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ED 115

O Bourbon Pontudo moído na hora e o mesmo pó 24 horas depois

Um natural de Carmo de Minas dividido em duas porções, uma moída na hora e outra na véspera, coadas lado a lado no V60 a 93 graus em 1:16.

Moedor manual e pote de vidro fechado com café moído sobre bancada de madeira, com terreiro suspenso de cerejas e encostas da Mantiqueira ao fundo em Carmo de Minas

Bourbon Pontudo secando em terreiro em Carmo de Minas

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Em 2002, o químico suíço Ivon Flament publicou Coffee Flavor Chemistry pela editora Wiley com o inventário dos compostos voláteis já identificados no café torrado: mais de 800 substâncias diferentes. Nenhum outro alimento do dia a dia tem uma lista de aroma tão longa catalogada em laboratório.

Esses voláteis são a parte do café que você sente antes de beber. São eles que sobem do funil quando a água toca o pó e criam a impressão de caramelo, de flor, de castanha. E são eles que evaporam.

Enquanto o grão está inteiro, a maior parte do aroma fica presa na estrutura de células lenhosas da semente, empurrada para dentro pelo gás carbônico que a torra gerou. O grão inteiro é uma embalagem que a própria planta fabricou.

Moer quebra essa embalagem. Uma porção de 20 gramas de grão inteiro tem poucos centímetros quadrados de superfície exposta ao ar. Depois de moída em granulometria média, a mesma porção passa a ter área de contato milhares de vezes maior, e o gás carbônico começa a sair levando o aroma junto, em questão de minutos.

Quem compra café já moído no mercado compra justamente a parte que não aguenta esperar. O pacote pode ter sido moído semanas atrás, e não existe pote, válvula ou geladeira que devolva o que já saiu.

Hoje o experimento tem uma variável só na mesa. Um pacote único de Bourbon Pontudo, dividido em duas porções de 20 gramas. A primeira foi moída 24 horas antes da coada e guardada em pote de vidro fechado, na bancada da cozinha. A segunda foi moída no instante em que a água chegou aos 93 graus.

Mesma moagem no mesmo clique do moedor, mesmo V60, mesmo papel, mesma água, mesma proporção de 1 grama de café para 16 de água. A diferença entre as duas canecas é o relógio.

Adiante vem o cheiro que sai do pote depois de um dia, o jeito de reconhecer pó velho sem balança, e a conta do pacote moído da prateleira.

Começamos pelo lote que entrou nas duas coadas.

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I  O Grão do Dia

O Bourbon Pontudo que nasceu de uma mutação na Mantiqueira

O grão do dia é um Bourbon Pontudo de Carmo de Minas, região da Mantiqueira de Minas, no Sul de Minas Gerais, processado como natural e vendido em pacote de 250g.

Bourbon Pontudo é varietal, não marca. Apareceu em lavoura de Bourbon Amarelo como mutação natural, com um traço visível a olho nu: o grão termina em ponta, mais estreito e alongado que o Bourbon comum. Produtores da Mantiqueira separaram essas plantas e as propagaram por semente pelo perfil doce da bebida.

Carmo de Minas fica num vale de encostas íngremes acima de mil metros, com noites frias e amplitude térmica alta. Fruto que amadurece devagar carrega mais açúcar dentro da cereja, e o açúcar é a matéria-prima das reações de torra que geram aroma.

Natural quer dizer que o fruto secou inteiro, com casca e polpa em volta do grão, sem lavar e sem remover a mucilagem. A polpa fermenta encostada na semente durante toda a secagem e empurra a xícara para fruta madura, caramelo e corpo mais espesso.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Bourbon Pontudo de Carmo de Minas

Altitude de cultivo1.180 metros
Colheitaduas passadas seletivas, com 93 por cento de fruto cereja na primeira
Secagem16 dias em terreiro suspenso de tela, em camada de 3 centímetros
Umidade final do grão seco10,6 por cento
Perfil de torra10 minutos e 20 segundos no total, com descarga 1 minuto e 30 segundos depois do primeiro estalo
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 58 a R$ 74

O formato bicudo cobra cuidado na torra. A ponta do grão é mais fina que o centro e aquece primeiro, então torrador apressado queima a extremidade antes de o miolo desenvolver, e a xícara sai com amargor de casca sobre um corpo cru.

A torra deste lote parou um minuto e trinta depois do primeiro estalo. Ponto médio preserva o ácido cítrico e os açúcares caramelizados que dão a impressão de jasmim e de doce de leite.

A torra deixa dentro do grão de 6 a 12 miligramas de gás carbônico por grama de café, e esse gás sai devagar pelos poros durante semanas. Enquanto está lá dentro, funciona como tampa: ocupa o espaço e retarda a saída dos voláteis leves.

Grão inteiro fresco é um pote hermético que a planta construiu. O moedor abre esse pote, e o que escapa não volta por nenhum método de preparo.

Na xícara, o resultado é um café de corpo médio, doçura alta, acidez cítrica leve e retrogosto longo de castanha. Notas de caramelo, jasmim e castanha-de-caju, no pacote de 250g entre R$ 58 e R$ 74.

 
 

II  Como Preparar

Duas coadas a 93 graus, e um pote aberto no meio

O preparo deste grão é o V60 em moagem média, água a 93 graus e proporção de 1 grama de café para 16 de água. A variável do dia é o intervalo entre moer e coar: zero minuto contra 24 horas.

