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ED 120

A extração a frio derruba o ácido titulável do café

Niny Rao e Megan Fuller, da Thomas Jefferson University, mediram em 2018 menos acidez titulável na bebida fria do que no coado quente.

Jarra de vidro com café em imersão a frio, pó grosso suspenso na água e condensação no vidro, sobre bancada de madeira

Café em imersão a frio dentro da geladeira

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Em 2018, as químicas Niny Rao e Megan Fuller, da Thomas Jefferson University, na Filadélfia, publicaram na revista Scientific Reports a comparação entre café extraído a frio e café coado quente feitos com o mesmo grão e na mesma moagem: a bebida fria registrou acidez titulável menor, ou seja, menos ácido total disponível para reagir na boca, enquanto o pH das duas ficou na mesma vizinhança.

Dois resultados que parecem se contradizer, e que só se contradizem para quem trata as duas medidas como sinônimo.

O pH marca quanto ácido está solto no líquido naquele instante. A acidez titulável mede o estoque inteiro, contando o ácido ainda preso em forma não dissociada, que a língua e o estômago encontram depois. Uma bebida pode ter pH idêntico ao da outra e carregar bem menos ácido no total, e foi o que apareceu nas amostras frias.

Rao e Fuller trabalharam com grãos de seis origens, entre elas Brasil, Colômbia, Etiópia e México, em torras da clara à escura. O quente saiu no coador, acima de 90 graus; o frio saiu por imersão em água à temperatura ambiente. Mesma dose e mesma moagem em cada par.

A leitura prática cabe numa frase de cozinha. A água quente é solvente melhor para a família dos ácidos clorogênicos, que se soltam com facilidade acima de 90 graus e não se soltam na mesma proporção a 20 graus. O frio extrai devagar e escolhe menos ácido pelo caminho.

Quem tem azia depois do cafezinho costuma ouvir a receita de cortar a bebida. A medição sugere caminho mais barato: trocar a temperatura da extração e manter a dose.

Começamos pelo lote do dia, um Bourbon Amarelo paulista de processo natural, escolhido justamente para atravessar 24 horas dentro da água sem virar chá aguado, com ficha de lavoura, perfil de torra e preço de pacote.

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I  O Grão do Dia

Bourbon Amarelo da Rio Brilhante, escolhido para a água fria

O grão do dia é um Bourbon Amarelo da Fazenda Rio Brilhante, na Alta Mogiana paulista, perto de Franca. Variedade pura, sem mistura de Catuaí no lote.

A Alta Mogiana ocupa o nordeste de São Paulo, em latossolo roxo de origem basáltica, com inverno seco. A lavoura deste lote fica entre 1.000 e 1.150 metros, altitude que alonga a maturação da cereja e deposita mais açúcar no grão.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Bourbon Amarelo da Rio Brilhante

VariedadeBourbon Amarelo, linhagem de cereja amarela quando madura
OrigemFazenda Rio Brilhante, Alta Mogiana, São Paulo
Altitude de cultivo1.000 a 1.150 metros, em latossolo roxo
Colheitamecanizada seletiva, em uma passada, com derriça calibrada para o maduro
Processonatural, com a fruta inteira seca sobre terreiro suspenso por 18 dias
Perfil de torra10 minutos no total, com descarga 30 segundos depois do primeiro estalo
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 60 a R$ 90

Natural quer dizer que a cereja foi inteira para o terreiro, com casca e polpa, e secou em volta do grão por 18 dias antes do descascamento. O açúcar da polpa migra para dentro na secagem, e a bebida sai com doçura mais pesada e corpo mais espesso que a do mesmo grão lavado.

Terreiro suspenso quer dizer mesa de tela a um metro do chão, com ar circulando por baixo da fruta. A secagem fica uniforme e o lote chega sem o gosto de vinho passado que o terreiro de chão às vezes entrega.

O Bourbon Amarelo tem produtividade baixa e grão arredondado. A bebida dele puxa para a doçura de melaço, com acidez discreta de fruta madura, e essa característica serve à extração fria: o frio já corta acidez, e grão de acidez cítrica exuberante perde o traço que o justificava.

A torra média-clara com descarga 30 segundos depois do primeiro estalo tem motivo de método. Torra escura em imersão longa solta compostos de queimado que ficam 24 horas na água e dominam a jarra. A média-clara mantém a fruta seca e o açúcar caramelizado que o processo natural construiu.

Grão para extração fria deve ser escolhido pela doçura que ele sustenta em 24 horas, e não pelo perfume que ele exibe nos primeiros 30 segundos do coador. Melaço e castanha aguentam a jarra; jasmim e limão desaparecem na primeira noite.

Na xícara, o resultado é um café de corpo espesso, com doçura de fruta madura no fundo da boca e amargor baixo. Notas de chocolate meio amargo, castanha-do-pará e melaço, no pacote de 250g entre R$ 60 e R$ 90.

 
 

II  Como Preparar

Vinte e quatro horas na geladeira, 1 para 8

O preparo deste grão é a imersão total a frio, moagem grossa, proporção de 1 para 8 e 24 horas de contato entre pó e água, sem uma agitada sequer no meio do caminho.

Moagem grossa resolve o defeito mais comum da jarra. Pó fino em 24 horas de contato segue cedendo compostos amargos muito depois do ponto ideal, e a bebida chega adstringente, com secura de chá esquecido na xícara. Pó na textura de açúcar cristal entrega a doçura e para antes do amargor.

