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ED 096

A colhedora que derriça o pé inteiro numa passada só

No cerrado plano, a máquina tira verde e cereja no mesmo movimento e a qualidade passa a depender da vibração da haste.

Coador V60 de cerâmica com filtro de papel sobre mesa de madeira gasta na beira de um cafezal plano do cerrado, chaleira de bico fino ao lado, bandeja rasa com cerejas de café em três estágios, verdes, vermelhas maduras e escuras passadas, um punhado de café em pergaminho seco sobre pano de linho, tigela branca de prova com café moído, um pedaço de rapadura e amendoins torrados numa tabuinha, pacote kraft de 250g meio aberto e, ao fundo desfocado, uma colhedora automotriz montada sobre a linha de café em solo vermelho plano na luz da manhã

A derriçadeira sobre a linha no chapadão

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A colhedora entra no talhão às seis da manhã e engole a linha de café inteira. A máquina anda escanchada sobre a rua, com o pé de café passando por dentro dela, e duas cortinas de hastes de nylon giram nas laterais batendo nos ramos de baixo para cima.

O barulho do motor é constante e a cena é rápida. Em quarenta minutos ela limpa um hectare que sessenta pessoas levariam um dia inteiro para colher a dedo.

O detalhe que decide o café do ano está no que cai na esteira. A haste não escolhe fruto: ela derruba o que estiver frouxo o bastante para se soltar com a vibração que o operador programou no painel.

Numa lavoura de cerrado, a florada é razoavelmente uniforme, então boa parte do pé amadurece junto. Razoavelmente não é totalmente. Na mesma passada descem cereja madura, fruto verde que ainda estava preso e passa seca que já murchou no galho.

Tudo cai na mesma bica, e a partir daí o café que vai chegar na sua xícara não depende mais de quem colheu. Depende de duas coisas: da frequência de vibração escolhida antes da máquina entrar, e da separação feita depois que a carreta descarrega no lavador.

A fama injusta do café mecanizado nasce daí. A máquina não é inimiga da qualidade, ela só transfere a decisão de lugar. O que a catadora fazia com o olho e a mão na roça de montanha, o cerrado faz com regulagem de rotação, água corrente e mesa de repasse.

Quando a operação acerta essa sequência, o resultado é um lote grande, previsível e barato para o padrão do café especial brasileiro. Quando erra, o verde entra junto e a xícara sai adstringente, com aquele amargo verde que nenhuma torra conserta.

O grão de hoje sai exatamente dessa lógica: um Catuaí Amarelo de chapadão plano, colhido por máquina numa passada só, que só é bom porque a separação depois do talhão foi feita direito.

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I  O Grão do Dia

O Catuaí Amarelo do chapadão de Patrocínio

O grão do dia é o Catuaí Amarelo do chapadão de Patrocínio, no Cerrado Mineiro, arábica de processo natural colhido inteiramente por máquina.

A geografia é o primeiro motivo de a máquina existir ali. O chapadão é plano de verdade, com declividade abaixo de oito por cento na maior parte da área, e a colhedora automotriz precisa de terreno plano para andar escanchada sobre a linha sem tombar.

A altitude fica entre 900 e 1.100 metros, mais baixa que a das montanhas da Mantiqueira. A consequência na xícara é direta: menos acidez e mais corpo, com a doçura aparecendo em registro de melaço em vez de registro cítrico.

O clima fecha o desenho. O cerrado tem estação seca marcada de maio a setembro, e a seca é o que permite processo natural em larga escala, porque o fruto seca no terreiro sem risco de chuva estragar a fermentação.

O varietal também foi escolhido pensando na máquina. O Catuaí é uma planta de porte baixo, cruzamento antigo entre Mundo Novo e Caturra, e o porte baixo é o que deixa o pé caber dentro do túnel da colhedora sem quebrar ramo.

O amarelo tem uma vantagem prática e uma desvantagem. Ele amadurece um pouco mais cedo e costuma render mais doçura, mas o fruto amarelo maduro se confunde com o verde à distância, o que dificulta a decisão do momento da entrada da máquina.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Catuaí de Patrocínio

Altitude de cultivo900 a 1.100 metros
Declividade do talhãoabaixo de 8 por cento
Frequência de vibração das hastes700 a 1.000 ciclos por minuto
Uma passada de colhedoracerca de 40 minutos por hectare
Umidade final do grão seco11 por cento
Faixa de preço dos 250gR$ 42 a R$ 68

A colheita é feita em passada única, o que no jargão da fazenda se chama derriça total. A máquina não volta no mesmo talhão para pegar o que amadureceu depois, porque uma segunda passada custa combustível, hora de máquina e janela de secagem.

A haste derruba o que estiver frouxo, não o que estiver maduro.

A regulagem da vibração é a variável que o operador controla. Vibração baixa derruba só o fruto mais frouxo, que é o maduro e o passa, e deixa verde no pé, mas derruba pouco. Vibração alta derruba quase tudo, inclusive verde e folha.

Depois que a carreta descarrega, a separação começa por água. O lavador separa por densidade em três frações: o boia, que é o fruto seco e leve, o cereja, que afunda, e o verde, que tem densidade parecida com o cereja e é o problema real.

Na xícara, com a separação bem feita, esse Catuaí abre em rapadura, mostra amendoim torrado no meio e fecha em maçã madura, com corpo alto e acidez baixa. Notas de rapadura, amendoim torrado e maçã madura. Faixa de preço dos 250g: R$ 42 a R$ 68.

