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ED 112

A denominação de origem que amarra o café a 55 municípios

Em 2013, o Cerrado Mineiro virou a primeira denominação de origem do café brasileiro, com faixa de altitude e 55 municípios no caderno de regras.

Lavoura de café em chapada alta do Cerrado Mineiro no fim da manhã, com talhões em fileiras retas até o horizonte, terra vermelha entre as ruas de plantio e céu limpo de inverno seco

O talhão de Catuaí no alto do Cerrado Mineiro

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Em 2013, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial concedeu ao Cerrado Mineiro a denominação de origem do café, a primeira dada a um café brasileiro. Oito anos antes, em 2005, o mesmo instituto já havia registrado a região como indicação de procedência.

Os dois selos parecem sinônimos e não são. A indicação de procedência diz que aquele lugar ficou conhecido por produzir determinado produto. A denominação de origem vai além e afirma que a qualidade do produto vem do próprio meio geográfico, do solo, da altitude, do regime de chuva e do modo como aquela gente trabalha.

A diferença aparece na exigência. Para carregar procedência, basta provar reputação e origem. Para carregar denominação, o grupo produtor precisa depositar um caderno de especificações que descreve o território, delimita o mapa, fixa os parâmetros do produto e monta um conselho regulador que fiscaliza quem usa o selo.

No caso do Cerrado Mineiro, quem depositou o pedido foi a federação dos cafeicultores da região, entidade que reúne cooperativas e associações do noroeste mineiro. O caderno dela desenha um território de 55 municípios espalhados pelo Alto Paranaíba, pelo Triângulo Mineiro e pelo noroeste do estado, e amarra o café a uma faixa de altitude de chapada alta.

O recorte não é decorativo. O Cerrado tem duas estações escancaradas, verão chuvoso e inverno seco, e o inverno sem chuva permite que a lavoura inteira amadureça junto e seque no pé sem risco de fermentação descontrolada. É o clima que entrega a doçura de café natural com regularidade de safra em safra.

Quem quer estampar o selo entrega amostra, passa por prova de xícara e recebe um certificado com código. O comprador do outro lado do mundo digita o código e vê o município, a fazenda e a nota da bebida daquele lote específico.

O grão de hoje sai de uma fazenda dentro desse mapa, no município de Patrocínio, e chega com o código no verso do pacote.

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I  O Grão do Dia

O Catuaí Amarelo de Patrocínio secado no pé

O grão do dia é o Catuaí Amarelo de Patrocínio, no Cerrado Mineiro, Coffea arabica processado como natural, cultivado entre 1.000 e 1.150 metros e vendido em pacote de 250g.

Patrocínio fica no Alto Paranaíba, em chapada alta e plana, e é um dos 55 municípios do mapa da denominação. O relevo suave muda tudo na lavoura: a colheita ali é mecanizada, feita por colhedora que passa entre as ruas de plantio e derruba o fruto pela vibração das hastes.

O Catuaí Amarelo é um cruzamento entre Mundo Novo e Caturra Amarelo, selecionado no Instituto Agronômico de Campinas na década de 1940 e liberado para plantio nos anos 1970. Tem porte baixo, o que facilita a colheita mecânica, e amadurece em amarelo intenso, sem passar pelo vermelho.

O processo é o natural, o mais antigo do Brasil: o fruto inteiro vai para o terreiro com casca e polpa e seca assim, com o açúcar da polpa migrando para dentro do grão durante a secagem. O resultado é uma xícara de corpo cheio e doçura de fruta madura, muito diferente da limpeza cítrica de um lavado.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Catuaí Amarelo de Patrocínio

Altitude de cultivo1.000 a 1.150 metros
Colheitamecanizada em uma passada, com 88 por cento de fruto maduro
Secagem12 dias em terreiro de concreto, revirando de duas em duas horas
Umidade final do grão seco11 por cento
Perfil de torra12 minutos no total, com descarga 2 minutos e 20 segundos depois do primeiro estalo
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 38 a R$ 52

O inverno seco do Cerrado torna o natural viável em escala. Secar fruto inteiro exige céu limpo por duas semanas, e chuva no meio da secagem apodrece a polpa e entrega gosto de fruta estragada na xícara.

A maturação uniforme é o outro pilar. Como a floração acontece quase toda de uma vez depois da primeira chuva de setembro, a lavoura chega madura junta e a colhedora passa uma vez só sem levar verde junto.

O revolvimento de duas em duas horas no terreiro parece exagero e não é. A camada de fruto que fica parada esquenta por baixo e fermenta, e um único ponto fermentado no lote aparece na prova de xícara como gosto de vinagre que derruba a nota e tira o café do padrão do selo.

Café natural não é café mal lavado: é fruta seca inteira, e cada hora a mais de terreiro sem revirar é uma chance a mais de fermentação fora de hora.

A torra vai mais longe que a de um lavado, dois minutos e vinte depois do estalo, porque o natural já traz açúcar de sobra e aguenta desenvolver corpo.

Na xícara, o resultado é um café de corpo cheio, doçura de melado, acidez baixa de fruta madura e retrogosto longo de castanha-do-pará. Notas de chocolate ao leite, banana passa e nozes. Faixa de preço do pacote de 250g: R$ 38 a R$ 52.

 
 

II  Como Preparar

Os quatro minutos da prensa francesa

O preparo deste grão é a prensa francesa: 30g de café em moagem grossa para 500ml de água a 93 graus, com 4 minutos de infusão e um único mergulho do êmbolo.

