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O arábica que cresce sobre raiz de conilon
Catuaí Vermelho de sítio familiar em Brejetuba, no Espírito Santo, enxertado em cavalo de conilon, colhido a dedo na encosta e coado no Clever.
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O Clever e o Catuaí Vermelho de Brejetuba
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No meio de uma lavoura verde de encosta aparece uma mancha amarela, quase redonda. As plantas do centro estão desfolhadas, com galho fino apontando para cima, e as de fora seguem carregadas de fruto. Na roça, a mancha tem nome próprio: reboleira.
Quem arranca uma dessas plantas encontra a explicação embaixo da terra. A raiz vem inchada, cheia de nós do tamanho de grão de areia, e as pontas finas que deveriam puxar água não estão mais lá.
O responsável mede menos de meio milímetro. É o nematoide das galhas, um verme microscópico do gênero Meloidogyne que vive no solo, entra pela raiz nova e obriga a própria planta a construir o nó que vira a casa dele.
Lá dentro ele come, engorda e põe centenas de ovos. O cafeeiro segue em pé, mas passa a beber por um canudo entupido: amarela, seca ponteiro e, em talhão muito infestado, a colheita cai quase pela metade.
Não existe pulverização que resolva. O bicho está protegido dentro da raiz, o solo guarda ovo por anos e replantar arábica no mesmo buraco só serve comida nova para a população que ficou.
A saída apareceu na outra espécie do mesmo gênero. O café que a gente coa em casa é quase sempre Coffea arabica, de xícara doce e raiz delicada. O conilon, Coffea canephora, dá xícara mais dura e uma raiz que o nematoide não domina.
Daí nasceu a ideia de juntar as duas numa planta só. No viveiro, a muda de arábica é cortada ainda no estágio que o pessoal chama de palito de fósforo, com dois meses, e encaixada numa fenda aberta no caule de uma muda de conilon da mesma idade.
Em cima fica o arábica, que dá o ramo, a flor e o fruto. Embaixo fica o conilon, que só trabalha de raiz e leva o apelido de cavalo. Uma fita fina segura as duas partes enquanto a emenda cola, e o resto da vida é de uma planta só.
O café do dia veio de um sítio de encosta onde cada muda do talhão passou por essa mesa de enxertia antes de chegar ao campo.
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I O Grão do Dia
O Catuaí Vermelho de encosta em Brejetuba
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O grão do dia é um Catuaí Vermelho de sítio familiar em Brejetuba, nas montanhas do Espírito Santo, enxertado sobre cavalo de conilon e comprado direto de quem planta.
Brejetuba fica na parte serrana do estado, num mar de morros onde a lavoura sobe a encosta em vez de se espalhar na chapada. O talhão está a pouco mais de 900 metros.
O Espírito Santo é o segundo maior produtor de café do país e o primeiro em conilon, que ocupa as terras baixas e quentes. O arábica fica na parte alta, onde a noite esfria.
O Catuaí Vermelho é cultivar do Instituto Agronômico de Campinas, lançada em 1972, filha do cruzamento entre o Mundo Novo e o Caturra Amarelo. Do Mundo Novo veio a produtividade; do Caturra, o porte baixo que deixa colher com o pé no chão.
O cavalo é o Apoatã IAC 2258, conilon selecionado pelo mesmo instituto por causa da raiz: segura as principais espécies de nematoide das galhas e ainda enfia raiz funda, que ajuda no veranico.
A enxertia acontece no viveiro, com as duas mudas do tamanho de um palito. O viveirista corta a copa do arábica em bico de flauta, abre uma fenda no caule do conilon, encaixa, amarra e leva para a câmara úmida.
Uns quarenta dias depois a emenda está firme e a muda vai para o saquinho, com a marca do enxerto perto da base. Plantar acima dessa marca é regra: se o arábica tocar a terra, ele cria raiz própria e o trabalho se perde.
Na encosta, com declive que passa dos trinta por cento, máquina não entra. A colheita é a dedo, com o apanhador escolhendo só o fruto vermelho e voltando ao mesmo pé mais de uma vez.