 
 

II  Como Preparar

O V60 que segura a doçura sem puxar adstringência

O preparo é no V60 de papel, o coador cônico de parede lisa com as ranhuras em espiral, na versão de uma a duas xícaras.

A escolha tem a ver com o defeito que esse café pode carregar. Lote de derriça total sempre corre risco de trazer alguma fração verde residual, e verde na xícara aparece como adstringência, aquela secura que puxa a língua no fim do gole.

O cone do V60 combate exatamente essa faixa. Ele drena rápido, e drenagem rápida limita a extração dos compostos que saem por último, que são justamente os amargos e os adstringentes.

Um método de imersão faria o contrário. Prensa francesa e clever seguram o pó dentro da água por minutos e extraem tudo por igual, o que num café assim significa entregar o defeito junto com a doçura.

A régua do preparo:

A régua do Catuaí de Patrocínio no V60

Receita22g de café para 350ml de água
Proporção1 para 16
Água91°C a 92°C, filtrada
Moagemmédia, textura de areia grossa
Pré-infusão45ml de água por 30 segundos
Tempo totalentre 2min30 e 3min do primeiro despejo ao fim do gotejo
Custo por preparo250g rendem perto de 11 doses, de R$ 3,80 a R$ 6,20

Escalde o filtro e despreze a água do escaldo. O papel do V60 é fino e solta menos gosto que o de coador grosso, mas a água do escaldo aquece o cone de cerâmica e cone frio derruba a temperatura da extração em vários graus.

Use água um pouco mais fria que o padrão, entre 91 e 92 graus. Esse café tem torra média e alta doçura, e água fervendo puxa amargor de casca que compete com a rapadura.

Verde na xícara não aparece como amargor, aparece como secura no fim do gole.

Faça a pré-infusão com 45ml e espere trinta segundos. Café natural tem mais açúcar residual grudado no grão e libera mais gás carbônico, então a espuma sobe alto na pré-infusão e precisa desse tempo para assentar.

Despeje o restante em dois movimentos em espiral, do centro para fora, sem encostar o fio de água na parede do papel. Café encostado na parede escorre sem extrair e desequilibra a receita inteira.

Não deixe o leito secar entre os despejos. No V60 o fluxo é contínuo por natureza, e leito seco no meio do preparo cria caminho preferencial da água, que passa direto por um lado e superextrai o outro.

Encerre em três minutos no máximo. Se o seu gotejo estiver passando disso, a moagem está fina demais para esse grão: abra um ponto no moedor antes de mexer em qualquer outra variável.

Prove morno, por volta de 65 graus. É nessa faixa que o amendoim torrado se separa da rapadura, e é nela que uma eventual adstringência de verde aparece sem disfarce, o que serve de teste honesto do lote que você comprou.

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III  O Detalhe

A separação que acontece depois do talhão

O trabalho que define a qualidade de um café mecanizado acontece no pátio, não na lavoura. A colhedora entrega uma massa misturada, e a fazenda tem poucas horas para separar aquilo antes que a fermentação comece sozinha.

A primeira etapa é o lavador de água. O fruto passa por um canal com água corrente e se separa por densidade: o boia sobe, o cereja e o verde afundam. Boia vira lote comercial de preço menor, e o cereja segue para o terreiro.

A separação entre cereja e verde é a etapa difícil. Os dois têm densidade parecida e o lavador não resolve sozinho, então entra o repasse mecânico e, em fazenda que trabalha com café especial, a mesa de repasse com gente escolhendo grão a grão.

Depois vem a secagem, e ela é dupla. O café natural começa no terreiro suspenso, em camada fina revolvida várias vezes ao dia, e termina em secador rotativo com ar a temperatura controlada até chegar a 11 por cento de umidade.

O motivo de terminar na máquina é prazo. Terreiro sozinho levaria de quinze a vinte dias e a fazenda precisa liberar espaço para a carreta seguinte, porque a colhedora não para enquanto o talhão está no ponto.

Existe um custo de qualidade nessa pressa, e ele é conhecido. Secagem rápida demais no rotativo endurece a camada externa do grão e deixa umidade presa no centro, o que encurta a vida útil do café no pacote.

A colhedora só derruba fruto; a qualidade se decide na água e na mesa de repasse.

Sobre o mito de que café de máquina é sempre café ruim, a resposta é mais chata do que a lenda. A colhedora só derruba fruto: quem decide o resultado é o critério da separação depois, e existe fazenda mecanizada entregando lote de pontuação alta e roça manual entregando café mal separado.

Na nossa opinião: colheita mecanizada é o que torna café especial brasileiro acessível no preço que você paga hoje. A pergunta certa para o torrefador não é se o café foi colhido a dedo, é como foi feita a separação depois do talhão e quanto tempo o lote passou no rotativo.

Se for comprar esse perfil, procure no rótulo a palavra repasse ou a menção a lote separado por densidade. É a informação que separa um natural doce e limpo de um natural adstringente, e ela custa nada para o torrefador imprimir.

"Você prefere o café que alguém escolheu com a mão ou o que a máquina derrubou e a água separou?"

 
 
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Segundo a edição, em que faixa de ciclos por minuto o operador programa a vibração das hastes de nylon da colhedora?

A200 a 400 ciclos por minuto
B500 a 700 ciclos por minuto
C700 a 1.000 ciclos por minuto
D1.200 a 1.500 ciclos por minuto
 
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