In partnership with

Notas do Café   Notas do Café
ED 133

Ácidos clorogênicos venceu a urna de 01/10. Sai em 07/10.

O acordo de Taubaté que pôs o governo para comprar café

Em 1906, 3 estados decidiram estocar a sobra da safra com dinheiro emprestado, e a política só parou com 78 milhões de sacas no fogo.

Pilhas de sacas de juta num armazém antigo de café, com luz entrando por uma janela alta

Sacas de café empilhadas num armazém antigo

▼

Em 1959, o economista Celso Furtado publicou Formação Econômica do Brasil e deu nome ao que o país fez com o café durante 3 décadas: socialização das perdas. Na conta dele, quando o preço caía lá fora, o prejuízo do fazendeiro passava para o resto da população, pelo câmbio e pelo imposto.

O começo dessa conta tem data e endereço. Em 26 de fevereiro de 1906, os presidentes de 3 estados se reuniram em Taubaté, no Vale do Paraíba paulista: Jorge Tibiriçá, de São Paulo, Francisco Salles, de Minas Gerais, e Nilo Peçanha, do Rio de Janeiro. Na Primeira República, o chefe de cada estado usava o título de presidente.

O problema que eles levaram para a mesa era de sobra. Os cafezais plantados na década anterior tinham chegado à idade de produzir, e a safra de 1906 prometia ser a maior já colhida no país. O Brasil vendia a maior parte do café consumido no mundo, e cada saca a mais derrubava o preço nos portos da Europa e dos Estados Unidos.

O acordo assinado em Taubaté tinha 3 peças. O governo compraria o café que sobrasse no mercado e guardaria as sacas até o preço subir. A compra seria paga com empréstimo de bancos estrangeiros. E a dívida sairia de uma sobretaxa (um imposto extra) cobrada em cada saca exportada.

Havia uma quarta cláusula, a menos lembrada: os estados se comprometiam a desestimular plantio novo, para a oferta parar de crescer. Foi a parte que falhou primeiro.

O presidente da República, Rodrigues Alves, recusou o aval do governo federal. São Paulo foi adiante sozinho, levantou dinheiro com bancos de Londres e de Nova York e começou a comprar. Em novembro de 1906, Afonso Pena assumiu a presidência e apoiou o plano.

A valorização (o nome oficial da compra de estoque para segurar o preço) deu certo nos primeiros anos. O preço se firmou, os bancos receberam, e o molde ficou pronto para voltar a cada safra grande. A última volta dele terminou em fogueira.

O grão desta manhã é de uma variedade que já estava nos cafezais de 1906, e a trajetória dela mostra o que a política de volume fez com o sabor do café brasileiro.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Grão do Dia

O Bourbon que sobreviveu à era do volume

O grão do dia é um Bourbon Vermelho de Carmo de Minas, na Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais, cultivado a 1.200 metros e colhido à mão, só os frutos maduros. O processo é o cereja descascado (o fruto perde a casca antes de secar, e a mucilagem, a camada doce e pegajosa em volta do grão, seca grudada nele).

O Bourbon chegou ao Brasil em 1859, vindo da ilha de Reunião, que os franceses chamavam de Île Bourbon (ilha Bourbon, nome da casa real francesa). Na época do acordo de Taubaté, ele dividia as fazendas paulistas com o café Nacional, o Typica, a primeira variedade plantada no país.

As sacas que o governo estocou a partir de 1906 eram, em boa parte, desses dois cafés. Ninguém provava a xícara para comprar: o grão era negociado como mercadoria de volume, pelo peso e pelo tipo, e o tipo dependia da contagem de defeitos (grão preto, quebrado, furado por broca) numa amostra.

Nessa lógica, o Bourbon tinha um defeito que nenhuma peneira media: produzia pouco. Quando o Instituto Agronômico de Campinas lançou o Mundo Novo, nos anos 1950, e depois o Catuaí, o produtor trocou o Bourbon por pés que davam mais sacas por hectare.

