional do Café em 1939.

Affonso de Escragnolle Taunay · História do Café no Brasil · 1939

No salão, corretores credenciados ocupavam lugares marcados e fechavam negócio à viva voz, com um funcionário anotando cada operação num quadro. A cotação do dia saía dali e viajava por telegrama para Nova York, Hamburgo e Le Havre, onde importadores compravam café brasileiro sem nunca ter visto o lote.

A sala de classificação fazia o trabalho silencioso. O classificador media a peneira com crivos numerados, separava grãos defeituosos numa bandeja, somava os pontos da tabela e provava a bebida em xícara para julgar se o lote era mole, duro, riado ou rio, os quatro nomes que a praça usava para descrever gosto, do mais doce ao mais medicinal.

O pregão de café em Santos encerrou as atividades em 1957, quando a negociação migrou para contratos futuros e escritórios privados, e o prédio passou décadas subutilizado. Em 1998 ele foi restaurado e reaberto como Museu do Café, que guarda o salão original, os painéis e a sala de classificação abertos a visitação.

Fica um ponto sem resposta fechada, e vale dizer com clareza. Não existe consenso publicado sobre quanto da queda do pregão veio da concorrência dos contratos futuros de Nova York e quanto veio da política de intervenção do governo brasileiro no mercado interno; historiadores do setor descrevem os dois movimentos sem repartir o peso de cada um.

Na nossa opinião: o legado que mais interessa a quem compra café hoje é a tabela, não o prédio. A ideia de descrever um lote por peneira, contagem de defeitos e nota de bebida é o que permite comprar 60 quilos de grão por telefone e saber o que vai chegar, e é a mesma lógica que sustenta a etiqueta de um pacote de 250g na prateleira.

Teste hoje: pegue 100 gramas do seu café em grão, espalhe numa folha branca e separe os grãos pretos, quebrados, chochos e com casca. Pese o que sobrou na bandeja dos defeituosos. Abaixo de 1 grama, você comprou um lote limpo de padrão de exportação; acima de 3 gramas, a torrefação está vendendo café de tipo baixo com rótulo de especial, e a próxima compra pede outra marca.

"Você já olhou os grãos do seu pacote um por um, ou só confia no que a etiqueta promete?"

 
 
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Quiz da edição

Na mesa de classificação da Bolsa Oficial de Café de Santos, quantos pontos valia uma pedra grande encontrada na amostra de 300 gramas?

A1 ponto, igual ao grão preto
BMeio ponto, igual ao grão ardido
C5 pontos
D10 pontos, o valor mais alto da tabela

Resultado da última edição: 73% acertaram.

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