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ED 111

O armazém de Guaxupé que recebe o lote do sítio pequeno

Fundada em 1932, a Cooxupé reúne mais de 15 mil produtores do Sul de Minas e do Cerrado e virou a maior exportadora de café do Brasil.

Interior de um grande armazém rural de café em Minas Gerais pela manhã, com fileiras altas de sacas de aniagem empilhadas, um palete de madeira com um lote pequeno em primeiro plano e luz empoeirada entrando por janelas altas sobre o piso de concreto

O armazém que recebe o café do sítio pequeno

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No relatório anual de 2022, a Cooxupé registrou mais de 15 mil produtores cooperados e informou que a maior parte deles cultiva café em área menor que dez hectares. A mesma cooperativa que reúne essa gente miúda é a maior exportadora de café do Brasil.

A sede fica em Guaxupé, no sul de Minas Gerais, cidade de porte médio encravada entre lavouras de encosta. A fundação é de 1932, quando um grupo de cafeicultores da região montou uma cooperativa agrícola para comprar insumo junto e vender a safra sem depender do comprador que aparecia no portão da fazenda.

A lógica de uma cooperativa de café é a lógica do caminhão que precisa sair cheio. Um sítio que colhe 60 sacas por ano não conversa com trading internacional, não tem armazém climatizado, não paga certificação e não consegue montar um contêiner sozinho.

Reunidos, esses mesmos sítios formam volume de exportação. O café de centenas de propriedades vizinhas entra num complexo de armazéns, é pesado, classificado e agrupado por padrão de bebida, e o que sai pelo porto de Santos é lote com escala para negociar preço em Nova York.

A escala também paga estrutura que produtor nenhum bancaria sozinho: laboratório de análise sensorial, agrônomo circulando pelo campo, compra de fertilizante em volume, adiantamento de recurso antes da colheita e crédito para renovar lavoura velha.

E existe o outro lado dessa mesma engrenagem. Quando o lote entra no padrão comercial e vira blend de exportação, a identidade do sítio se dissolve na média, e o produtor recebe pela classificação do café, não pela história dele.

Nos últimos anos, a resposta veio pela outra ponta: programas de microlote e concursos de qualidade que separam o café de nota alta antes que ele encoste no blend, com o número do talhão preservado na etiqueta até a torrefação.

O grão de hoje sai exatamente dessa fresta. É um lote pequeno de encosta que passou pelo armazém, foi provado na mesa de classificação e voltou para o mercado com nome próprio em vez de virar média.

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I  O Grão do Dia

O Mundo Novo de Guaxupé em cereja descascado

O grão do dia é o Mundo Novo de Guaxupé, no Sul de Minas, Coffea arabica processado como cereja descascado, cultivado entre 900 e 1.100 metros e vendido em pacote de 250g.

Guaxupé fica no extremo sul de Minas, na ponta da Mantiqueira que desce para São Paulo. O relevo é de meia encosta, com morro que sobe rápido e talhão que acompanha a curva de nível, e a colheita ali é feita de derriça no pano, no braço, porque trator não sobe rampa de trinta por cento.

O Mundo Novo é um híbrido natural entre Bourbon Vermelho e Sumatra, selecionado no Instituto Agronômico de Campinas a partir de lavouras de Urupês, no interior paulista. Tem porte alto, produtividade generosa e maturação irregular no mesmo galho, o que obriga o colhedor a passar duas vezes na planta quando quer fruto maduro de verdade.

O processo é o cereja descascado, que significa tirar a casca do fruto na hora e deixar a mucilagem grudada no grão para secar. É o meio do caminho entre o lavado e o natural: mantém a doçura melada que a mucilagem entrega e corta a fermentação pesada de fruta passa que o fruto inteiro produziria no terreiro.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Mundo Novo de Guaxupé

Altitude de cultivo900 a 1.100 metros
Colheitaderriça seletiva no pano, em duas passadas, com 84 por cento de cereja
Secagem4 dias em terreiro suspenso e 18 horas em secador de ar quente a 40 graus
Umidade final do grão seco11 por cento
Perfil de torra11 minutos no total, com descarga 1 minuto e 40 segundos depois do primeiro estalo
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 34 a R$ 46

O terreiro suspenso é detalhe de sítio pequeno e muda o café na xícara. A tela levantada a um metro do chão deixa o ar passar por baixo da camada de grãos, o que seca por igual e evita o gosto de terra que o concreto encharcado de sereno deixa no lote de quem não consegue revirar o café a cada duas horas.

A mucilagem que fica no grão é açúcar, e açúcar exposto ao sol atrai fermentação. Por isso o cereja descascado tem janela curta: se a secagem passa de quatro ou cinco dias sem chegar perto de onze por cento de umidade, a doçura de melado vira azedume de vinagre.

O ponto médio da torra existe para preservar a acidez cítrica da encosta. Um minuto e quarenta de desenvolvimento depois do estalo é tempo suficiente para formar caramelo sem queimar a nota de laranja, que é justamente a assinatura que separa café de altitude de café de chapada plana.

Cereja descascado é um café que já nasce doce na secagem, e a torra só precisa não atrapalhar o trabalho que o sol fez no terreiro.

Na xícara, o resultado é um café de corpo médio, doçura de caramelo, acidez cítrica de laranja-baía e retrogosto limpo de castanha. Notas de amendoim torrado, caramelo e chocolate meio amargo. Faixa de preço do pacote de 250g: R$ 34 a R$ 46.

