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ED 098

O laudo que obrigou o café brasileiro a usar selo

Análises de café torrado e moído acharam casca, milho e pau dentro do pacote, e a ABIC respondeu em 1989 com um selo de pureza voluntário.

Pacote kraft de 250g de café moído com válvula aberto sobre mesa de madeira gasta, coador de porcelana com filtro de papel sobre jarra de vidro ao lado, placa rasa de laboratório com pó de café escuro junto de uma lupa de latão, cascas secas de café e três grãos de milho torrado separados na madeira como amostras, bandeja pequena com cerejas vermelhas maduras, um pedaço de chocolate ao leite e amendoins torrados numa tabuinha e, ao fundo desfocado, uma lavoura plana de cerrado na luz da manhã

O pó que o microscópio separou em 1989

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No fim dos anos 1980, um técnico espalhava numa placa de vidro uma colher de café torrado e moído comprado no mercado da esquina e levava a placa para o microscópio. O que aparecia embaixo da lente nem sempre era café.

Aparecia casca e palha do próprio fruto, moídas de volta ao pó depois do beneficiamento. Aparecia milho torrado, cevada, farelo de arroz. Aparecia, em algumas amostras, pedaço de galho e de madeira triturados junto com o grão, e açúcar caramelizado usado para dar cor escura ao pó pálido.

A fraude funcionava por causa de duas escolhas de fábrica. Torra muito escura queima a diferença de cor entre um grão de café e um grão de milho, e moagem muito fina apaga a diferença de formato. Depois da moagem, o consumidor tinha na mão um pó preto homogêneo que ninguém consegue auditar em casa.

O amargor cobria o resto. Café escuro amarga por natureza, e o adulterante amarga junto, então a xícara saía com o gosto que o brasileiro tinha aprendido a chamar de café forte. Boa parte de uma geração inteira tomou mistura achando que café era exatamente aquilo.

O prejuízo era do setor todo. Quem torrava direito competia de preço com quem enchia o pacote de matéria barata, e o consumo por pessoa caía no país.

Em 1989 a Associação Brasileira da Indústria de Café, entidade fundada em 1973 e conhecida pela sigla ABIC, respondeu com o Selo de Pureza. A regra era simples de entender e desconfortável para quem burlava: adesão voluntária, amostra comprada anonimamente na gôndola do varejo por um fiscal, análise microscópica em laboratório independente e reanálise periódica.

Marca aprovada podia estampar o selo na frente da embalagem. Marca reprovada perdia o direito de usar, e a lista de suspensões circulava entre supermercados e imprensa. O selo virou o primeiro sinal de confiança que o pacote de café passou a carregar no Brasil.

O grão de hoje é um Catuaí Vermelho de Patrocínio que sai da torrefação já moído, com esse selo impresso ao lado da válvula.

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I  O Grão do Dia

O Catuaí Vermelho de Patrocínio que sai moído do pacote

O grão do dia é o Catuaí Vermelho de Patrocínio, no Cerrado Mineiro, arábica de processo natural vendido torrado e moído em pacote de 250g com válvula, com Selo de Pureza da ABIC e classificação Superior no Programa de Qualidade do Café.

Patrocínio fica no Alto Paranaíba, coração do Cerrado Mineiro, primeira região de café do Brasil a receber denominação de origem. A lavoura ali é plana, o que permite colheita mecanizada, e a seca bem marcada entre maio e agosto entrega o clima seco que o processo natural exige no terreiro.

A altitude fica entre 950 e 1.100 metros, mais baixa que a Mantiqueira, e o resultado na xícara é previsível: menos acidez, mais corpo, mais doçura de melado. É o perfil que o brasileiro reconhece como café de casa.

O varietal é o Catuaí Vermelho, cruzamento entre Mundo Novo e Caturra Amarelo desenvolvido pelo Instituto Agronômico de Campinas e lançado nos anos 1970. Porte baixo, alta produtividade e maturação uniforme, três características que fazem dele o cavalo de batalha da cafeicultura mecanizada.

O processo é natural: o fruto seca inteiro, com casca e polpa grudadas no grão, e a doçura da polpa migra para dentro durante a secagem. Aqui a secagem começa em terreiro suspenso e termina em secador rotativo a temperatura baixa, até 11 por cento de umidade.

A torra é média, e a escolha tem relação direta com o tema do selo. Torra clara demais em Catuaí natural fecha o corpo, e torra escura demais é exatamente o disfarce que a adulteração usava. O ponto médio deixa o grão com cara de grão dentro do moinho.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Catuaí de Patrocínio

Altitude de cultivo950 a 1.100 metros
Umidade final do grão seco11 por cento
Ponto de torramédio, segundo estalo não atingido
Classificação no PQCSuperior, nota sensorial 6,5 numa escala de 0 a 10
Limite legal de impurezas1 por cento
Faixa de preço dos 250gR$ 34 a R$ 52

O pacote é o outro personagem da edição. Café moído perde aroma rápido porque a superfície exposta ao oxigênio multiplica por muito depois da moagem, e a válvula desgaseificadora deixa o gás carbônico da torra sair sem deixar ar entrar.

Torra média deixa o grão com cara de grão dentro do moinho.

A data que interessa no rótulo é a da torra, não a da validade. Um pacote com 12 meses de validade e 7 meses de torra já está velho, e o pó vai render uma bebida chapada por mais correto que seja o café dentro dele.

Na xícara, esse Catuaí abre em chocolate ao leite, mostra amendoim torrado no meio e fecha em melado de cana, com corpo alto, acidez baixa e amargor curto. Notas de chocolate ao leite, amendoim torrado e melado de cana. Faixa de preço dos 250g: R$ 34 a R$ 52.