A ficha do preparo:

A ficha da imersão a frio

Café100g
Água800ml, filtrada, à temperatura ambiente
Proporção1 para 8, em peso
Moagemgrossa, textura de açúcar cristal
Métodoimersão total em jarra de vidro com tampa, sem agitação depois do início
Tempo24 horas, sendo 2 horas na bancada e 22 horas na geladeira a 5 graus
Rendimentocerca de 700ml de concentrado, servido diluído em 1 para 1 com água ou leite gelado
1  Pese 100g de grão e moa na textura de açúcar cristal, imediatamente antes de montar a jarra.
2  Despeje o pó na jarra de vidro, cubra com os 800ml de água filtrada em temperatura ambiente e mexa uma vez só, o suficiente para molhar o pó seco que boia na superfície.
3  Tampe e deixe 2 horas na bancada, que é a janela em que a extração corre mais rápido e monta o corpo da bebida.
4  Leve à geladeira a 5 graus e esqueça por 22 horas, sem mexer, sem chacoalhar e sem provar no meio.
5  Filtre em duas etapas, primeiro numa peneira fina para tirar o grosso do pó e depois num papel de coador, e guarde o concentrado em garrafa fechada.

As 2 horas iniciais fora da geladeira têm função precisa. A 25 graus a água solta em duas horas o que levaria seis a 5 graus. A bancada monta corpo e doçura; a geladeira faz o resto devagar, sem abrir a porta para bactéria.

A agitação no meio do processo parece inofensiva e não é. Cada chacoalhada renova a água em volta da partícula e acelera a extração de um jeito que ninguém controla, e a mesma receita passa a entregar bebida diferente a cada rodada.

Filtre em duas etapas e nunca aperte o papel para acelerar a passagem. O aperto empurra partícula fina para dentro da garrafa, e o concentrado continua extraindo sozinho dentro da geladeira até ficar turvo e amargo.

O resultado esperado é um concentrado marrom escuro e translúcido contra a luz, com cheiro de melaço e sem o perfume de torrado que o café quente solta na cozinha. Diluído em 1 para 1 com água gelada, chega ao copo com a força de um coado comum.

O concentrado dura cerca de 10 dias na geladeira em garrafa fechada. Passado o prazo a doçura cai primeiro, e a bebida fica com gosto plano, sem defeito que denuncie a idade.

Se a sua jarra sair fraca e aguada mesmo depois das 24 horas, o pó estava grosso demais ou a proporção passou de 1 para 10. Feche um ponto no moedor e volte para os 100g antes de mexer no tempo.

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III  O Detalhe

Por que o frio deixa o ácido dentro do pó

Niny Rao e Megan Fuller, químicas da Thomas Jefferson University, assinaram o trabalho Acidity and Antioxidant Activity of Cold Brew Coffee, publicado na revista Scientific Reports em 2018.

"As amostras de café extraído a frio se mostraram menos ácidas do que as equivalentes extraídas a quente", escrevem Niny Rao e Megan Fuller em Acidity and Antioxidant Activity of Cold Brew Coffee, publicado na Scientific Reports em 2018.

Niny Rao e Megan Fuller · Acidity and Antioxidant Activity of Cold Brew Coffee · 2018

O mecanismo cabe em química de cozinha. Os ácidos clorogênicos, a família de compostos que responde por boa parte do azedume e da adstringência do café, se dissolvem melhor em água quente. Acima de 90 graus a água entra na parede da célula do grão torrado e arrasta esses ácidos. A 20 graus ela entra devagar e leva preferência pelos açúcares e pelos aromas mais solúveis.

O tempo longo da imersão fria compensa parte da diferença, sem anular a preferência do solvente. Vinte e quatro horas a frio extraem quantidade comparável de cafeína e de sólidos totais, e ainda assim deixam boa parte do estoque ácido dentro do pó descartado no filtro.

Vale separar o que a medição mostrou do que virou promessa de cardápio. Rao e Fuller não testaram efeito sobre azia, gastrite ou refluxo: o trabalho mediu química de bebida em laboratório, com titulação e leitura de pH, sem participante humano. A ponte entre menos ácido titulável e menos desconforto no estômago segue como hipótese, não como resultado clínico.

Outro trecho segue em aberto. O efeito da torra apareceu forte nas duas temperaturas, com as claras mais ácidas que as escuras em qualquer método, e o quanto cada origem contribui para essa variação não foi isolado no desenho do estudo. Uma jarra fria de torra clara pode acabar mais ácida que um coado quente de torra escura.

Na nossa opinião: a extração fria virou item caro de cafeteria por motivo de operação, não de insumo. São 24 horas de geladeira ocupada e filtragem trabalhosa, custo que o balcão cobra e a sua cozinha não tem. Um pacote de 250g rende mais de dois litros de concentrado em casa, e o mesmo volume no copo da rua passa de R$ 100.

Teste hoje: monte duas bebidas com o mesmo grão e a mesma moagem grossa, uma com 800ml de água a 20 graus por 24 horas e outra com 800ml a 93 graus no coador, e prove as duas geladas, sem açúcar. A expectativa é que a fria chegue mais doce e mais redonda, e que a quente gelada mostre um azedume seco na lateral da língua que a fria não tem.

"O café a frio assenta melhor no seu estômago, ou você nunca sentiu diferença nenhuma?"

 
 

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Quiz da edição

O que Niny Rao e Megan Fuller mediram, em 2018, ao comparar o café extraído a frio com o café coado quente feitos com o mesmo grão?

ApH bem mais baixo no café frio, com acidez titulável igual nas duas bebidas
BAcidez titulável menor no café frio, com o pH das duas bebidas na mesma vizinhança
CAcidez titulável maior no café frio, com pH mais alto no café quente
DpH e acidez titulável idênticos nas duas bebidas

Resultado da última edição: 73% acertaram.

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