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O título mundial de barista que o Brasil esperou 23 anos

Em Atenas, 2023, o paulistano Boram Um venceu o Campeonato Mundial de Baristas pelo país que mais planta café.

Xícara de espresso com crema dourada sobre o balcão de um palco de competição

Um espresso no palco de Atenas, 2023

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Em 2023, os juízes do World Barista Championship (o Campeonato Mundial de Baristas), organizado pela World Coffee Events, deram em Atenas a maior pontuação da final a Boram Um, barista paulistano. Pela primeira vez desde a estreia do torneio, em 2000, o troféu ia para o Brasil.

O atraso chamava atenção pelo tamanho do país na lavoura. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), nos relatórios de safra de 2023, o Brasil colhia sozinho perto de um terço do café do mundo. Mesmo assim, nenhum brasileiro tinha subido ao degrau mais alto em 23 anos de disputa.

A explicação mais repetida entre profissionais do café olha para o destino do grão. Durante quase todo o século 20, o melhor café brasileiro saía em sacas pelo porto de Santos e era vendido como commodity (mercadoria negociada em bolsa pelo preço do dia, sem nome de fazenda).

A xícara que o país bebia em casa costumava ser a sobra da exportação, torrada escura para esconder defeito e moída fina para render. O cafezinho de balcão virou hábito nacional, mas raramente era o café que o Brasil vendia aos outros.

O campeonato premia o caminho oposto. Cada competidor tem 15 minutos no palco para servir 4 espressos, 4 bebidas com leite e 4 bebidas autorais (receitas criadas pelo próprio barista) a 4 juízes sensoriais, os que provam e dão nota ao sabor.

Juízes técnicos, por sua vez, observam o trabalho: a limpeza do porta-filtro, o pó desperdiçado, a regularidade de cada dose. Um erro de higiene custa ponto mesmo quando a xícara agrada.

Boram Um, filho de família coreana radicada no Brasil, chegou a Atenas com anos de estrada em competição. Ele já tinha vencido o campeonato brasileiro mais de uma vez e defendido o país em mundiais anteriores sem chegar ao topo.

A vitória de 2023 mudou o lugar do Brasil no ofício: o país que fornecia o grão passou a ter também o barista campeão. O caminho para entender aquela xícara começa pelo grão, um café do Cerrado Mineiro preparado do jeito que os juízes provam antes de tudo, o espresso.

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I  O Grão do Dia

Um Catuaí do Cerrado para a xícara curta

O grão do dia é um Catuaí Amarelo do Cerrado Mineiro, cultivado entre 900 e 1.200 metros, seco como natural (o fruto inteiro seca ao sol, com casca e polpa, antes de ir para o descascador) e levado à torra média pensada para espresso.

A região tem papel nessa história. Em 2013, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu ao Cerrado Mineiro a Denominação de Origem (o selo que liga a qualidade de um produto ao clima e ao solo do lugar), a primeira dada a café no Brasil.

Ali, o café cresce em chapadas planas, com estação seca bem marcada. A colheita acontece em tempo firme, e o fruto seca no terreiro sem chuva atrapalhando, condição que favorece o processo natural.

O Catuaí também é brasileiro de origem. A variedade nasceu no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), do cruzamento entre Mundo Novo e Caturra, e foi liberada aos produtores em 1972. O nome vem do tupi e quer dizer algo próximo de “muito bom”.

A planta é baixa, produtiva e resistente ao vento, motivo pelo qual se espalhou pelas lavouras do país. Na xícara, o Catuaí Amarelo do Cerrado entrega corpo médio, acidez baixa e doçura de chocolate ao leite.

A ficha do grão:

A ficha do Catuaí Amarelo

VariedadeCatuaí Amarelo
RegiãoCerrado Mineiro (MG)
Altitude900 a 1.200 metros
Processonatural
Torramédia
Notaschocolate, castanha, mel
Pacote de 250gR$ 40 a R$ 75

O processo natural pesa no espresso. Durante a secagem, os açúcares da polpa ficam semanas em contato com a semente, e o pó resultante forma uma crema (a espuma dourada que cobre o espresso) espessa e persistente.

O espresso concentra as virtudes do grão e também os defeitos. A máquina empurra a água pelo pó a 9 bar (cerca de 9 vezes a pressão do ar ao nível do mar), e em menos de 30 segundos sai uma bebida curta e densa, sem espaço para esconder grão ruim.

O grão que o mundo comprava sem nome de fazenda é o mesmo que hoje sobe ao palco com nome e sobrenome.

Na compra, olhe a data da torra no pacote. Para espresso, o ideal é usar o grão entre 10 e 30 dias depois dela: antes, o gás carbônico ainda alto faz a extração jorrar irregular; depois, os aromas começam a se perder.

