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Notas do Café   Notas do Café
ED 081

O Catuaí que virou lavado e natural no mesmo terreiro

Um Catuaí Amarelo do Cerrado Mineiro colhido num dia só, metade despolpada e metade secada dentro da cereja, coadas lado a lado no V60.

Dois coadores cônicos iguais lado a lado sobre duas jarras de vidro numa mesa de madeira gasta em fazenda de chapadão no Cerrado Mineiro, com uma chaleira de bico fino e uma balança digital entre eles, duas tigelas rasas à frente, a da esquerda com grãos de pergaminho lavado claro e a da direita com cerejas inteiras secas e enrugadas, dois pacotes kraft de 250g meio abertos, duas xícaras brancas de porcelana com café de tons diferentes e, ao fundo, um terreiro suspenso dividido ao meio com café lavado de um lado e cereja inteira do outro, as fileiras baixas de café indo até o horizonte seco

Dois V60 lado a lado e as duas metades do lote

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Café é semente de fruta. Dentro da cereja madura tem casca, polpa e uma camada grudenta em volta do grão, a mucilagem, que carrega perto de 15% de açúcar no próprio peso. A diferença entre dois cafés do mesmo pé começa no que se faz com essa camada nas primeiras horas depois da colheita.

A decisão é curta e não tem volta. Ou a cereja passa no despolpador ainda no dia, perde casca e polpa e vai pra secagem com o grão quase limpo, ou ela é espalhada inteira no terreiro e seca com a fruta grudada, murchando até virar uma passa em volta da semente.

Os dois caminhos têm nome no rótulo. Lavado é o primeiro, natural é o segundo, e a palavra costuma vir em letra miúda perto da altitude e da data de torra, num canto do pacote que quase todo comprador passa batido.

Nenhum dos dois é o certo. O lavado se firmou onde chove no meio da colheita e secar fruta inteira daria mofo. O natural se firmou onde o sol e o vento dão conta do serviço, e o sol de sobra fez do Brasil o maior produtor de café natural do mundo.

A promessa de balcão é sempre a mesma: lavado é limpo, natural é doce. Frase de balcão só vira conhecimento quando as duas xícaras estão na mesa ao mesmo tempo, com a mesma água e o mesmo relógio. Sem as duas juntas, o que se compara é memória de dias diferentes.

Pra prova valer, todo o resto tem que sair do caminho. Mesma lavoura, mesmo talhão, mesma data de colheita, mesmo ponto de maturação, mesma torra e o mesmo coador na bancada. Sobra uma variável só, e ela aparece já no aroma do pó seco.

Foi o que um produtor do Cerrado Mineiro montou com meia tonelada de cereja, pesada e partida ao meio ainda no terreiro. O Grão do Dia começa nesse talhão de Catuaí Amarelo, no chapadão plano onde a estação seca deixa o café secar em paz.

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I  O Grão do Dia

Meia tonelada de cereja partida ao meio

O grão do dia é um Catuaí Amarelo do Cerrado Mineiro, região delimitada de 55 municípios no oeste e no alto Paranaíba de Minas, com lavoura entre 900 e 1.100 metros de altitude.

O relevo ali é chapadão, plano de enxergar longe. Latossolo profundo e ácido, corrigido com calcário há décadas, e talhão largo o bastante pra colhedora atravessar a rua sem manobra.

O calendário é o que separa a região do resto. A chuva se concentra de outubro a março e some quase por completo de maio a setembro, justo quando a cereja está madura no pé.

Colheita em tempo seco muda o que dá pra fazer no terreiro. Onde chove na safra, café espalhado com a fruta inteira toma água e azeda; no chapadão sobram meses de sol firme.

O varietal é o Catuaí Amarelo, criado no Instituto Agronômico de Campinas do cruzamento entre Caturra Amarelo e Mundo Novo. Porte baixo, pé produtivo e cereja que amadurece do verde pro amarelo vivo, sem passar pelo vermelho.

É a variedade mais plantada do Brasil, e nada nela é raro. A graça do lote de hoje não está na planta, está no que houve com a fruta depois do galho.

A colheita foi de um dia só, com o talhão no ponto e a maior parte da rua em cereja. Meia tonelada de fruta desceu pro terreiro e foi pesada logo na chegada.

Ali o lote virou dois. Duzentos e cinquenta quilos de cereja pra cada lado, mesma balança, mesma data, e daí em diante dois caminhos que não se encontram mais.

A primeira metade foi despolpada no mesmo dia. A máquina descasca a cereja e empurra o grão com a mucilagem grudada pra um tanque, onde ele fermenta submerso por 16 horas até a camada soltar.

Depois vem a lavagem, o passo que dá nome ao processo. Água corrente até o grão sair sem nada grudado, e daí pro terreiro suspenso, onde seca em oito dias até 11% de umidade.

A segunda metade não passou por máquina nenhuma. A cereja inteira foi espalhada em camada fina no terreiro, revolvida com rodo várias vezes ao dia e coberta com lona à noite contra o orvalho.

Fruta inteira seca devagar. Foram de 18 a 22 dias até a mesma umidade de 11%, com a casca murchando em volta da semente até virar uma passa dura e escura.

Do beneficiamento em diante os dois lotes voltaram a andar juntos: 30 dias em pergaminho na tulha, mesma peneira e a mesma torra média parada pouco depois do primeiro estalo.

Um talhão, uma colheita, dois terreiros: o mesmo Catuaí Amarelo saiu da secagem com dois nomes no rótulo.

