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15ª pauta escolhida pelos leitores na urna de 29/09: Vitória Incaper 8142. Sai em 03/10.
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Por que o café que boia no lavador vira outro lote
No tanque da fazenda, a cereja cheia afunda e o fruto seco sobe. A separação na água, antes do terreiro, decide o valor do lote.
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Cerejas de café no tanque do lavador
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Às seis da manhã, no pátio de uma fazenda do Sul de Minas, a carreta despeja a colheita da véspera num tanque de alvenaria cheio de água. Os frutos caem com barulho de chuva grossa e, por alguns segundos, tudo parece a mesma massa vermelha e escura. Então a água faz a triagem. A cereja madura, pesada de polpa e com as duas sementes bem formadas, desce para o fundo. Na superfície fica uma camada que o produtor chama de boia: fruto seco no pé, fruto passado, fruto furado pela broca (um besouro minúsculo que cava o grão por dentro) e fruto chocho, aquele em que a semente não encheu. A explicação cabe numa bacia de cozinha. Fruto cheio é denso e afunda. Fruto que perdeu água, que guarda ar dentro de uma galeria de broca ou que formou semente pela metade fica mais leve que a água e sobe. O lavador (o conjunto de tanque, bica e peneiras que recebe o café da roça) aproveita essa diferença. Um fluxo de água corre pela superfície e empurra a boia para uma calha de saída. O café que afundou sai por baixo, por outro cano, e segue para o descascador. Dali em diante, os dois montes nunca mais se encontram. Cada um vai para o seu canto do terreiro, seca no seu tempo e entra na tulha (o depósito de café seco da fazenda) com etiqueta própria. Quem prova só a xícara não vê o tanque, mas prova o resultado dele. Um lote em que a boia ficou misturada carrega gosto de fruta passada, de terra e de madeira velha. Um lote limpo chega doce e com acidez nítida. A separação leva poucos minutos e custa só água e atenção. Mesmo assim, é ali, antes de o café tocar o chão do terreiro, que se decide boa parte do preço da saca. O grão desta manhã saiu do fundo do tanque, e a história dele começa no minuto em que a boia foi embora pela calha. Continue lendo ↓
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I O Grão do Dia
Um Mundo Novo que ficou no fundo
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O grão do dia é um Mundo Novo de Carmo de Minas, no Sul de Minas Gerais, cultivado a 1.100 metros, colhido à mão no pano e separado no lavador. Foi processado como honey (mel, em inglês), versão do cereja descascado em que parte da mucilagem (a polpa doce e grudenta do fruto) seca colada ao grão, e pontuou 86 na prova de xícara da SCA (Specialty Coffee Association, a associação internacional de cafés especiais).
O caminho dele começa no fundo do tanque. Da saída de baixo, as cerejas maduras vão para o descascador, uma máquina que aperta o fruto contra uma grade e solta a casca vermelha. O fruto verde que tenha afundado junto resiste à pressão e fica para trás, numa segunda triagem.
O que sai do descascador é o grão ainda envolto em mucilagem. No honey, o produtor escolhe quanto dessa polpa deixar: pouca rende o honey amarelo; mais polpa rende o vermelho e o preto, que secam mais devagar e ficam mais doces e encorpados.
A ficha do lote, em números:
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A ficha do Mundo Novo de Carmo de Minas
| Variedade | Mundo Novo, cruzamento natural de Sumatra com Bourbon Vermelho |
| Origem | Carmo de Minas, Sul de Minas Gerais |
| Altitude de cultivo | 1.100 metros |
| Colheita | manual, no pano |
| Separação | lavador com tanque de água, boia fora do lote |
| Processo | honey amarelo, secagem em terreiro suspenso |
| Nota na prova da SCA | 86 pontos |
| Perfil de torra | média clara |
| Faixa de preço do pacote de 250g | R$ 55 a R$ 70 |
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O Mundo Novo foi selecionado pelo Instituto Agronômico de Campinas a partir de plantas encontradas no município de Mundo Novo, hoje Urupês, no interior paulista. É uma árvore alta, de fruto graúdo e maturação espaçada, e por esse motivo o lavador pesa tanto: no mesmo pano caem cerejas no ponto e frutos que já secaram no galho.
No terreiro suspenso (uma mesa comprida de tela, a quase um metro do chão), o lote que afundou seca em camada fina e é revirado várias vezes ao dia. A polpa grudada atrai insetos e fungos, então a secagem é vigiada até o grão chegar entre 11% e 12% de umidade, a faixa que o mercado aceita para armazenar.
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O tanque devolve ao café bom a chance de ser provado sozinho.
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Sem a boia no meio, a secagem corre por igual. Todos os grãos do terreiro têm a mesma idade, a mesma umidade de partida e o mesmo teor de açúcar, e chegam juntos ao ponto de ensacar.
Na xícara, um café de corpo médio para alto, doçura de rapadura e acidez de fruta amarela. Notas de pêssego, mel e chocolate ao leite, sem o travo de fruta passada que a boia deixaria.
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II Como Preparar
Um coador para provar o que afundou
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O preparo de hoje é o coador de papel em cone, do tipo Hario V60: 16 gramas de café, 250 mililitros de água a 92 graus, moagem média e cerca de três minutos e meio do primeiro jato à última gota.
A escolha tem motivo. O honey guarda uma doçura que a prensa francesa, método de imersão, embola com corpo pesado. O papel segura óleo e borra fina, e a bebida mostra com clareza se o lote veio limpo do tanque.
A ficha do preparo:
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A ficha do coador de papel
| Café | 16g, moído na hora |
| Água | 250ml, filtrada, a 92 graus |
| Proporção | cerca de 1 para 15,5, em peso |
| Moagem | média, parecida com açúcar cristal |
| Método | coador de papel em cone |
| Tempo | cerca de 3 minutos e meio |
| Rendimento | 1 xícara grande de cerca de 220ml |
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| 1 Enxágue o filtro de papel com água quente e descarte essa água. |
| 2 Ponha cone e jarra na balança, zere e coloque 16g de café moído. |
| 3 Faça a pré-infusão (um jato curto, só para molhar o pó): 35ml de água e 40 segundos de espera. |
| 4 Despeje o restante em três etapas, em círculos lentos, até a balança marcar 250g. |
| 5 Espere a última gota, gire a jarra e sirva. |
A água a 92 graus, um pouco abaixo da receita comum, protege a doçura. Lote de honey tem açúcar à flor da pele, e água quente demais puxa o amargor da torra antes de a doçura aparecer.
Despejar em três etapas mantém o pó sempre coberto, sem inundar o cone. A água atravessa a camada de café de forma regular e não abre atalho pelo centro.
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Um lote limpo no tanque pede o preparo mais simples: basta não atrapalhar.
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Se a xícara sair azeda e fina, afine a moagem um ponto. Se sair amarga, com gosto de casca, engrosse a moagem ou baixe a água para 90 graus.
Vale também um teste de contraste. Prepare a mesma receita com um café de supermercado sem origem declarada e prove os dois mornos, dez minutos depois de coados. Com a bebida esfriando, defeito aparece com mais clareza: gosto de terra, de papelão ou de fermentado surge na língua.
A diferença que você sente nesse teste nasce, em boa parte, na água do lavador. O café de origem declarada passou por uma separação que o café sem origem quase nunca garante.
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