Cereja madura é o que garante o açúcar: fruto verde entrega adstringência, fruto passado do ponto entrega fermentado.
No terreiro o fruto vai inteiro, sem lavar e sem descascar, que é o que a palavra natural quer dizer no rótulo. A polpa seca colada na semente e empurra açúcar para dentro do grão.
Nas montanhas capixabas a secagem exige mais mão que no cerrado, porque a umidade sobe do vale no fim da tarde. O lote fica em camada fina, leva rodo de hora em hora e dorme sob lona, de doze a dezoito dias, até os 11%.
Depois vem o descanso na tulha, o compartimento de madeira onde o lote iguala a umidade por dentro antes do beneficiamento.
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Duas plantas numa muda só, e a emenda tem que ficar acima da terra.
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Na xícara o Catuaí Vermelho de Brejetuba abre em chocolate ao leite, mostra castanha-de-caju no meio e fecha em melado, com corpo cheio e acidez baixa. Notas de chocolate ao leite, castanha-de-caju e melado. Faixa de preço dos 250g comprados direto do produtor: R$ 54 a R$ 82.
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II Como Preparar
A válvula que segura o café antes de descer
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A prova é no Clever, o coador de plástico que parece um cone comum e esconde uma válvula no fundo.
A peça é taiwanesa e chegou ao Brasil na virada dos anos 2010, com corpo de plástico rígido sem BPA, nos tamanhos de 300ml e 500ml.
A válvula é um disco de silicone que fica fechado enquanto o coador está na mesa. Quando ele encosta na boca da caneca, a borda empurra o disco e o café desce de uma vez.
Com a válvula fechada, o café fica de molho, como na prensa francesa: todo o pó em contato com toda a água, do primeiro ao último segundo.
Com a válvula aberta, o líquido atravessa um filtro de papel trapezoidal número 4, o mesmo da cafeteira elétrica de supermercado, que retém óleo e pó fino. O resultado é corpo de imersão com limpeza de coado, sem filtro especial para comprar.
Café natural de chocolate e melado pede um preparo que segure o corpo. No cone de vazão livre, água e pó se encontram por pouco tempo em cada ponto da cama, e a doçura densa fica pela metade.
A imersão resolve pelo outro lado: o tempo é igual para todo o pó, a extração sai pareja e o melado aparece inteiro, sem o amargo que a passagem rápida deixa no fim do gole.
A água fica em 94°C. Grão de altitude é denso e a imersão perde calor nos quatro minutos, então começar mais quente compensa a queda.
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A régua do Catuaí Vermelho no Clever
| Receita | 20g de café para 300ml de água, proporção 1:15 |
| Água | 94°C, filtrada |
| Moagem | média, textura de areia grossa |
| Imersão | 4 minutos com a válvula fechada |
| Mexida | três voltas aos 30 segundos |
| Drenagem | perto de 1 minuto na caneca |
| Tempo total | 5min a 5min30 até a última gota |
| Custo por coada | 250g rendem perto de 12 coadas, de R$ 4,50 a R$ 6,83 |
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Escalde o papel com o coador já apoiado na caneca, para a água do escaldo passar e sair. Papel cru deixa gosto de papelão, e plástico frio rouba calor da primeira leva.
Ponha o pó, despeje toda a água de uma vez em movimento circular e não guarde nada para depois. O método depende de a proporção estar completa desde o começo.
Aos trinta segundos, dê três voltas com a colher para afundar a crosta que boia, tampe e deixe quieto até fechar quatro minutos. Café torrado há poucos dias solta gás carbônico, e pó boiando não extrai.
Encoste o coador na caneca e deixe descer. A drenagem leva perto de um minuto, e tirar antes do fim corta a parte doce que ficou no fundo.
Sirva assim que parar de pingar. O chocolate ao leite domina quente, a castanha aparece quando a bebida desce dos 60°C e o melado fica no fim do gole, junto com o corpo.
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