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ED 089

O arábica que cresce sobre raiz de conilon

Catuaí Vermelho de sítio familiar em Brejetuba, no Espírito Santo, enxertado em cavalo de conilon, colhido a dedo na encosta e coado no Clever.

Coador de imersão tipo Clever em plástico transparente com filtro de papel trapezoidal apoiado na boca de uma caneca grossa, sobre mesa de madeira gasta num sítio familiar nas montanhas de Brejetuba, no Espírito Santo, com bandeja rasa cheia de cereja vermelha madura ao lado de um punhado de grãos verdes, uma muda de café enxertada deitada na tábua com a fita fina em volta da emenda, uma raiz de cafeeiro cheia de nós arredondados sobre estopa, um quadrado de chocolate ao leite partido, castanhas-de-caju cruas e um potinho de melado escuro, pacote kraft de 250g com etiqueta escrita à mão e, ao fundo, a encosta íngreme tomada por fileiras baixas de café, o terreiro de cimento com o fruto inteiro secando em camada fina e a neblina subindo do vale

O Clever e o Catuaí Vermelho de Brejetuba

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No meio de uma lavoura verde de encosta aparece uma mancha amarela, quase redonda. As plantas do centro estão desfolhadas, com galho fino apontando para cima, e as de fora seguem carregadas de fruto. Na roça, a mancha tem nome próprio: reboleira.

Quem arranca uma dessas plantas encontra a explicação embaixo da terra. A raiz vem inchada, cheia de nós do tamanho de grão de areia, e as pontas finas que deveriam puxar água não estão mais lá.

O responsável mede menos de meio milímetro. É o nematoide das galhas, um verme microscópico do gênero Meloidogyne que vive no solo, entra pela raiz nova e obriga a própria planta a construir o nó que vira a casa dele.

Lá dentro ele come, engorda e põe centenas de ovos. O cafeeiro segue em pé, mas passa a beber por um canudo entupido: amarela, seca ponteiro e, em talhão muito infestado, a colheita cai quase pela metade.

Não existe pulverização que resolva. O bicho está protegido dentro da raiz, o solo guarda ovo por anos e replantar arábica no mesmo buraco só serve comida nova para a população que ficou.

A saída apareceu na outra espécie do mesmo gênero. O café que a gente coa em casa é quase sempre Coffea arabica, de xícara doce e raiz delicada. O conilon, Coffea canephora, dá xícara mais dura e uma raiz que o nematoide não domina.

Daí nasceu a ideia de juntar as duas numa planta só. No viveiro, a muda de arábica é cortada ainda no estágio que o pessoal chama de palito de fósforo, com dois meses, e encaixada numa fenda aberta no caule de uma muda de conilon da mesma idade.

Em cima fica o arábica, que dá o ramo, a flor e o fruto. Embaixo fica o conilon, que só trabalha de raiz e leva o apelido de cavalo. Uma fita fina segura as duas partes enquanto a emenda cola, e o resto da vida é de uma planta só.

O café do dia veio de um sítio de encosta onde cada muda do talhão passou por essa mesa de enxertia antes de chegar ao campo.

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I  O Grão do Dia

O Catuaí Vermelho de encosta em Brejetuba

O grão do dia é um Catuaí Vermelho de sítio familiar em Brejetuba, nas montanhas do Espírito Santo, enxertado sobre cavalo de conilon e comprado direto de quem planta.

Brejetuba fica na parte serrana do estado, num mar de morros onde a lavoura sobe a encosta em vez de se espalhar na chapada. O talhão está a pouco mais de 900 metros.

O Espírito Santo é o segundo maior produtor de café do país e o primeiro em conilon, que ocupa as terras baixas e quentes. O arábica fica na parte alta, onde a noite esfria.

O Catuaí Vermelho é cultivar do Instituto Agronômico de Campinas, lançada em 1972, filha do cruzamento entre o Mundo Novo e o Caturra Amarelo. Do Mundo Novo veio a produtividade; do Caturra, o porte baixo que deixa colher com o pé no chão.

O cavalo é o Apoatã IAC 2258, conilon selecionado pelo mesmo instituto por causa da raiz: segura as principais espécies de nematoide das galhas e ainda enfia raiz funda, que ajuda no veranico.

A enxertia acontece no viveiro, com as duas mudas do tamanho de um palito. O viveirista corta a copa do arábica em bico de flauta, abre uma fenda no caule do conilon, encaixa, amarra e leva para a câmara úmida.

Uns quarenta dias depois a emenda está firme e a muda vai para o saquinho, com a marca do enxerto perto da base. Plantar acima dessa marca é regra: se o arábica tocar a terra, ele cria raiz própria e o trabalho se perde.

Na encosta, com declive que passa dos trinta por cento, máquina não entra. A colheita é a dedo, com o apanhador escolhendo só o fruto vermelho e voltando ao mesmo pé mais de uma vez.

Cereja madura é o que garante o açúcar: fruto verde entrega adstringência, fruto passado do ponto entrega fermentado.

No terreiro o fruto vai inteiro, sem lavar e sem descascar, que é o que a palavra natural quer dizer no rótulo. A polpa seca colada na semente e empurra açúcar para dentro do grão.

Nas montanhas capixabas a secagem exige mais mão que no cerrado, porque a umidade sobe do vale no fim da tarde. O lote fica em camada fina, leva rodo de hora em hora e dorme sob lona, de doze a dezoito dias, até os 11%.

Depois vem o descanso na tulha, o compartimento de madeira onde o lote iguala a umidade por dentro antes do beneficiamento.

