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Ácidos clorogênicos venceu a urna de 01/10. Sai em 07/10.
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O acordo de Taubaté que pôs o governo para comprar café
Em 1906, 3 estados decidiram estocar a sobra da safra com dinheiro emprestado, e a política só parou com 78 milhões de sacas no fogo.
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Sacas de café empilhadas num armazém antigo
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Em 1959, o economista Celso Furtado publicou Formação Econômica do Brasil e deu nome ao que o país fez com o café durante 3 décadas: socialização das perdas. Na conta dele, quando o preço caía lá fora, o prejuízo do fazendeiro passava para o resto da população, pelo câmbio e pelo imposto. O começo dessa conta tem data e endereço. Em 26 de fevereiro de 1906, os presidentes de 3 estados se reuniram em Taubaté, no Vale do Paraíba paulista: Jorge Tibiriçá, de São Paulo, Francisco Salles, de Minas Gerais, e Nilo Peçanha, do Rio de Janeiro. Na Primeira República, o chefe de cada estado usava o título de presidente. O problema que eles levaram para a mesa era de sobra. Os cafezais plantados na década anterior tinham chegado à idade de produzir, e a safra de 1906 prometia ser a maior já colhida no país. O Brasil vendia a maior parte do café consumido no mundo, e cada saca a mais derrubava o preço nos portos da Europa e dos Estados Unidos. O acordo assinado em Taubaté tinha 3 peças. O governo compraria o café que sobrasse no mercado e guardaria as sacas até o preço subir. A compra seria paga com empréstimo de bancos estrangeiros. E a dívida sairia de uma sobretaxa (um imposto extra) cobrada em cada saca exportada. Havia uma quarta cláusula, a menos lembrada: os estados se comprometiam a desestimular plantio novo, para a oferta parar de crescer. Foi a parte que falhou primeiro. O presidente da República, Rodrigues Alves, recusou o aval do governo federal. São Paulo foi adiante sozinho, levantou dinheiro com bancos de Londres e de Nova York e começou a comprar. Em novembro de 1906, Afonso Pena assumiu a presidência e apoiou o plano. A valorização (o nome oficial da compra de estoque para segurar o preço) deu certo nos primeiros anos. O preço se firmou, os bancos receberam, e o molde ficou pronto para voltar a cada safra grande. A última volta dele terminou em fogueira. O grão desta manhã é de uma variedade que já estava nos cafezais de 1906, e a trajetória dela mostra o que a política de volume fez com o sabor do café brasileiro. Continue lendo ↓
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I O Grão do Dia
O Bourbon que sobreviveu à era do volume
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O grão do dia é um Bourbon Vermelho de Carmo de Minas, na Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais, cultivado a 1.200 metros e colhido à mão, só os frutos maduros. O processo é o cereja descascado (o fruto perde a casca antes de secar, e a mucilagem, a camada doce e pegajosa em volta do grão, seca grudada nele).
O Bourbon chegou ao Brasil em 1859, vindo da ilha de Reunião, que os franceses chamavam de Île Bourbon (ilha Bourbon, nome da casa real francesa). Na época do acordo de Taubaté, ele dividia as fazendas paulistas com o café Nacional, o Typica, a primeira variedade plantada no país.
As sacas que o governo estocou a partir de 1906 eram, em boa parte, desses dois cafés. Ninguém provava a xícara para comprar: o grão era negociado como mercadoria de volume, pelo peso e pelo tipo, e o tipo dependia da contagem de defeitos (grão preto, quebrado, furado por broca) numa amostra.
Nessa lógica, o Bourbon tinha um defeito que nenhuma peneira media: produzia pouco. Quando o Instituto Agronômico de Campinas lançou o Mundo Novo, nos anos 1950, e depois o Catuaí, o produtor trocou o Bourbon por pés que davam mais sacas por hectare.