 
 

II  Como Preparar

Os dois minutos e cinquenta do coador cônico

O preparo deste grão é o coador cônico V60: 22g de café em moagem média para 350ml de água a 94 graus, em três despejos que fecham por volta de 2 minutos e 50 segundos.

O cônico é percolação. A água atravessa a cama de pó de cima para baixo e escorre pelo filtro de papel, que segura o óleo e devolve uma bebida limpa, com a acidez de laranja bem separada da doçura em vez de fundida no corpo.

A temperatura sobe para 94 graus por causa da torra média. Grão descarregado um minuto e quarenta depois do estalo tem estrutura mais fechada que um médio-escuro e precisa de água mais quente para entregar açúcar, e água morna nesse ponto de torra devolve uma xícara aguada e ácida.

A moagem média é o eixo do método. Pó grosso demais deixa a água passar antes de dissolver o caramelo, pó fino demais entope o papel e a drenagem estoura os três minutos, com amargor no fim do gole.

A ficha do preparo:

A ficha do coador cônico deste lote

Receita22g de café para 350ml de água
Proporção1 para 15,9
Água94 graus, aferida com termômetro
Moagemmédia, textura de areia de praia
MétodoV60 tamanho 02, filtro de papel enxaguado com água quente
Despejos50ml de pré-infusão, depois 150ml e 150ml
Tempo total2 minutos e 50 segundos de drenagem

Enxágue o filtro com água quente antes de colocar o pó e jogue fora a água que caiu na jarra. O papel seco solta gosto de papelão nos primeiros segundos da extração, e o enxágue ainda pré-aquece o cone e a jarra de uma vez só.

Comece com 50ml de pré-infusão sobre o pó seco e espere 45 segundos. A água molha o grão e empurra para fora o gás carbônico que a torra deixou preso, e é esse gás que faz a cama inchar e formar a bolha que atrapalha a extração seguinte.

Os 45 segundos de pré-infusão são o que separa uma xícara doce de uma xícara com acidez seca raspando o fim da língua.

Faça o segundo despejo com 150ml em movimento circular do centro para fora, sem encostar no papel, e espere a água baixar até a metade da cama antes do terceiro. Água jogada na parede do filtro escorre sem passar pelo pó e dilui a bebida sem extrair nada.

O terceiro despejo leva os 150ml restantes e fecha a conta em 350ml. A drenagem deve terminar entre 2 minutos e 40 segundos e 3 minutos: mais rápido indica moagem grossa, mais lento indica moagem fina.

Sirva assim que a última gota cair e mexa a jarra antes de encher a xícara. O café que sai no começo da extração é mais concentrado que o do fim, e sem a mexida a primeira xícara sai doce e a segunda sai rala.

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III  O Detalhe

O armazém que devolve identidade ao lote

Uma cooperativa de café não é uma empresa que compra do produtor. É uma sociedade de pessoas em que o produtor é dono, entrega a safra, participa da assembleia e recebe sobra no fim do exercício quando o resultado permite.

A diferença aparece na prática do armazém. O café chega em coco ou em pergaminho, é pesado, seco no padrão de umidade, rebeneficiado e classificado por peneira, tipo e bebida, e o produtor pode deixar o lote depositado esperando cotação melhor em vez de vender no dia da colheita.

Quem tem onde guardar o café decide quando vender, e quem não tem vende no dia em que o caminhão do intermediário aparece no portão.

"A cooperativa é uma sociedade de pessoas, e não de capital", escreveu Diva Benevides Pinho em O Pensamento Cooperativo e o Cooperativismo Brasileiro, de 1982.

Diva Benevides Pinho · O Pensamento Cooperativo e o Cooperativismo Brasileiro · 1982

A definição de Pinho explica por que a mesa de classificação é o coração dessa estrutura. Provadores certificados avaliam a amostra de cada lote em sessão de xícaras às cegas, e a nota dessa prova determina o preço que o produtor recebe e o destino do café, se blend comercial ou microlote separado.

Vale desmontar o mito de que café de cooperativa é sempre café médio. O volume gigante existe, mas convive com programas de qualidade que rastreiam o talhão, e boa parte dos cafés brasileiros premiados em concurso nacional nas últimas décadas saiu de propriedade cooperada de dez hectares, não de fazenda de mil.

Na nossa opinião: o valor real dessa estrutura está no armazém, não no volume de exportação. Volume dá poder de negociação para a cooperativa; armazém dá poder de espera para o produtor, e poder de espera é o que impede um sítio de vender abaixo do custo em ano de safra cheia.

O rastro dessa engrenagem chega direto na sua xícara. O lote de encosta de hoje só existe com nome próprio porque houve uma sala de prova entre o terreiro e o caminhão, e alguém decidiu que aquele café valia mais separado que diluído na média.

Teste amanhã de manhã: faça duas V60 com este mesmo grão, 22g para 350ml a 94 graus, uma com os 45 segundos de pré-infusão e outra despejando tudo direto, e cronometre a drenagem das duas. A xícara com pré-infusão costuma escoar entre 2 minutos e 40 segundos e 3 minutos e chega doce no fim, e a sem pré-infusão drena antes de 2 minutos e 30 segundos e deixa a língua seca no último gole.

"Quantos segundos drenou a sua xícara sem a pré-infusão?"

 
 

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