O Bourbon sobreviveu nas serras, onde o frio lento da altitude faz o fruto amadurecer devagar e acumular açúcar. A Mantiqueira é uma dessas serras, e ali ele passou a valer pelo que a política de volume ignorava: o gosto.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Bourbon de Carmo de Minas

VariedadeBourbon Vermelho
OrigemCarmo de Minas, Serra da Mantiqueira, Minas Gerais
Altitude de cultivo1.200 metros
Colheitamanual, seletiva, só frutos maduros
Processocereja descascado
Secagemterreiro suspenso, até 11% de umidade
Nota na prova da SCA86 pontos
Perfil de torramédia clara
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 55 a R$ 75

A nota vem da prova de xícara da SCA (Specialty Coffee Association, a associação internacional de cafés especiais), que dá de 0 a 100 pontos. A partir de 80, o lote entra na categoria de café especial.

A colheita seletiva custa caro. O apanhador passa pelo mesmo pé 3 ou 4 vezes na safra, tirando só a cereja vermelha, e deixa a verde para a próxima passada. No café de volume, a derriça (arrancar todos os frutos do galho de uma vez) mistura verde, maduro e seco no mesmo pano.

O estoque de 1906 pesava sacas; o Bourbon da Mantiqueira se mede na xícara.

Na xícara, corpo médio, acidez cítrica delicada e doçura de caramelo. Notas de caramelo, laranja e amêndoa, com final limpo e sem o amargor seco que o grão verde misturado ao maduro deixaria.

 
 

II  Como Preparar

Um coador de pano como o das fazendas

O preparo de hoje é o coador de pano (o filtro de flanela de algodão preso num aro de arame), o método que as casas brasileiras usavam quando o acordo de Taubaté foi assinado: 20 gramas de café, 300 mililitros de água a 93 graus, moagem média e cerca de 4 minutos do início ao fim.

A escolha tem motivo. O pano retém o pó fino, mas deixa passar parte dos óleos que o filtro de papel seguraria. O Bourbon de corpo médio ganha textura sem perder a acidez de laranja, e a bebida sai redonda.

A ficha do preparo:

A ficha do coador de pano

Café20g, moído na hora
Água300ml, filtrada, a 93 graus
Proporção1 para 15, em peso
Moagemmédia, parecida com açúcar cristal
Métodocoador de pano
Tempocerca de 4 minutos
Rendimento1 caneca de cerca de 270ml
1  Escalde o pano com água quente e torça bem, para tirar o gosto de tecido.
2  Coloque os 20g de café moído no pano, apoiado sobre o bule.
3  Despeje 50ml de água a 93 graus, só para molhar o pó, e espere 30 segundos.
4  Complete com o resto da água em fio fino, em círculos, sem encher o pano até a borda.
5  Deixe escorrer tudo e sirva logo, sem ferver o café depois de pronto.

A etapa do passo 3 tem nome: pré-infusão (a primeira água que molha o pó e deixa o gás da torra escapar). Sem ela, o gás empurra a água para os lados e parte do café fica sem extrair.

O açúcar ficou fora da receita de propósito. Nas cozinhas de 1906, o café se fazia fervendo pó, água e açúcar juntos na chaleira antes de passar no pano. Com um grão de 86 pontos, o açúcar esconde a laranja e o caramelo que o produtor levou anos para tirar do pé.

Pano escaldado, água abaixo da fervura e nada de açúcar na chaleira.

Se a xícara sair rala, suba o café para 22 gramas. Se sair amarga, engrosse a moagem um ponto ou baixe a água para 91 graus.

O pano pede cuidado próprio. Depois do uso, enxágue só com água, sem sabão, e guarde dentro de um pote com água na geladeira. Pano seco no ar fica rançoso em poucos dias, e o ranço passa para a próxima xícara.

Coador, moedor e balança →
Comprar o pacote (250g) →

Links de afiliado. Sem custo extra pra você, ajuda a manter Notas do Café de pé.

 

Quem banca a edição de hoje

NVIDIA's Founder Says Farmers Should Absolutely Use AI

“If I were a farmer, I would absolutely use AI.” 

That’s Jensen Huang, founder and CEO of NVIDIA. 

And he's pointing to one of AI’s biggest untapped opportunities: Farming. It’s an industry facing mounting pressure to produce more with less and it’s still massively under-automated. 

DIT AgTech brings AI, nutrition automation, and real-time data to livestock production, helping ranchers boost productivity and get more from every animal. 

