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ED 080

O Castillo lavado que Nariño colhe a 2.000 metros

Um arábica do cânion do Juanambú, colhido a dedo em ladeira, secado em marquesina e provado no Hario Switch.

Coador de vidro com chave na base sobre garrafa de vidro numa mesa de madeira gasta em sítio de montanha na parede de um cânion no sul da Colômbia, com chaleira de bico fino, balança digital, tigela rasa de grãos verdes pequenos, tangerina descascada, pedaço de rapadura e quadradinhos de chocolate ao leite na mesa, pacote kraft de 250g meio aberto, xícara branca de porcelana com líquido âmbar claro e, ao fundo, uma marquesina de madeira coberta de plástico com o café pergaminho secando em camada fina, um cesto de colheita com alça de cintura e as fileiras de café descendo pela encosta íngreme até a garganta do rio

O Hario Switch e os grãos de Castillo na bancada

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Todo mapa de café tem um teto. Acima de certa altitude o arábica para de produzir: a floração não vinga, a geada queima a folha nova e o fruto trava no galho sem encher. No Brasil esse teto fica por volta dos 1.400 metros, e subir mais é apostar contra o inverno.

Perto da linha do Equador o teto sobe junto com a montanha. Sem estação fria de verdade, sem risco de geada e com o sol quase a pino o ano inteiro, o cafeeiro aguenta mais mil metros de encosta e continua dentro da faixa em que produz.

O grão de hoje cresce nessa parte alta, entre 1.800 e 2.100 metros, numa ladeira que trator nenhum sobe. A colheita é feita a pé, com o cesto amarrado na cintura e o corpo escorado no barranco, e o café desce da roça nas costas de quem colheu.

A altitude cobra o preço em tempo. À noite o termômetro cai para a casa dos 10°C, a planta desacelera e o fruto que em terra quente fecha o ciclo em seis meses leva oito ou nove na encosta. Cada semana a mais é açúcar depositado dentro do grão.

O processo é lavado, o contrário do café que seca com a fruta grudada. A cereja é despolpada no mesmo dia, fermenta submersa até a mucilagem soltar e vai para a secagem já limpa, com a doçura toda guardada dentro da semente.

A xícara sai com tangerina no ataque, rapadura no meio de boca e um fundo de chocolate ao leite. Acidez viva, doce redondo e nenhum peso de fruta passada, que é o rastro comum de um natural bem seco.

A altitude ainda mexe no calendário da safra e no jeito de secar o lote, e as duas coisas terminam na xícara. O Grão do Dia começa no cânion do Juanambú, no extremo sul da Colômbia, onde a lavoura ocupa as duas paredes do vale.

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I  O Grão do Dia

Ladeira de subir a pé no cânion do Juanambú

O grão do dia é um Castillo lavado colhido nas encostas do cânion do Juanambú, em Nariño, o departamento mais ao sul da Colômbia, colado na fronteira com o Equador.

O Juanambú é um rio encaixado no fundo de um vale, a caminho do Patía. As lavouras ocupam as duas paredes do cânion, em faixas estreitas entre a mata e o precipício.

A faixa de plantio vai de 1.800 a 2.100 metros. Nariño tem café acima dos 2.000 em vários municípios, altitude que quase todo o resto do mundo trataria como alta demais.

A produção é miúda. A propriedade média do departamento não chega a um hectare de café, a colheita sai da própria família e a safra é contada em sacas, não em caminhão.

A inclinação define o resto. Boa parte do cafezal está em terreno de 40% a 60% de declive, onde não entra trator nem mula, e cada saco desce apoiado nas costas até a estrada de terra.

O varietal é o Castillo, criado pelo Cenicafé e entregue aos produtores em 2005. Cruzamento de Caturra com Híbrido de Timor, resistente à ferrugem e com fama antiga de grão comum na xícara.

Em altitude alta a fama não se sustenta. O mesmo Castillo que entrega bebida sem graça a 1.200 metros vira café doce e cítrico a 2.000, desde que a colheita separe cereja madura de fruto verde.

A colheita é seletiva, feita a dedo em várias passadas na mesma planta. Na ladeira íngreme cada passada custa uma subida inteira, e é o que mais encarece o lote.

O processo é lavado. A cereja vai para o despolpador no mesmo dia em que sai do pé, e o grão segue com a mucilagem grudada para um tanque de fermentação.

No frio da altitude a fermentação anda devagar: de 18 a 30 horas, contra as 12 a 18 de uma região quente. Depois o café é lavado em água corrente até sair limpo.

A secagem é em marquesina, o secador solar colombiano. Estrutura de madeira coberta com plástico transparente, o café espalhado em camada fina lá dentro, revolvido várias vezes ao dia, de 8 a 15 dias, até a umidade cair para perto de 11%.

Marquesina não é luxo, é necessidade. Chove demais em Nariño para secar café em terreiro aberto, e o plástico deixa o sol entrar e a chuva de fora.

Castillo lavado do cânion do Juanambú, colhido a dedo entre 1.800 e 2.100 metros: fermentação longa no frio e marquesina no lugar do terreiro.

Na xícara, o Castillo de Nariño abre em tangerina, passa por rapadura no meio de boca e fecha num fundo de chocolate ao leite. Faixa de preço dos 250g em torrador nacional, com data de torra na etiqueta: R$ 90 a R$ 140.

 
 

II  Como Preparar

A chave abre primeiro e só fecha no fim

A prova de hoje é no Hario Switch, o coador de vidro com uma chave na base. Por dentro é o cone de sempre, e uma bolinha de aço veda a saída quando a chave desce.

