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ED 128

Esta pauta venceu a urna de 25/09.

A escala Agtron e os oito discos da cor da torra

Um feixe de infravermelho dá um número a cada torra, e oito discos da SCA dizem se ela é clara, média ou escura.

Discos de cor em arco, do canela claro ao marrom escuro, ao lado de um prato com café moído

Oito discos, do claro ao muito escuro

▼

Numa sala de controle de qualidade, um torrefador despeja uma colherada de café moído num pratinho raso, alisa a superfície com uma espátula e fecha a tampa de um aparelho do tamanho de uma torradeira. Poucos segundos depois, o visor mostra um número: 63.

Esse número decide se o lote segue para a embalagem ou volta para a mesa de prova. O aparelho é um espectrofotômetro Agtron (instrumento que mede quanta luz uma superfície devolve), fabricado pela Agtron Inc., empresa de Reno, no estado americano de Nevada.

A luz que ele usa fica fora do alcance do olho. O Agtron ilumina a amostra com infravermelho próximo, faixa logo depois do vermelho no espectro, e lê quanto dela volta ao sensor. Grão claro devolve muita luz e ganha nota alta; grão escuro absorve quase tudo e ganha nota baixa.

A escala nasceu para resolver uma briga de vocabulário. Torra média numa torrefação de Seattle podia sair escura numa casa de Nápoles, e rótulos como torra cidade, vienense ou francesa mudavam de cor conforme quem falava. O comprador não tinha como saber o que vinha no saco.

Em 1995, a então SCAA (Specialty Coffee Association of America, hoje parte da SCA) lançou com a Agtron um estojo de oito discos coloridos, numerados de 25 a 95, de dez em dez. O trabalho foi conduzido por Carl Staub, especialista em medição de cor ligado à empresa, que calibrou cada disco contra leituras do aparelho.

Com os discos, um torrefador sem o espectrofotômetro, que custa milhares de dólares, compara o pó com a cor pintada e diz em que faixa está. Número alto é torra clara. Número baixo é torra escura. A conversa entre produtor, torrefador e barista ganhou um idioma comum.

A cor, porém, conta só parte da história. Dois cafés no mesmo disco podem ter gosto bem diferente, e a diferença entre a leitura do grão inteiro e a do pó revela o que aconteceu dentro dele no torrador.

O lote de hoje foi tirado na faixa central da escala, onde a fruta e o açúcar ainda dividem a xícara. Começamos por ele.

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I  O Grão do Dia

Um Bourbon Amarelo da Mantiqueira no disco 65

O grão do dia é um Bourbon Amarelo de Carmo de Minas, na Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais, cultivado a 1.250 metros e pontuado em 85 na prova de xícara da SCA (Specialty Coffee Association, a associação internacional de cafés especiais). Secou como natural, com a cereja inteira ao sol.

Carmo de Minas aparece com frequência entre os vencedores do Cup of Excellence (Taça de Excelência, concurso internacional que premia lotes brasileiros por prova cega). A serra junta altitude, noites frias e névoa de manhã, e a cereja amadurece devagar.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Catuaí Amarelo de Piatã

A ficha do Bourbon Amarelo de Carmo de Minas

VariedadeBourbon Amarelo, cereja amarela quando madura
OrigemCarmo de Minas, Serra da Mantiqueira, Minas Gerais
Altitude de cultivo1.250 metros
Colheitamanual seletiva, só cereja madura
Processonatural, 20 dias em terreiro suspenso
Nota na prova da SCA85 pontos
Perfil de torramédia clara, disco 65 da escala Agtron
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 60 a R$ 80

O Bourbon Amarelo é uma mutação natural do Bourbon, variedade levada pelos franceses à ilha de Bourbon, hoje Reunião, no oceano Índico. Em vez de vermelha, a cereja madura fica amarela. A planta é alta, produz menos que as variedades modernas e costuma dar xícara doce.

No processo natural (a cereja seca inteira, com casca e polpa, antes de o grão ser separado), o grão passa semanas em contato com a fruta. Chega ao torrador com açúcar de sobra e perfume de fruta madura, e pede cuidado na hora de escolher a cor final.

O disco 65, na tabela da SCAA de 1995, recebe a classificação de torra média clara. Acima dele ficam o 75 (moderadamente clara), o 85 (clara) e o 95 (muito clara). Abaixo vêm o 55 (média), o 45 (moderadamente escura), o 35 (escura) e o 25 (muito escura).

O número da Agtron diz quanto a torra escureceu o grão. Neste lote, parar no 65 foi a escolha que guardou o pêssego na xícara.

Mais escuro, o açúcar do natural caramelizaria além do ponto e o amargor da torra cobriria a fruta. Mais claro, sobraria acidez crua e um gosto de cereal que lembra amendoim sem torrar.

Na xícara, um café de corpo médio, acidez de maçã amarela e doçura de mel. Notas de mel, pêssego e chocolate ao leite, no pacote de 250g entre R$ 60 e R$ 80.