And it’s already proven in one of the world's toughest livestock environments: 

  • 500+ units deployed 

  • 370,000 head of livestock on the platform 

  • Up to 55% higher daily weight gain 

Now expanding into the U.S. and Brazil, DIT AgTech is targeting a 300M+ head cattle market. And the biggest barrier to adoption? Gone. Ranchers get the technology for free when they sign up for a three-year nutrition plan. 

DIT AgTech can scale adoption faster, which means more data and more recurring revenue. 

Invest before this early-stage opportunity gets harder to access.

𝘐𝘯 𝘮𝘢𝘬𝘪𝘯𝘨 𝘢𝘯 𝘪𝘯𝘷𝘦𝘴𝘵𝘮𝘦𝘯𝘵 𝘥𝘦𝘤𝘪𝘴𝘪𝘰𝘯, 𝘪𝘯𝘷𝘦𝘴𝘵𝘰𝘳𝘴 𝘮𝘶𝘴𝘵 𝘳𝘦𝘭𝘺 𝘰𝘯 𝘵𝘩𝘦𝘪𝘳 𝘰𝘸𝘯 𝘦𝘹𝘢𝘮𝘪𝘯𝘢𝘵𝘪𝘰𝘯 𝘰𝘧 𝘵𝘩𝘦 𝘪𝘴𝘴𝘶𝘦𝘳 𝘢𝘯𝘥 𝘵𝘩𝘦 𝘵𝘦𝘳𝘮𝘴 𝘰𝘧 𝘵𝘩𝘦 𝘰𝘧𝘧𝘦𝘳𝘪𝘯𝘨, 𝘪𝘯𝘤𝘭𝘶𝘥𝘪𝘯𝘨 𝘵𝘩𝘦 𝘮𝘦𝘳𝘪𝘵𝘴 𝘢𝘯𝘥 𝘳𝘪𝘴𝘬𝘴 𝘪𝘯𝘷𝘰𝘭𝘷𝘦𝘥. 𝘋𝘐𝘛 𝘈𝘨𝘛𝘦𝘤𝘩 𝘩𝘢𝘴 𝘧𝘪𝘭𝘦𝘥 𝘢 𝘍𝘰𝘳𝘮 𝘊 𝘸𝘪𝘵𝘩 𝘵𝘩𝘦 𝘚𝘦𝘤𝘶𝘳𝘪𝘵𝘪𝘦𝘴 𝘢𝘯𝘥 𝘌𝘹𝘤𝘩𝘢𝘯𝘨𝘦 𝘊𝘰𝘮𝘮𝘪𝘴𝘴𝘪𝘰𝘯 𝘪𝘯 𝘤𝘰𝘯𝘯𝘦𝘤𝘵𝘪𝘰𝘯 𝘸𝘪𝘵𝘩 𝘪𝘵𝘴 𝘰𝘧𝘧𝘦𝘳𝘪𝘯𝘨, 𝘢 𝘤𝘰𝘱𝘺 𝘰𝘧 𝘸𝘩𝘪𝘤𝘩 𝘮𝘢𝘺 𝘣𝘦 𝘰𝘣𝘵𝘢𝘪𝘯𝘦𝘥 𝘩𝘦𝘳𝘦: https://bit.ly/4bzuWCi​  ​

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  O Detalhe

Das compras de Taubaté às 78 milhões de sacas

A conta de Taubaté fechou por um motivo simples: a safra de 1907 veio menor, o preço voltou a subir e o governo paulista vendeu o estoque com lucro. A sobretaxa acertada no acordo, de 3 francos por saca exportada, pagou os bancos estrangeiros.

O sucesso virou hábito. O governo federal repetiu a compra de estoque em 1917 e em 1921. Em 1924, São Paulo criou o Instituto do Café, com a tarefa de fazer a defesa permanente do preço: segurar as sacas nos armazéns do interior e soltá-las aos poucos no porto de Santos.

A quarta cláusula de Taubaté, a do plantio, nunca pegou. Com o preço garantido, plantar café era o melhor negócio do país, e os cafezais novos da década de 1920 começaram a produzir no fim dela. Em outubro de 1929, a quebra da Bolsa de Nova York derrubou o preço do café e secou o crédito que sustentava os estoques.