 
 

II  Como Preparar

O cone de papel 102 que segura o corpo do natural

O preparo é no coador de papel cone, no tamanho 102, o mesmo que mora em quase toda cozinha brasileira, sobre jarra de vidro ou sobre a caneca com suporte.

A escolha é coerente com o grão. Café que chega da fábrica já moído tem a moagem definida por quem torrou, normalmente média para fina, e o cone de papel comum trabalha bem nessa faixa sem exigir moedor em casa.

O papel também tem função de prova. Ele retém óleo e finos, devolve uma bebida limpa e deixa o chocolate e o amendoim aparecerem separados, em vez de virarem um bloco de amargor de fundo de xícara.

Um método de imersão faria o contrário nesse caso. Prensa francesa com pó de fábrica passa muito fino para a xícara e entrega textura arenosa, porque a moagem comercial é mais fina do que a prensa pede.

A régua do preparo:

A régua do Catuaí no cone 102

Receita30g de café para 500ml de água
Proporção1 para 16,6
Água92°C a 94°C, filtrada
Moagema de fábrica, média para fina
Pré-infusão60ml de água por 30 segundos
Tempo totalentre 3min e 3min30 do primeiro despejo ao fim do gotejo
Custo por preparo250g rendem perto de 8 doses, de R$ 4,25 a R$ 6,50

Escalde o filtro e despreze a água do escaldo. Papel seco solta gosto de celulose na primeira água, e o defeito aparece como um fundo de papelão que costuma ser creditado ao café errado.

Água fervendo em cima do pó apaga o melado e sobra adstringência.

Nunca ferva a água em cima do pó. Água a 100 graus extrai composto amargo de reação de torra em excesso, e num natural de torra média o resultado é uma xícara adstringente que apaga o melado.

Faça a pré-infusão com 60ml e espere trinta segundos. Pó de fábrica já perdeu parte do gás na estocagem, então a espera pode ser mais curta que a de um café moído na hora, mas ela ainda molha o leito por igual antes do despejo forte.

Despeje o restante em dois movimentos em espiral, do centro para a borda, esperando o nível baixar até a metade entre um e outro. Água jogada direto na parede do papel escorre sem passar pelo pó e rende bebida fraca com pó superextraído no meio.

Encerre em três minutos e meio. Se o gotejo demorar muito mais, o pó está fino demais para o cone e vale trocar de marca ou pedir moagem para coador na hora da compra em grão.

Sirva por volta de 65 graus. É nessa temperatura que o amendoim se separa do chocolate, e é nela que a doçura de melado aparece antes do amargor de torra chegar na língua.

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III  O Detalhe

O que o selo promete e o que ele deixa de fora

O Selo de Pureza responde uma pergunta só: o que está dentro do pacote é café e nada além de café. Ele não mede sabor, não mede origem e não mede frescor, e confundir as duas coisas é o erro mais comum de quem lê o rótulo com pressa.

A checagem tem método. A ABIC compra a amostra no varejo como consumidor anônimo, sem aviso à torrefação, e manda para análise microscópica, onde tecido de casca, amido de milho e fibra de madeira aparecem com estrutura celular própria e não conseguem se esconder atrás da cor.

A régua legal veio depois e vale para todo mundo, com selo ou sem selo. A norma sanitária brasileira admite até 1 por cento de impureza no café torrado e moído, e o limite existe porque casca e fragmento entram em quantidade mínima na moagem industrial mesmo com processo correto.

Em 2004 o programa ganhou uma segunda camada. O Programa de Qualidade do Café passou a classificar as marcas por prova sensorial em Tradicional, Superior e Gourmet, com nota mínima crescente numa escala de 0 a 10, e o selo de qualidade convive no pacote com o de pureza.

Vale ler os dois. Pureza diz que não existe milho ali dentro. Qualidade diz o quão longe do básico aquele café chegou, e uma marca pode ser puríssima e sensorialmente medíocre ao mesmo tempo.

O teste do copo com água, que circula até hoje, não substitui laboratório. Jogar uma colher de pó num copo de água e observar o que afunda ou tinge indica muito pouco, porque café e cevada torrada se comportam de forma parecida e a leitura depende de moagem e de torra.

Pureza é condição de entrada, qualidade é a nota de xícara.

O que o consumidor consegue fazer sozinho é comprar em grão. Grão inteiro não esconde milho nem pau, a fraude morre na origem visual, e quem mói em casa ganha aroma que o pacote moído perde na prateleira.

Na nossa opinião: o Selo de Pureza é um dos programas privados mais bem sucedidos da história do consumo brasileiro, e o efeito prático dele é que a discussão sobre café no Brasil pôde sair da pureza e chegar na qualidade. Sem o laudo de 1989, a conversa ainda estaria parada na pergunta se existe café dentro do café.

Se for comprar torrado e moído, procure os dois selos lado a lado, confira a data de torra e prefira o pacote com válvula. É a combinação que separa um café correto de um café apenas legal.

"Você confiaria mais num pacote com selo ou num grão inteiro que você mesmo pode olhar?"

 
 
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Em que ano a ABIC lançou o Selo de Pureza como resposta à fraude achada no café moído?

A1973
B1985
C1989
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ED 100 · amanhã às 08:08

Chá de casca de café

A cascara, casca seca da cereja que sobra no terreiro e vira infusão com cafeína e gosto de uva-passa…

 

Bom café. In cafea veritas.

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