 
 

II  Como Preparar

Um Kalita Wave com a água ajustada à cor

O preparo de hoje é o Kalita Wave, coador de fundo chato com três furos, criado pela japonesa Kalita: 16 gramas de café, 260 mililitros de água a 92 graus, moagem média e três minutos e meio do primeiro jato à última gota.

O fundo chato espalha a água por igual sobre a cama de pó e deixa o fluxo mais estável que no coador cônico. Para quem quer sentir a torra que o torrefador escolheu, sem a mão do barista mudar muito o resultado, é um método tolerante.

A ficha do preparo:

A ficha do Catuaí Amarelo de Piatã

A ficha do Kalita Wave

Café16g, moído na hora
Água260ml, filtrada, a 92 graus
Proporçãocerca de 1 para 16, em peso
Moagemmédia, parecida com sal grosso fino
MétodoKalita Wave, filtro de papel ondulado
Tempo3 minutos e meio no total
Rendimento1 caneca de cerca de 230ml
1  Moa o café na hora e compare a cor do pó com a do grão inteiro.
2  Encaixe o filtro ondulado, molhe com água quente e descarte a água da caneca.
3  Despeje o pó, nivele com uma batida leve e zere a balança.
4  Jogue 50ml de água, molhando todo o pó, e espere 40 segundos.
5  Complete até 160ml em círculos pequenos, sem encostar no papel.
6  Com a água baixando, complete até 260ml e deixe escorrer.

A temperatura da água acompanha a cor da torra. Torra clara é mais densa e solta o açúcar com mais dificuldade e pede água perto da fervura. Torra escura já saiu do torrador porosa e quebradiça, e extrai rápido; com água muito quente, fica amarga.

Para o disco 65 deste lote, 92 graus é o ponto de partida. Se a xícara sair azeda e curta, suba para 94. Se sair amarga e seca na língua, desça para 90 ou afine menos a moagem.

A cor da torra também é a primeira instrução de preparo: quanto mais clara, mais calor e mais tempo o pó pede.

O passo 1 serve de exercício de olho. O pó recém-moído deste lote sai um pouco mais claro que a superfície do grão, porque o calor do torrador escurece a parte de fora antes da de dentro. A seção seguinte explica por que essa diferença interessa.

O filtro ondulado do Kalita encosta pouco na parede do coador, e a água desce pelo pó em vez de escapar pelas laterais. O corpo fica limpo, e a doçura de mel aparece logo no primeiro gole.

Kalita Wave, moedor e balança →
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III  O Detalhe

A diferença entre o grão inteiro e o pó

O protocolo de prova da SCA, o documento que padroniza como os provadores avaliam uma amostra, pede torra com leitura Agtron de 58 no grão inteiro e 63 no pó, com um ponto de tolerância para cada lado. Os números têm dono e têm motivo.

A leitura do grão inteiro mede a casca de fora, que recebe o calor primeiro. A leitura do pó mistura a parte de dentro, que torra depois. A distância entre as duas diz quanto o calor chegou ao centro do grão.

No protocolo, a folga é de cinco pontos. Uma diferença bem maior indica torra rápida demais: a superfície escureceu enquanto o miolo ficou para trás. Os torrefadores chamam o resultado de subdesenvolvido (grão que não teve tempo de torrar por inteiro), com gosto de grama, casca de pão cru e acidez agressiva.

Uma diferença muito pequena, com os dois números baixos, aponta o caminho oposto. O grão ficou tempo demais no calor, torrou por igual até o centro e perdeu a fruta pelo caminho. A xícara fica plana, com amargor de fumaça.

O número sozinho engana. Dois cafés lidos em 65 no pó podem ter saído de curvas de torra diferentes, um em nove minutos e outro em quinze, e chegar à xícara com gosto bem distinto. A Agtron mede cor, e a cor resume a torra sem contar o percurso.

Um número da escala Agtron é uma fotografia do fim da torra. O caminho até ele fica registrado no gosto, e só a prova de xícara lê o caminho inteiro.

A leitura em infravermelho existe porque o olho erra. Luz da sala, cor da parede e cansaço mudam a percepção de marrom, e dois provadores discordam da mesma amostra. O espectrofotômetro responde sempre igual, e os discos da SCAA foram pintados para reproduzir as leituras dele à luz comum.

Na nossa opinião: o disco de cor é o melhor instrumento barato que uma torrefação pequena pode comprar. Sem ele, a palavra média no rótulo diz pouco ao cliente; com ele, a torra ganha um número que qualquer um confere.

Teste hoje: moa uma dose do grão e espalhe o pó num papel branco, ao lado de meia dúzia de grãos inteiros. Se o pó sair só um pouco mais claro que a casca, a torra chegou ao centro. Se o contraste for grande, espere uma xícara mais ácida e com gosto de cereal.

"Na sua cozinha, o café que você mais gosta estaria num disco claro, médio ou escuro?"

 
 

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Em que ano a então SCAA lançou, em parceria com a Agtron, o estojo de oito discos coloridos da escala de cor da torra?

A1975
B1995
C1985
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Resultado da última edição: 2 de 2 acertaram.

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