A prensa é imersão, não percolação. O pó fica submerso na água o tempo inteiro e o filtro é uma tela de metal, que deixa passar o óleo e parte da borra fina. A bebida sai mais encorpada e leitosa, e é exatamente o que um natural doce de Cerrado pede.

A escolha do método segue a matéria-prima. Um café de acidez baixa e açúcar alto perde graça no coador de papel, que segura o óleo e afina o corpo. Na prensa, o melado e a banana passa ficam na xícara.

A temperatura desce para 93 graus por causa da torra um pouco mais desenvolvida. Água a 96 graus em grão descarregado dois minutos e vinte depois do estalo puxa amargor de torra para frente e come a doçura que o terreiro construiu.

A ficha do preparo:

A ficha da prensa francesa deste lote

Receita30g de café para 500ml de água
Proporção1 para 16,7
Água93 graus, aferida com termômetro
Moagemgrossa, textura de açúcar cristal
Métodoprensa francesa de 600ml, com filtro de tela metálica
Infusão4 minutos parados, com quebra da crosta aos 4 minutos
Descanso1 minuto depois de baixar o êmbolo, antes de servir

Pré-aqueça a prensa com água quente e descarte a água antes de colocar o pó. Vidro frio rouba dois a três graus nos primeiros segundos, e a extração começa abaixo da faixa da receita.

Despeje os 500ml de uma vez sobre o pó, sem mexer, e deixe parado por 4 minutos cravados no cronômetro. Uma crosta de pó vai subir e boiar na superfície, e ela é sinal de gás carbônico saindo do café fresco.

Aos 4 minutos, quebre a crosta com uma colher em três movimentos lentos e deixe a borra afundar por mais 30 segundos. A quebra molha o pó que ficou boiando e derruba para o fundo a maior parte da borra grossa, o que limpa o gole.

A crosta que boia é o termômetro visual da prensa: quanto mais alta ela sobe, mais fresco está o café que você comprou.

Baixe o êmbolo devagar, contando cinco segundos até o fundo. Pressão rápida empurra a água pela borra assentada e volta com pó fino em suspensão, o que deixa o fim da xícara arenoso na língua.

1  Aqueça 500ml de água até 93 graus e pré-aqueça a prensa vazia.
2  Moa 30g de café na textura de açúcar cristal e coloque na prensa seca.
3  Despeje toda a água de uma vez e marque 4 minutos no cronômetro.
4  Quebre a crosta com três movimentos de colher e espere 30 segundos.
5  Baixe o êmbolo em cinco segundos, espere 1 minuto e sirva a jarra inteira.

Sirva a jarra inteira de uma vez, mesmo que a xícara seja uma só, e passe o resto para uma garrafa térmica. Café que fica em contato com a borra dentro da prensa continua extraindo depois de pronto, e a segunda xícara sai amarga sem ninguém ter mudado a receita.

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III  O Detalhe

O selo que amarra o lote a 55 municípios

Uma denominação de origem não é um prêmio de qualidade nem um certificado de fazenda. É um direito coletivo de uso de nome geográfico, que pertence a todos os produtores de dentro do território delimitado e a nenhum de fora dele.

A consequência prática é dura. Um café excelente colhido a trinta quilômetros da linha do mapa não pode se chamar Cerrado Mineiro, e um café medíocre de dentro do mapa também não, porque a prova de xícara do conselho regulador barra.

O selo não diz que o café é bom por ser de Minas: diz que ele é de um pedaço específico de Minas e que alguém provou a xícara antes de deixar o nome sair na embalagem.

"Denominação de origem é o nome geográfico de país, cidade, região ou localidade de seu território, que designe produto ou serviço cujas qualidades ou características se devam exclusiva ou essencialmente ao meio geográfico, incluídos fatores naturais e humanos", diz a Lei da Propriedade Industrial, a Lei 9.279, de 1996, no artigo 178.

Lei da Propriedade Industrial · Lei 9.279, artigo 178 · 1996

A redação do artigo explica por que o caderno do Cerrado Mineiro fala tanto de altitude e de estação seca. Sem demonstrar que a qualidade vem do meio geográfico, o pedido vira marca coletiva comum e a proteção encolhe.

Vale desmontar o mito de que denominação de origem serve só para vinho europeu. O modelo nasceu no vinho, mas vale para qualquer produto agrícola com território definido, e o café brasileiro entrou nessa lógica pela porta do Cerrado.

Na nossa opinião: o valor real do selo está no código de rastreio, não no desenho estampado no pacote. Selo bonito qualquer marca imprime. Código que devolve município, fazenda e nota de xícara é o que impede um blend anônimo de vestir a fama de uma região inteira.

O rastro dessa engrenagem chega direto na sua xícara. O Catuaí de hoje só carrega o nome da região no rótulo porque uma amostra dele foi provada às cegas por uma mesa credenciada e voltou aprovada dentro dos parâmetros do caderno.

Teste amanhã de manhã: pegue os dois pacotes de café que estão na sua cozinha, procure no rótulo o município e a altitude de cultivo e conte quantos dos dois trazem a informação. Em prateleira de supermercado, o normal é zero de dois; em café com denominação de origem, os dois dados vêm impressos junto do código de rastreio.

"Quantos dos seus pacotes de café dizem em que município o grão nasceu?"

 
 

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