A moagem pedida é fina, parecida com açúcar refinado. Com o grão escolhido e moído, o passo seguinte é acertar dose, tempo e peso na xícara, os 3 números que os juízes conferem em cada rodada.

 
 

II  Como Preparar

O espresso de 18 gramas na cozinha

O preparo do dia é um espresso duplo: 18 gramas de pó para 36 gramas de bebida na xícara, na proporção de 1 para 2, em 25 a 30 segundos de extração. São as medidas mais usadas em cafeterias de especialidade e nas rotinas de competição.

A balança manda mais que o olho. No palco do campeonato, quase todo barista pesa o pó antes de encaixar o porta-filtro (o cabo com o cesto de metal onde vai o café) e pesa a bebida enquanto ela cai.

A ficha do preparo:

A ficha do preparo

Café18g, moagem fina
Bebida na xícara36g
Proporção1 para 2
Água93 graus
Tempo25 a 30 segundos
Pressão9 bar

1  Ligue a máquina 20 minutos antes, com o porta-filtro encaixado, para o metal aquecer por inteiro.

2  Moa 18g na hora e coloque no cesto seco e limpo.

3  Bata de leve na lateral para nivelar o pó, sem montes nem buracos.

4  Pressione com o tamper (o socador de base chata), firme e reto, uma vez só.

5  Encaixe o porta-filtro, ponha a xícara sobre a balança e zere.

6  Acione a extração e marque o tempo desde o primeiro segundo.

7  Pare ao chegar em 36g na balança, entre 25 e 30 segundos.

O passo 4 decide a extração. Um socado torto deixa um lado do pó mais compacto, a água foge pelo lado frouxo, e a bebida sai ácida e amarga ao mesmo tempo.

Se os 36g caírem em menos de 20 segundos, a moagem está grossa: moa um ponto mais fino. Se passar de 35 segundos, a moagem está fina demais, e o gosto pende para o amargo de casca queimada.

O tempo na xícara diz o que a moagem fez; a balança diz quando parar.

Quem não tem máquina pode chegar perto com a moka (a cafeteira italiana de alumínio que ferve a água na base). Use 15g de pó em moagem média fina, água quente até a válvula e fogo baixo.

Retire a moka do fogo assim que o café começar a borbulhar no bico. A bebida sai mais rala que um espresso de máquina, porque a moka trabalha com pressão bem menor, mas guarda a doçura do Catuaí.

Sirva em xícara aquecida, de louça grossa. Uma xícara fria rouba calor da bebida nos primeiros segundos e apaga parte do aroma que a crema segura.

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III  O Detalhe

Uma final grega e 23 anos de espera

O primeiro Campeonato Mundial de Baristas aconteceu em Monte Carlo, em 2000, e foi vencido pelo norueguês Robert Thoresen. Nas duas décadas seguintes, o título circulou entre países que importam café, como Noruega, Dinamarca, Austrália, Reino Unido, Japão e Coreia do Sul.

Países produtores quase não apareciam no topo. A primeira vitória de um país de lavoura veio com o salvadorenho Alejandro Méndez, em 2011, e o Brasil seguiu sem título por mais 12 anos.

A competição tem 3 etapas: a primeira rodada, com dezenas de campeões nacionais, a semifinal e a final, com 6 baristas. Em cada apresentação, os 15 minutos correm no relógio, e quem estoura o tempo perde ponto.

Os juízes sensoriais avaliam equilíbrio, doçura, acidez e textura de cada bebida. Também pontuam a explicação: o barista precisa dizer o que o juiz vai sentir na xícara, e o juiz confere se a promessa bate com o gole.

Boram Um dirige a Um Coffee Co., empresa da família que compra café de fazendas brasileiras e o leva a torrefações no exterior. No palco, a rotina dele trabalhou essa ponte entre o produtor e a xícara.

Depois de Atenas, o barista passou a representar o café brasileiro em eventos e palestras pelo mundo, com o título de 2023 como cartão de visita do grão do país.

O que ainda não se sabe é se a vitória mudou o preço pago ao produtor. Nenhum levantamento publicado mediu, até agora, o efeito do título sobre as vendas de café especial brasileiro, e qualquer número sobre o tema seria chute.

Na nossa opinião, Atenas valeu pela inversão de papéis. Por mais de 100 anos o Brasil foi o fornecedor anônimo das xícaras alheias, e em 2023 um brasileiro mostrou ao júri o que um grão nacional entrega com balança, tempo e cuidado.

Teste hoje: tire 2 espressos com os mesmos 18g de pó, o primeiro parado em 25g na xícara e o segundo em 45g. Prove os dois em goles iguais e anote o gosto de cada um. O curto deve puxar para o azedo de limão; o longo, para o amargo de casca de nozes; os 36g da receita ficam no ponto doce entre os dois.

“Você já provou um espresso feito só com café brasileiro?”

 
 
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A2003
B2008
C2013
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