Fixe tudo o resto. Mesmo pacote, mesmo moedor no mesmo clique, mesma água mineral, mesmo papel escaldado, mesmo despejo em círculos lentos. Duas variáveis juntas invalidam o teste.

A porção da véspera foi moída às 7h e coada às 7h do dia seguinte, guardada em pote de vidro de tampa de rosca, na bancada, longe do sol. Condição caseira honesta, melhor do que os saquinhos abertos que vivem no armário.

A ficha do preparo:

A ficha das duas coadas no V60

Café20g fixos em cada coada
Água320ml em cada coada
Temperatura93 graus, aferida com termômetro
Moagemmédia, textura de açúcar cristal
MétodoV60 02 com papel branco, escaldado
Pré-infusão40g de água, 30 segundos
Tempo total2min40 na porção fresca, 2min25 na porção da véspera
1  Pese duas porções de 20g do mesmo pacote na noite anterior.
2  Moa uma delas na granulometria média e guarde no pote de vidro fechado.
3  Na manhã seguinte, abra o pote e cheire o pó antes de qualquer outra coisa.
4  Moa a segunda porção na hora, no mesmo clique, e coe as duas em sequência com 320ml a 93 graus.
5  Prove as duas a 55 graus, alternando goles, começando pela que ficou no pote.

O primeiro resultado chega pelo nariz, sem xícara nenhuma. O pote aberto depois de 24 horas cheira a café, só que um café achatado: o doce continua lá de longe, e o que sumiu foi a camada de cima, a parte floral e cítrica que salta do grão recém-moído e abre o nariz.

A coada confirma o que o pote anunciou. A porção da véspera entrega corpo e doçura de caramelo, mas chega plana no meio da boca, sem a camada de jasmim, e o retrogosto de castanha encurta para dois ou três segundos.

Café plano é diagnóstico de nariz antes de ser de paladar: se o pó não devolve aroma ao ser aberto, a xícara não vai inventar aroma depois.

A porção moída na hora sobe no funil com cheiro de flor e de caramelo quente já na pré-infusão. A crosta de gás infla e racha sob a água, sinal de que o gás carbônico ainda estava dentro do pó. No gole, a acidez cítrica aparece na frente da doçura e o final dura uns bons segundos.

O leito de pó também se comporta de outro jeito. O pó velho já perdeu gás, não forma crosta, e a água atravessa mais rápido. Daí os 15 segundos de diferença no tempo total: a coada da véspera escoou antes, extraindo menos.

Guarde as duas canecas e volte nelas depois de dez minutos. A fresca fica mais doce ao esfriar, ainda bebível. A da véspera esfria para um gosto de papelão seco na ponta da língua, e aí a diferença deixa de ser sutil.

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III  O Detalhe

A conta do pacote que chega pronto na prateleira

Moído de mercado é o caso extremo do teste de hoje, com o relógio rodando por semanas em vez de um dia.

Olhe a data de torra, não a de validade. Validade de 12 meses é prazo de segurança do alimento e não diz nada sobre aroma. Para café moído, a janela boa de consumo termina poucos dias depois de aberto.

A conta de quanto custa a conveniência, em números de prateleira:

A conta da conveniência, por pacote e por caneca

Pacote de 250g moído, marca de supermercadoR$ 18 a R$ 26
Pacote de 250g em grão, torra recente de torrefação pequenaR$ 58 a R$ 74
Moedor manual de mós cônicas, entradaR$ 180 a R$ 320
Custo por caneca de 250ml, moído de mercadocerca de R$ 1,30
Custo por caneca de 250ml, este Bourbon Pontudocerca de R$ 4,50

"O café começa a perder sabor poucos minutos depois de moído, e nenhuma forma de armazenamento impede essa perda", escreveu Ted Lingle em The Coffee Brewing Handbook, publicado pela Specialty Coffee Association of America em 1996.

Ted Lingle · The Coffee Brewing Handbook · 1996

A diferença de preço não se explica só pela moagem: lote rastreado de Carmo de Minas custa mais caro no verde, passa por colheita seletiva e torra em lotes pequenos. Ainda assim, o comprador de moído paga pelo produto inteiro e recebe a parte que já evaporou.

Existe um mito de que a geladeira resolve. Frio retarda a oxidação, mas o pó absorve umidade e cheiro do ambiente, e cada saída da geladeira molha a superfície dele. Congelar grão inteiro, em porção fechada que só sai uma vez, funciona. Pó aberto na porta da geladeira não.

Na nossa opinião: o moedor manual de entrada muda mais a xícara por real gasto do que trocar de funil ou de chaleira. Ele se paga em poucos meses se você já compra café especial, porque para de jogar no lixo a metade aromática do que pagou.

Teste amanhã de manhã: moa 40g deste café, coe 20g na hora e deixe os outros 20g no pote fechado até a manhã seguinte. Ao abrir o pote, cheire antes de coar e conte quantos aromas você consegue nomear, contra os que nomeou no pó fresco. A expectativa é cair de três ou quatro descritores para um só, o doce genérico. Se você nomear a mesma quantidade nos dois, o seu moedor está deixando o pó grosso demais e o aroma nem chegou a sair.

"Você já cheirou o pote antes de coar, ou só depois de a xícara decepcionar?"

 
 

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