Duas plantas numa muda só, e a emenda tem que ficar acima da terra.

Na xícara o Catuaí Vermelho de Brejetuba abre em chocolate ao leite, mostra castanha-de-caju no meio e fecha em melado, com corpo cheio e acidez baixa. Notas de chocolate ao leite, castanha-de-caju e melado. Faixa de preço dos 250g comprados direto do produtor: R$ 54 a R$ 82.

 
 

II  Como Preparar

A válvula que segura o café antes de descer

A prova é no Clever, o coador de plástico que parece um cone comum e esconde uma válvula no fundo.

A peça é taiwanesa e chegou ao Brasil na virada dos anos 2010, com corpo de plástico rígido sem BPA, nos tamanhos de 300ml e 500ml.

A válvula é um disco de silicone que fica fechado enquanto o coador está na mesa. Quando ele encosta na boca da caneca, a borda empurra o disco e o café desce de uma vez.

Com a válvula fechada, o café fica de molho, como na prensa francesa: todo o pó em contato com toda a água, do primeiro ao último segundo.

Com a válvula aberta, o líquido atravessa um filtro de papel trapezoidal número 4, o mesmo da cafeteira elétrica de supermercado, que retém óleo e pó fino. O resultado é corpo de imersão com limpeza de coado, sem filtro especial para comprar.

Café natural de chocolate e melado pede um preparo que segure o corpo. No cone de vazão livre, água e pó se encontram por pouco tempo em cada ponto da cama, e a doçura densa fica pela metade.

A imersão resolve pelo outro lado: o tempo é igual para todo o pó, a extração sai pareja e o melado aparece inteiro, sem o amargo que a passagem rápida deixa no fim do gole.

A água fica em 94°C. Grão de altitude é denso e a imersão perde calor nos quatro minutos, então começar mais quente compensa a queda.

A régua do Catuaí Vermelho no Clever

Receita20g de café para 300ml de água, proporção 1:15
Água94°C, filtrada
Moagemmédia, textura de areia grossa
Imersão4 minutos com a válvula fechada
Mexidatrês voltas aos 30 segundos
Drenagemperto de 1 minuto na caneca
Tempo total5min a 5min30 até a última gota
Custo por coada250g rendem perto de 12 coadas, de R$ 4,50 a R$ 6,83

Escalde o papel com o coador já apoiado na caneca, para a água do escaldo passar e sair. Papel cru deixa gosto de papelão, e plástico frio rouba calor da primeira leva.

Ponha o pó, despeje toda a água de uma vez em movimento circular e não guarde nada para depois. O método depende de a proporção estar completa desde o começo.

Aos trinta segundos, dê três voltas com a colher para afundar a crosta que boia, tampe e deixe quieto até fechar quatro minutos. Café torrado há poucos dias solta gás carbônico, e pó boiando não extrai.

Encoste o coador na caneca e deixe descer. A drenagem leva perto de um minuto, e tirar antes do fim corta a parte doce que ficou no fundo.

Sirva assim que parar de pingar. O chocolate ao leite domina quente, a castanha aparece quando a bebida desce dos 60°C e o melado fica no fim do gole, junto com o corpo.

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III  O Detalhe

O que a raiz de conilon não leva pra xícara

Existe uma pergunta que aparece toda vez que a enxertia entra na conversa: se a raiz é de conilon, o café não sai com gosto de conilon?

A resposta está na botânica. O fruto nasce no ramo, e o ramo é a parte de cima da planta: arábica inteiro, com a genética dele.

A raiz não manda gene para cima. Ela manda água e mineral dissolvido, e o que chega ao grão continua sendo arábica puro.

As provas de xícara com lote enxertado e lote de pé franco da mesma cultivar, no mesmo talhão, não separam um do outro.

O que muda de verdade é a saúde da planta. Em solo infestado, o pé enxertado enche o fruto e o pé franco definha, e cafeeiro doente entrega grão chocho, que na xícara vira gosto de palha.

Nesses casos o lote enxertado pontua mais, e o mérito é da lavoura que não adoeceu.

O conilon puro tem corpo pesado, amargor firme, pouca acidez e cerca do dobro de cafeína do arábica, e sustenta boa parte do café de mercado e da cápsula barata.

No copo, a separação aparece no fim do gole: o conilon deixa amargo seco e curto, e o arábica bem conduzido deixa doçura que demora a sair.

No pacote, o enxerto quase nunca vem escrito, e a ausência dele não diz nada. O que precisa estar impresso é outra coisa: data de torra, cultivar, região, altitude e processo.

Data de torra é o dado que mais importa. Grão do mês passado ainda está no ponto, grão sem data pode ter um ano de tulha e ninguém vai saber.

Quando o produtor imprime que a lavoura é enxertada, o sinal é bom: enxertia encarece a muda e só entra na conta de quem acompanha o solo de perto.

A torra também conta. Café natural doce como esse já vem carregado de açúcar, e torra escura transforma o melado em queimado. Grão marrom médio, sem óleo brilhando na superfície, é o ponto.

Na nossa opinião: compre se o seu café preferido é doce, encorpado e de chocolate, do tipo que aguenta um gole depois do almoço. Quem procura xícara leve, floral e cítrica vai achar o corpo pesado demais.

A prova está no terreiro de Brejetuba. O bicho que esvazia talhão inteiro na encosta virou detalhe de viveiro, resolvido antes de a muda ver o sol, e o que chega à caneca é chocolate, castanha e melado.

 
 
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