O Bourbon sobreviveu nas serras, onde o frio lento da altitude faz o fruto amadurecer devagar e acumular açúcar. A Mantiqueira é uma dessas serras, e ali ele passou a valer pelo que a política de volume ignorava: o gosto.
A ficha do lote, em números:
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A ficha do Bourbon de Carmo de Minas
| Variedade | Bourbon Vermelho |
| Origem | Carmo de Minas, Serra da Mantiqueira, Minas Gerais |
| Altitude de cultivo | 1.200 metros |
| Colheita | manual, seletiva, só frutos maduros |
| Processo | cereja descascado |
| Secagem | terreiro suspenso, até 11% de umidade |
| Nota na prova da SCA | 86 pontos |
| Perfil de torra | média clara |
| Faixa de preço do pacote de 250g | R$ 55 a R$ 75 |
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A nota vem da prova de xícara da SCA (Specialty Coffee Association, a associação internacional de cafés especiais), que dá de 0 a 100 pontos. A partir de 80, o lote entra na categoria de café especial.
A colheita seletiva custa caro. O apanhador passa pelo mesmo pé 3 ou 4 vezes na safra, tirando só a cereja vermelha, e deixa a verde para a próxima passada. No café de volume, a derriça (arrancar todos os frutos do galho de uma vez) mistura verde, maduro e seco no mesmo pano.
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O estoque de 1906 pesava sacas; o Bourbon da Mantiqueira se mede na xícara.
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Na xícara, corpo médio, acidez cítrica delicada e doçura de caramelo. Notas de caramelo, laranja e amêndoa, com final limpo e sem o amargor seco que o grão verde misturado ao maduro deixaria.
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II Como Preparar
Um coador de pano como o das fazendas
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O preparo de hoje é o coador de pano (o filtro de flanela de algodão preso num aro de arame), o método que as casas brasileiras usavam quando o acordo de Taubaté foi assinado: 20 gramas de café, 300 mililitros de água a 93 graus, moagem média e cerca de 4 minutos do início ao fim.
A escolha tem motivo. O pano retém o pó fino, mas deixa passar parte dos óleos que o filtro de papel seguraria. O Bourbon de corpo médio ganha textura sem perder a acidez de laranja, e a bebida sai redonda.
A ficha do preparo:
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A ficha do coador de pano
| Café | 20g, moído na hora |
| Água | 300ml, filtrada, a 93 graus |
| Proporção | 1 para 15, em peso |
| Moagem | média, parecida com açúcar cristal |
| Método | coador de pano |
| Tempo | cerca de 4 minutos |
| Rendimento | 1 caneca de cerca de 270ml |
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| 1 Escalde o pano com água quente e torça bem, para tirar o gosto de tecido. |
| 2 Coloque os 20g de café moído no pano, apoiado sobre o bule. |
| 3 Despeje 50ml de água a 93 graus, só para molhar o pó, e espere 30 segundos. |
| 4 Complete com o resto da água em fio fino, em círculos, sem encher o pano até a borda. |
| 5 Deixe escorrer tudo e sirva logo, sem ferver o café depois de pronto. |
A etapa do passo 3 tem nome: pré-infusão (a primeira água que molha o pó e deixa o gás da torra escapar). Sem ela, o gás empurra a água para os lados e parte do café fica sem extrair.
O açúcar ficou fora da receita de propósito. Nas cozinhas de 1906, o café se fazia fervendo pó, água e açúcar juntos na chaleira antes de passar no pano. Com um grão de 86 pontos, o açúcar esconde a laranja e o caramelo que o produtor levou anos para tirar do pé.
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Pano escaldado, água abaixo da fervura e nada de açúcar na chaleira.
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Se a xícara sair rala, suba o café para 22 gramas. Se sair amarga, engrosse a moagem um ponto ou baixe a água para 91 graus.
O pano pede cuidado próprio. Depois do uso, enxágue só com água, sem sabão, e guarde dentro de um pote com água na geladeira. Pano seco no ar fica rançoso em poucos dias, e o ranço passa para a próxima xícara.
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