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O laudo que obrigou o café brasileiro a usar selo
Análises de café torrado e moído acharam casca, milho e pau dentro do pacote, e a ABIC respondeu em 1989 com um selo de pureza voluntário.
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O pó que o microscópio separou em 1989
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No fim dos anos 1980, um técnico espalhava numa placa de vidro uma colher de café torrado e moído comprado no mercado da esquina e levava a placa para o microscópio. O que aparecia embaixo da lente nem sempre era café.
Aparecia casca e palha do próprio fruto, moídas de volta ao pó depois do beneficiamento. Aparecia milho torrado, cevada, farelo de arroz. Aparecia, em algumas amostras, pedaço de galho e de madeira triturados junto com o grão, e açúcar caramelizado usado para dar cor escura ao pó pálido.
A fraude funcionava por causa de duas escolhas de fábrica. Torra muito escura queima a diferença de cor entre um grão de café e um grão de milho, e moagem muito fina apaga a diferença de formato. Depois da moagem, o consumidor tinha na mão um pó preto homogêneo que ninguém consegue auditar em casa.
O amargor cobria o resto. Café escuro amarga por natureza, e o adulterante amarga junto, então a xícara saía com o gosto que o brasileiro tinha aprendido a chamar de café forte. Boa parte de uma geração inteira tomou mistura achando que café era exatamente aquilo.
O prejuízo era do setor todo. Quem torrava direito competia de preço com quem enchia o pacote de matéria barata, e o consumo por pessoa caía no país.
Em 1989 a Associação Brasileira da Indústria de Café, entidade fundada em 1973 e conhecida pela sigla ABIC, respondeu com o Selo de Pureza. A regra era simples de entender e desconfortável para quem burlava: adesão voluntária, amostra comprada anonimamente na gôndola do varejo por um fiscal, análise microscópica em laboratório independente e reanálise periódica.
Marca aprovada podia estampar o selo na frente da embalagem. Marca reprovada perdia o direito de usar, e a lista de suspensões circulava entre supermercados e imprensa. O selo virou o primeiro sinal de confiança que o pacote de café passou a carregar no Brasil.
O grão de hoje é um Catuaí Vermelho de Patrocínio que sai da torrefação já moído, com esse selo impresso ao lado da válvula.
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I O Grão do Dia
O Catuaí Vermelho de Patrocínio que sai moído do pacote
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O grão do dia é o Catuaí Vermelho de Patrocínio, no Cerrado Mineiro, arábica de processo natural vendido torrado e moído em pacote de 250g com válvula, com Selo de Pureza da ABIC e classificação Superior no Programa de Qualidade do Café.
Patrocínio fica no Alto Paranaíba, coração do Cerrado Mineiro, primeira região de café do Brasil a receber denominação de origem. A lavoura ali é plana, o que permite colheita mecanizada, e a seca bem marcada entre maio e agosto entrega o clima seco que o processo natural exige no terreiro.
A altitude fica entre 950 e 1.100 metros, mais baixa que a Mantiqueira, e o resultado na xícara é previsível: menos acidez, mais corpo, mais doçura de melado. É o perfil que o brasileiro reconhece como café de casa.
O varietal é o Catuaí Vermelho, cruzamento entre Mundo Novo e Caturra Amarelo desenvolvido pelo Instituto Agronômico de Campinas e lançado nos anos 1970. Porte baixo, alta produtividade e maturação uniforme, três características que fazem dele o cavalo de batalha da cafeicultura mecanizada.
O processo é natural: o fruto seca inteiro, com casca e polpa grudadas no grão, e a doçura da polpa migra para dentro durante a secagem. Aqui a secagem começa em terreiro suspenso e termina em secador rotativo a temperatura baixa, até 11 por cento de umidade.
A torra é média, e a escolha tem relação direta com o tema do selo. Torra clara demais em Catuaí natural fecha o corpo, e torra escura demais é exatamente o disfarce que a adulteração usava. O ponto médio deixa o grão com cara de grão dentro do moinho.