Na xícara, a metade lavada chega com notas de laranja-baía, caramelo claro e amêndoa, de corpo leve e acidez viva. A metade natural chega com notas de morango, chocolate ao leite e rapadura, de corpo denso e acidez baixa. Faixa de preço dos 250g de cada uma, em torrador nacional com data de torra na etiqueta: R$ 55 a R$ 85.

 
 

II  Como Preparar

Duas coadas no V60 com a mesma receita

A prova de hoje é no V60, o cone de ranhura espiralada com o furo grande embaixo. É o coador que menos esconde diferença: a água atravessa rápido e o que o grão tem de acidez aparece inteiro.

A regra da prova é uma só: nada pode mudar entre uma xícara e a outra. Mesma água, mesma temperatura, mesma moagem, mesmo tempo e o mesmo filtro nos dois coadores.

A receita: 15g de café pra 250ml de água a 93°C, moagem média, moída na hora, filtro de papel tamanho 02 escaldado com o cone já em cima da jarra.

Escalde o papel com água fervente e jogue fora a água do enxágue. Papel mal escaldado devolve gosto de celulose, e num teste lado a lado ele entra nas duas xícaras.

Comece pelo lavado. Molhe o pó com 45ml e espere 40 segundos: a cama incha, o gás sai e a água encontra caminho parelho pelo leito.

Complete até 150ml em círculos calmos, sem bater na borda do papel. Espere baixar até o pó reaparecer e complete até os 250ml.

A bebida termina de descer entre 2 minutos e 45 e 3 minutos e 15. Cratera no meio da cama significa despejo forte demais; borda alta e seca no papel significa café fora da extração.

Repita o mesmo roteiro com o natural, sem mudar um número sequer. Se o moedor for o mesmo, purgue 3g do novo café antes de pesar a dose, pra não levar pó do anterior pro teste.

A régua das duas xícaras

Receita15g de café pra 250ml de água a 93°C
Moagemmédia, a mesma nas duas xícaras
Bloom45ml de água por 40 segundos
Despejosaté 150ml e depois até 250ml
Total2min45 a 3min15 na jarra
Custo por xícara250g rendem 16 canecas, de R$ 3,50 a R$ 5,50 cada

Sirva as duas em xícaras iguais e prove em ordem trocada. Peça pra alguém embaralhar os copos, porque saber qual é qual antecipa o sabor que você espera sentir.

Comece pelo aroma do pó ainda seco. O lavado costuma abrir cítrico e enxuto; o natural abre com cheiro de fruta madura, quase de doce em calda, antes de qualquer gota de água.

Depois vá pela boca em três passos: acidez na ponta da língua, corpo no meio, retrogosto no que fica depois de engolir. Anote uma palavra por xícara em cada passo.

Beba as duas em duas temperaturas. Fervendo, o lavado parece ralo e o natural parece pesado; abaixo dos 55°C o cítrico do lavado vira laranja doce e a fruta do natural vira chocolate.

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III  O Detalhe

A camada grudenta que decide o corpo

Agora o mecanismo. Duas xícaras tão diferentes do mesmo grão parece exagero, e a explicação cabe naquela camada grudenta entre a polpa e a semente.

A mucilagem é uma fina camada de pectina com açúcar dissolvido, algo entre 15% e 20% de açúcar no peso dela. É comida pronta pra qualquer levedura que passe por perto.

No lavado, essa camada sai antes de secar. O grão vai pro terreiro praticamente limpo, perde água em poucos dias e chega ao fim com pouca coisa além do que já estava dentro da semente.

O resultado é uma xícara transparente. Sem a doçura extra por cima, os ácidos do próprio grão ficam expostos, e é por aí que o lavado costuma parecer mais cítrico e mais leve de corpo.

No natural, a semente passa três semanas dentro de uma fruta murchando. A água sai devagar pela casca, e enquanto sai, levedura e bactéria da própria cereja trabalham o açúcar da polpa.

Essa fermentação lenta produz álcool e éster, os mesmos compostos que dão cheiro de fruta madura no vinho. Parte deles atravessa a casca e fica no grão.

O grão natural também termina com mais sólido solúvel. Mais sólido dissolvido na água é mais corpo na boca, e é daí que vem a fama de xícara densa.

A conta tem risco do outro lado. Fermentação sem controle passa do ponto e vira defeito: gosto de fruta passada, de vinagre, de fermento azedo, e no pior caso o mofo que condena o lote.

Secar fruta inteira exige mão. Camada fina, rodo de hora em hora pra fruta não grudar, lona contra o orvalho e leitura de umidade todo dia.

É por aí que a região entra na conversa. No chapadão do Cerrado a colheita cai dentro da estação seca, com sol firme, umidade baixa e vento, e o lote termina de secar antes de qualquer chuva.

O lavado tem o problema oposto. Resolve a secagem em poucos dias, mas gasta água e produz um efluente doce que precisa de destino, e é essa a parte que o despolpador ecológico encurtou.

Agora a parte do dinheiro. Os dois pacotes saem quase pelo mesmo preço, porque o que o natural gasta a mais em terreiro e em tempo, o lavado gasta em água, energia e tanque.

Na nossa opinião: quem toma café puro no coador e gosta de acidez leva o lavado; quem toma com leite, ou procura doçura sem açúcar, leva o natural. Comprar os dois de uma vez é o jeito mais barato de descobrir de que lado você está.

A prova cabe numa manhã de sábado. Meia hora, duas xícaras, um pacote de cada, e a palavra miúda do rótulo vira a primeira coisa que você lê num pacote.

 
 
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