O governo de Getúlio Vargas herdou armazéns cheios e uma safra enorme a caminho. Em 1931, começou a comprar café para destruir. Em 1933, criou o Departamento Nacional do Café, o DNC, que conduziu a queima até 1944. Segundo os balanços do próprio DNC, foram 78 milhões de sacas destruídas em 13 anos.

O café virou combustível de locomotiva, foi jogado no mar e queimado em pilhas a céu aberto. Para pagar as compras, o governo cobrava do exportador uma taxa por saca vendida, o mesmo desenho da sobretaxa de 1906.

Furtado, em Formação Econômica do Brasil (1959), leu a fogueira como a última etapa de Taubaté. Para ele, ao comprar o café que seria queimado, o governo manteve a renda dos fazendeiros e dos colonos durante a crise, e o dinheiro gasto no interior segurou a economia brasileira melhor do que o corte de gastos teria segurado.

A leitura tem opositores. Historiadores econômicos discutem até hoje quanto da recuperação dos anos 1930 veio da queima e quanto veio da indústria que cresceu com a importação cara. A pergunta segue em aberto porque as contas nacionais da época eram precárias e não separam as duas fontes com precisão.

O que não está em disputa é o desfecho da política. Em 1906, ela nasceu para guardar a sobra e esperar o preço; em 1944, terminou destruindo a sobra que o próprio preço garantido tinha plantado. O começo e o fim usam o mesmo mecanismo: o governo compra, o exportador paga por saca, e o volume manda.

Na nossa opinião: a era da valorização explica por que o Brasil levou tanto tempo para vender café pelo sabor. Durante quase 40 anos, o país foi pago para produzir mais, e o Bourbon da serra ficou esquecido.

Teste hoje: prepare a receita do coador duas vezes, uma com o café de supermercado da sua despensa e outra com um pacote que traga variedade e altitude no rótulo. Prove as duas sem açúcar e anote quais das 3 notas (caramelo, laranja, amêndoa) aparecem em cada xícara. O café de rótulo genérico deve chegar com amargor e nenhuma fruta, o gosto do café vendido por volume.

"O pacote na sua cozinha diz de que variedade é o café?"

 
 
Café de Balcão no Coador de Casa. Oito variáveis, uma por dia, no ebook e no app. Quero o ebook + app.

Quero o ebook + app →

 
Quiz da edição

Qual presidente da República recusou dar aval do governo federal ao acordo de Taubaté em 1906?

AJorge Tibiriçá
BNilo Peçanha
CRodrigues Alves
DAfonso Pena

Resultado da última edição: 3 de 5 acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

☕☕☕☕☕  ótima ☕☕☕☕  boa ☕☕☕  ok ☕☕  ruim ☕  péssima
 
Escolha a edição de quinta

Qual edição você quer ver?

1 toque vota. A mais votada sai na quinta, 08/10.

Voto aberto até 02/10, 15h30

A Válvula da Goglio →
B Terceira onda de Rothgeb →
C Boram Um em Atenas →
D Missão da FAO na Etiópia →
 
 

Quem banca a edição de hoje

How 2M+ Professionals Stay Ahead on AI

What’s the secret to staying ahead of the curve in the world of AI? Information. 

Luckily, you can join 2,000,000+ early adopters reading The Rundown AI — the free newsletter that makes you smarter on AI with just a 5-minute read per day.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
Recomendação de Newsletter
Fotografia do Dia

Fotografia do Dia

Uma foto por dia, com a luz, a lente e a decisão que o fotógrafo tomou antes de apertar. E o passo pra repetir. No seu email todo dia às 08:08.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}

{{vip_linha | }}

 
Camiseta da casa

Qual dessas camisetas você usaria?

Queremos criar uma comunidade forte e unida. Logo, escolha a arte e o tamanho da camiseta e entre na lista de espera. Se leitores suficientes pedirem, nós faremos essas camisetas.

Camiseta com a arte Xícara quente nas mãos frias
Xícara quente nas mãos frias
Camiseta com a arte Um minuto antes do primeiro gole
Um minuto antes do primeiro gole
Camiseta com a arte Bom café, bom dia
Bom café, bom dia

Escolher a minha arte →

 

Bom café. In cafea veritas.

NOTAS DO CAFÉ

Todo dia, um café melhor

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter
📚 Artigos