A ficha do lote, em números:
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A ficha do Catuaí de Patrocínio
| Altitude de cultivo | 950 a 1.100 metros |
| Umidade final do grão seco | 11 por cento |
| Ponto de torra | médio, segundo estalo não atingido |
| Classificação no PQC | Superior, nota sensorial 6,5 numa escala de 0 a 10 |
| Limite legal de impurezas | 1 por cento |
| Faixa de preço dos 250g | R$ 34 a R$ 52 |
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O pacote é o outro personagem da edição. Café moído perde aroma rápido porque a superfície exposta ao oxigênio multiplica por muito depois da moagem, e a válvula desgaseificadora deixa o gás carbônico da torra sair sem deixar ar entrar.
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Torra média deixa o grão com cara de grão dentro do moinho.
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A data que interessa no rótulo é a da torra, não a da validade. Um pacote com 12 meses de validade e 7 meses de torra já está velho, e o pó vai render uma bebida chapada por mais correto que seja o café dentro dele.
Na xícara, esse Catuaí abre em chocolate ao leite, mostra amendoim torrado no meio e fecha em melado de cana, com corpo alto, acidez baixa e amargor curto. Notas de chocolate ao leite, amendoim torrado e melado de cana. Faixa de preço dos 250g: R$ 34 a R$ 52.
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II Como Preparar
O cone de papel 102 que segura o corpo do natural
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O preparo é no coador de papel cone, no tamanho 102, o mesmo que mora em quase toda cozinha brasileira, sobre jarra de vidro ou sobre a caneca com suporte.
A escolha é coerente com o grão. Café que chega da fábrica já moído tem a moagem definida por quem torrou, normalmente média para fina, e o cone de papel comum trabalha bem nessa faixa sem exigir moedor em casa.
O papel também tem função de prova. Ele retém óleo e finos, devolve uma bebida limpa e deixa o chocolate e o amendoim aparecerem separados, em vez de virarem um bloco de amargor de fundo de xícara.
Um método de imersão faria o contrário nesse caso. Prensa francesa com pó de fábrica passa muito fino para a xícara e entrega textura arenosa, porque a moagem comercial é mais fina do que a prensa pede.
A régua do preparo:
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A régua do Catuaí no cone 102
| Receita | 30g de café para 500ml de água |
| Proporção | 1 para 16,6 |
| Água | 92°C a 94°C, filtrada |
| Moagem | a de fábrica, média para fina |
| Pré-infusão | 60ml de água por 30 segundos |
| Tempo total | entre 3min e 3min30 do primeiro despejo ao fim do gotejo |
| Custo por preparo | 250g rendem perto de 8 doses, de R$ 4,25 a R$ 6,50 |
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Escalde o filtro e despreze a água do escaldo. Papel seco solta gosto de celulose na primeira água, e o defeito aparece como um fundo de papelão que costuma ser creditado ao café errado.
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Água fervendo em cima do pó apaga o melado e sobra adstringência.
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Nunca ferva a água em cima do pó. Água a 100 graus extrai composto amargo de reação de torra em excesso, e num natural de torra média o resultado é uma xícara adstringente que apaga o melado.
Faça a pré-infusão com 60ml e espere trinta segundos. Pó de fábrica já perdeu parte do gás na estocagem, então a espera pode ser mais curta que a de um café moído na hora, mas ela ainda molha o leito por igual antes do despejo forte.
Despeje o restante em dois movimentos em espiral, do centro para a borda, esperando o nível baixar até a metade entre um e outro. Água jogada direto na parede do papel escorre sem passar pelo pó e rende bebida fraca com pó superextraído no meio.
Encerre em três minutos e meio. Se o gotejo demorar muito mais, o pó está fino demais para o cone e vale trocar de marca ou pedir moagem para coador na hora da compra em grão.
Sirva por volta de 65 graus. É nessa temperatura que o amendoim se separa do chocolate, e é nela que a doçura de melado aparece antes do amargor de torra chegar na língua.
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