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O grão miúdo de Três Corações que a exportação recusa
Catuaí Vermelho de peneira 14 num sítio do Sul de Minas, secagem no terreiro e chocolate ao leite com amendoim no V60.
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O V60 e o Catuaí miúdo de Três Corações
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Uma peneira de café é uma chapa de metal furada, e o número dela é uma fração de polegada. Peneira 14 quer dizer furo de 14 avos de polegada, perto de 5,5 milímetros de diâmetro. A 18, no topo da tabela, chega a 7,1.
No beneficiamento as chapas ficam empilhadas, da que tem furo maior para a de furo menor, dentro de um caixote que sacode. O lote desce por cima delas e cada grão para na primeira chapa que não deixa ele passar. O número dessa chapa vira o nome dele pelo resto da vida.
A separação nasceu de um problema de torra. Grão graúdo e grão miúdo no mesmo tambor não recebem calor no mesmo ritmo. Quando o grande chega ao ponto, o pequeno já passou, e a bebida sai com amargor de queimado por cima de gosto de pão cru.
Uniformidade, então, é o serviço que a chapa presta. Nada ali mede doçura, acidez, corpo ou defeito: mede diâmetro, e só.
Só que a chapa virou preço. O contrato de exportação padrão pede peneira 16 acima, muito comprador pede 17/18, e o que fica embaixo é separado do lote e vendido mais barato, para blend, para indústria e para o mercado interno.
A diferença chega a dezenas de reais por saca dentro do mesmo café.
O que a tabela não conta é a origem. O grão retido na 14 veio do mesmo pé, do mesmo dia de colheita e do mesmo terreiro que o grão retido na 17. Mudou o diâmetro. Não mudou a lavoura, não mudou a altitude, não mudou a mão que colheu.
Tem genética no meio também. Existe cultivar de semente graúda por natureza e cultivar de semente pequena por natureza, e a mais plantada do Brasil está no segundo grupo.
O café de hoje é justamente um lote de peneira baixa, comprado direto de quem planta num sítio pequeno do Sul de Minas, onde a família resolveu torrar o que o exportador deixa para trás.
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I O Grão do Dia
O Catuaí miúdo do sítio em Três Corações
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O grão do dia é um Catuaí Vermelho de peneira 14, de sítio familiar em Três Corações, no Sul de Minas, secado em terreiro e comprado direto de quem planta.
Três Corações fica na bacia do Rio Verde, a pouco mais de 800 metros, cercada de morro baixo e lavoura de porte pequeno. A cidade emprestou o nome a uma das maiores marcas de café do país e é onde Edson Arantes do Nascimento nasceu, em 1940.
O Catuaí é cultivar do Instituto Agronômico de Campinas, lançada em 1972, saída do cruzamento entre o Caturra Amarelo e o Mundo Novo. O nome vem do guarani e quer dizer, mais ou menos, muito bom.
Do Caturra ele herdou o porte baixo, que dispensa escada na colheita e aguenta plantio adensado. Do Mundo Novo herdou a produtividade e a rusticidade que refizeram a lavoura brasileira no pós-guerra.
Herdou também o tamanho da semente. O Caturra é conhecido por fruto e grão pequenos, e o Catuaí carrega a característica: na mesma safra ele fecha peneira média mais baixa que um Mundo Novo plantado na fileira ao lado.
A peneira baixa aqui é desenho da planta, não descuido de quem cuida dela. Não denuncia lavoura abandonada nem ano de seca, e aparece igual em talhão bem adubado.
Vermelho é a cor do fruto maduro, que separa a linha do Catuaí Amarelo. As duas saíram do mesmo trabalho de seleção.
A colheita do sítio é manual, com pano estendido embaixo do pé, e a família passa duas vezes no mesmo talhão ao longo da safra para não levar verde junto com o cereja.
O processo é natural, e natural quer dizer secar o fruto inteiro, com casca e polpa agarradas ao grão, sem lavar e sem descascar antes. O açúcar da polpa atravessa para dentro do café enquanto a água sai.
O terreiro é de cimento, camada fina, rodo passando várias vezes ao dia e pilha coberta com lona no fim da tarde. São de doze a dezoito dias até a umidade cair para perto de 11%.
Grão miúdo perde água mais rápido que grão graúdo, e a diferença vira trabalho braçal no terreiro. Camada revirada com pressa deixa o pequeno passar do ponto enquanto o grande ainda está úmido por dentro.
Depois vem o descanso na tulha, que iguala a umidade dentro do caroço antes do beneficiamento e antes da chapa que separa por tamanho.
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Cultivar de semente pequena por genética, colhida na mão a 800 metros e secada inteira no terreiro do sítio.
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Na xícara o Catuaí de Três Corações abre em chocolate ao leite, mostra amendoim torrado no meio e fecha em caramelo, com corpo médio para alto e acidez baixa. Notas de chocolate ao leite, amendoim torrado e caramelo. Faixa de preço dos 250g comprados direto do produtor: R$ 38 a R$ 62.
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II Como Preparar
O V60 com a água a 94 graus
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A prova de hoje é no V60, o cone de coador que a Hario lançou em 2004 e que virou o método de bancada mais comum do café especial.
O nome vem do desenho. É um cone de 60 graus de abertura, com um furo único e largo na ponta e costelas em espiral subindo pela parede interna.
Cada peça do desenho tem função. O ângulo empilha o pó numa cama funda, as costelas seguram o papel afastado da parede para o ar escapar, e o furo largo devolve o controle do tempo para a mão que despeja.
Por causa desse arranjo o V60 é o método mais sensível da cozinha. Ele não perdoa moagem errada nem despejo apressado, e em troca mostra o grão inteiro quando o ajuste está no ponto.
O casamento com esse café pede duas correções, e as duas vêm do tamanho do caroço.
A primeira é a moagem. Grão pequeno já entrega mais partículas por grama que grão graúdo no mesmo ajuste, então apertar o moedor para o fino entope o leito e trava o escoamento. Fique na média, textura de areia grossa.
A segunda é a temperatura. O caroço de peneira 14 desse lote é denso, de parede fechada, e a água morna leva a extração para o lado do azedo e do raso. 94°C compensa a densidade sem cozinhar o pó dentro do coador.
Água fervendo, a 100°C, é o outro extremo, e num café de chocolate ao leite ela cobra caro: aparece amargor de casca e a doçura de caramelo some no fim do gole.
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A régua do Catuaí peneira 14 no V60
| Receita | 22g de café para 350ml de água, proporção 1:16 |
| Água | 94°C, filtrada |
| Moagem | média, textura de areia grossa |
| Pré-infusão | 50ml e 40 segundos de espera |
| Despejo | em três levas, em espiral do centro para a borda |
| Tempo total | 2min50 a 3min20 até a última gota |
| Custo por coada | 250g rendem perto de 11 coadas, de R$ 3,45 a R$ 5,65 cada |
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Escalde o papel antes, com o coador já montado na jarra, e jogue fora a água do escaldo. Papel seco entrega gosto de papelão e cone frio rouba calor da primeira leva.
Na pré-infusão, molhe todo o pó e espere a cama inchar. Café secado em terreiro e torrado há poucos dias solta gás, e o gás empurra a água para longe do caminho que ela deveria fazer.
Despeje em espiral, do centro para a borda, sem encostar o fio de água na parede do papel. Água que escorre pela lateral atravessa o filtro sem passar pelo pó e devolve bebida rala.
Sirva assim que a última gota cair. O chocolate ao leite domina quente, o amendoim torrado aparece quando a bebida desce dos 60°C e o caramelo fica no fim, junto com o corpo.
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