A ordem do preparo é invertida em relação ao uso mais comum do aparelho: a chave começa aberta e só fecha no fim. Primeiro percolação, depois imersão.

A escolha tem motivo. Lavado de altitude tem acidez fina e aroma volátil, e a percolação do começo entrega essa camada limpa, sem o abafamento que a água parada provoca logo de cara.

A imersão no fim resolve a outra metade. Os últimos segundos com a água parada puxam o doce de rapadura e o corpo que um coado comum deixa preso no pó.

A receita: 18g de café para 270ml de água a 94°C, moagem média-fina, moída na hora, filtro de papel de cone tamanho 02 já escaldado. Cronômetro rodando desde o primeiro contato da água com o pó.

Comece com a chave para cima, válvula aberta. Molhe o pó com 45ml e espere 40 segundos: o café incha, solta o gás carbônico preso na torra e o excesso de água escorre livre pelo papel.

Complete até 180ml em despejo calmo, em círculos, sem bater na borda do filtro. A bebida continua descendo enquanto você despeja.

Ao 1 minuto e 30 segundos, vire a chave para baixo. A válvula fecha, o funil vira pote e você completa até os 270ml com a água parada em cima do pó.

Aos 2 minutos e 30 segundos, abra a chave de novo. A bebida desce em 40 a 60 segundos e o preparo fecha em pouco mais de 3 minutos.

A cama de pó tem que terminar plana. Cratera no meio significa despejo forte demais; borda alta e seca no papel significa que parte do café ficou de fora da extração.

A régua do Castillo no Switch

Receita18g de café para 270ml de água a 94°C
Moagemmédia-fina, um ponto abaixo da do coado
Percolaçãochave aberta, 45ml de bloom por 40 segundos
Imersãochave fechada de 1min30 a 2min30, com os 270ml completos
Total3 minutos a 3 minutos e 15 na xícara
Custo por xícara250g rendem 13 canecas, de R$ 7 a R$ 11 cada

Moagem média-fina funciona porque o pó passa a maior parte do tempo escoando, e não parado. Moagem grossa nesse desenho entrega xícara rala, com a acidez cítrica virando gosto de água com limão.

Água a 94°C, dois graus acima do padrão de coado. Grão denso de altitude é duro de extrair, e temperatura de sobra é o que tira a tangerina de dentro dele sem precisar moer mais fino.

Sirva em xícara larga e beba em duas temperaturas. A tangerina aparece nos primeiros goles, ainda quente, e o chocolate ao leite só chega quando a bebida baixa dos 55°C.

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III  O Detalhe

A noite fria que empurra a safra

Agora o mecanismo por trás da encosta. Um cafezal a 2.100 metros produzindo bem soa fora de lugar, e a explicação junta a linha do Equador e a forma do vale.

Comece pelo calendário. No grosso da Colômbia a safra principal vai de setembro a dezembro. Em Nariño o pico cai no meio do ano, entre abril e julho, e a lavoura do sul colhe quase em contramão do país.

Quem manda no calendário é a floração, e quem manda na floração é a chuva. O sul colombiano tem outro desenho de estação chuvosa, e a florada acontece meses antes da do centro do país.

A altitude estica o resto. A cada 100 metros de subida o termômetro cai perto de 0,6°C, e mil metros tiram uns 6°C da média do fundo do vale.

Frio atrasa o amadurecimento. A cereja que em terra quente fecha o ciclo em seis meses leva oito ou nove na parte alta, e o intervalo entre florada e colheita empurra a safra ainda mais para a frente.

O cânion faz a segunda metade do trabalho. Durante o dia o ar quente do fundo do vale sobe pela parede de pedra e aquece a lavoura na hora do sol, o que impede a altitude de travar a planta.

À noite o movimento se inverte. O ar esfria, fica pesado e escorre encosta abaixo, e a temperatura despenca para a casa dos 10°C. A diferença entre o pico do dia e o fundo da noite passa dos 12 graus.

A amplitude é a fábrica de açúcar. De dia a folha faz fotossíntese a plena carga; de noite o frio corta a respiração da planta, que gasta menos do que produziu, e a sobra fica guardada no fruto.

A marquesina fecha a conta. Nariño tem chuva espalhada pelo ano inteiro, e um terreiro aberto deixaria o lote tomar água no meio da secagem, o caminho mais curto para fermentação errada e gosto de mofo.

Debaixo do plástico o café seca devagar e por igual, de 8 a 15 dias. Secagem lenta preserva a acidez de tangerina; sol direto e pressa racham o grão e apagam o aroma.

Agora a parte do dinheiro. O pacote de 250 gramas custa mais que um microlote brasileiro de qualidade parecida, e não por ser melhor: entra imposto de importação, frete internacional e câmbio no preço.

Na nossa opinião: vale a compra para quem gosta de café cítrico e limpo, do tipo que se bebe puro e num coador. Quem toma café com leite todo dia vai achar a bebida leve demais dentro do copo.

A prova está na ladeira. Fruto colhido a dedo a 2.000 metros, fermentado no frio e seco debaixo de plástico por duas semanas, para que a tangerina e a rapadura cheguem inteiras na sua xícara.

 
 
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No preparo do Grão do Dia no Hario Switch, qual é a ordem correta da chave?

AFechada do início ao fim
BAberta do início ao fim
CAberta no início, fechada no fim
DFechada no início, aberta no fim

Resultado da última edição: 60% acertaram.

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