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Notas do Café   Notas do Café
ED 110

Os três dias de Londres que derrubaram o preço do café

Em julho de 1989 o Acordo Internacional do Café perdeu as quotas de exportação e a cotação despencou, abrindo a década que quebrou o produtor.

Corrimão de madeira de um antigo pregão de bolsa de mercadorias em Londres ao entardecer, papéis de contrato espalhados pelo chão, uma saca de aniagem de café encostada numa coluna de latão e luz âmbar entrando por janelas altas sobre o assoalho empoeirado

O pregão que sobrou depois das quotas

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Em 2002, a Oxfam International publicou o relatório Mugged: Poverty in Your Coffee Cup e mediu o estrago de uma década sem quotas de exportação: a cotação internacional no menor patamar em trinta anos e o produtor recebendo perto de um terço do que recebia no fim dos anos 1980.

A conta começou numa sala em Londres. Em julho de 1989, o Conselho da Organização Internacional do Café reuniu países produtores e consumidores para renovar o regime de quotas do Acordo Internacional do Café, e a reunião terminou sem número fechado.

O sistema em discussão funcionava como uma torneira coletiva. Cada país exportador tinha um teto anual de sacas, e o conjunto dos tetos segurava a oferta mundial dentro de uma faixa de preço combinada entre quem vendia e quem comprava.

Quando o preço subia acima da faixa, a torneira abria e mais sacas entravam no mercado. Quando caía abaixo, a torneira fechava e o café ficava retido em armazém no país de origem, esperando cotação melhor.

A negociação de 1989 travou em dois pontos. Os países consumidores queriam mais café suave arábica na cesta e menos robusta, e alguns produtores exigiam fatia maior de quota do que a tabela em vigor entregava.

Sem acordo, as quotas foram suspensas e cada saca guardada em armazém virou saca livre para embarcar. O estoque represado saiu de uma vez, e o mercado recebeu num semestre o volume que a torneira coletiva vinha segurando havia anos.

O indicador composto publicado pela Organização Internacional do Café caiu de cerca de 107 centavos de dólar por libra-peso em junho de 1989 para perto de 70 centavos em dezembro do mesmo ano.

Na fazenda, a queda chegou como preço de venda que já não pagava a colheita. Na prateleira do supermercado americano e europeu, o café torrado não barateou na mesma proporção, e a diferença ficou com quem torra e distribui.

O grão de hoje vem de uma região que cresceu justamente dentro do mercado livre que sobrou daquela reunião, plantada em terra plana e colhida por máquina para sobreviver a preço baixo.

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I  O Grão do Dia

O Catuaí Amarelo de Patrocínio em cereja natural

O grão do dia é o Catuaí Amarelo de Patrocínio, no Cerrado Mineiro, Coffea arabica processado como cereja natural, cultivado entre 950 e 1.100 metros e vendido em pacote de 250g.

Patrocínio fica no Alto Paranaíba, oeste de Minas Gerais, num planalto de chapada plana onde a estação seca chega firme entre maio e agosto. Chuva concentrada no verão e seca previsível no inverno é a combinação que permite colher fruto maduro e secar no terreiro sem sobressalto.

O Catuaí Amarelo é um cruzamento nacional, obtido no Instituto Agronômico de Campinas a partir de Mundo Novo e Caturra Amarelo. Tem porte baixo, aguenta colheita mecânica sem quebrar galho e amadurece com o fruto num amarelo de manga madura, o que atrapalha a leitura visual do ponto de colheita.

O processo é o cereja natural, que significa secar o fruto inteiro, com casca e polpa, sem lavar nem descascar. A polpa fermenta de leve encostada na semente durante a secagem e empurra o café para açúcar concentrado, corpo pesado e nota de fruta passa.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Catuaí Amarelo de Patrocínio

Altitude de cultivo950 a 1.100 metros
Colheitapassada única com colheitadeira regulada para fruto maduro, com 79 por cento de cereja
Secagem6 dias em terreiro de concreto e 26 horas em secador rotativo a 42 graus
Umidade final do grão seco10,5 por cento
Perfil de torra13 minutos no total, com descarga 3 minutos depois do primeiro estalo
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 32 a R$ 44

A colheita mecânica é o traço do Cerrado, e nasceu da matemática do preço baixo. Chapada plana aceita máquina, máquina derruba o custo por saca, e custo baixo por saca foi o que manteve a região de pé quando a cotação internacional passou anos abaixo do custo de produção de muita lavoura de montanha.

Máquina bem regulada vibra a haste na frequência que solta o fruto maduro e deixa o verde no pé. Máquina mal regulada derruba tudo junto, e o verde que entra no terreiro vira adstringência no gole, aquele travo que fecha a boca no fim.

Três minutos de desenvolvimento sobre treze de tambor colocam este lote no ponto médio-escuro. A escolha acompanha o processo: café natural já chega doce, e alongar um pouco a torra transforma o açúcar da polpa em caramelo queimado em vez de deixar a bebida com gosto de fruta fermentada.

Natural de terreiro seco não precisa de acidez para se sustentar, ele se sustenta no açúcar que a polpa deixou grudado na semente.

Na xícara, o resultado é um café de corpo pesado, doçura de rapadura, acidez baixa de uva-passa e retrogosto longo de castanha. Notas de chocolate ao leite, castanha-do-pará e caramelo queimado. Faixa de preço do pacote de 250g: R$ 32 a R$ 44.

 
 

II  Como Preparar

Os quatro minutos da prensa francesa

O preparo deste grão é a prensa francesa: 30g de café em moagem grossa para 500ml de água a 93 graus, em infusão de 4 minutos antes de baixar o êmbolo.

A prensa é imersão total. O pó fica submerso do começo ao fim, sem filtro de papel para reter óleo, e a tela de metal deixa passar os lipídios que constroem a textura encorpada que este natural do Cerrado já traz de origem.

A temperatura fica em 93 graus por causa da torra médio-escura. Grão descarregado três minutos depois do estalo tem estrutura mais frágil e solta amargor rápido acima disso, e água fervente em cima de torra escura entrega cinza no lugar de caramelo.

A moagem grossa é obrigatória, não preferência. Pó fino atravessa a tela de metal, assenta no fundo da xícara e continua extraindo depois de servido, e o último terço do gole chega turvo e amargo mesmo com o tempo de infusão certo.

A ficha do preparo:

A ficha da prensa francesa deste lote

Receita30g de café para 500ml de água
Proporção1 para 16,6
Água93 graus, aferida com termômetro
Moagemgrossa, textura de sal grosso
Métodoprensa francesa de 600ml, pré-aquecida com água quente
Quebra da crostaaos 4 minutos, com colher
Tempo total4 minutos de infusão e 1 minuto de descanso

Aqueça a prensa com água quente e despeje fora antes de colocar o pó. Vidro frio rouba temperatura da infusão nos primeiros trinta segundos, e numa imersão longa a queda inicial custa doçura no copo inteiro.

Despeje toda a água de uma vez, em jato firme sobre o centro do pó, e não mexa. O jato único já molha a cama por completo, e mexer no começo derruba partícula fina para o fundo, onde ela extrai por quatro minutos sem circular.

Quatro minutos de imersão com sal grosso na moagem tiram a rapadura deste Catuaí sem o amargor que a torra médio-escura entrega quando a água passa de 93 graus.

Aos 4 minutos, quebre a crosta de pó flutuante com uma colher, dando três voltas lentas. A crosta é a camada que o gás carbônico empurra para cima, e quebrá-la faz o pó afundar, o que separa o borra do líquido antes de o êmbolo entrar.

Espere 1 minuto de descanso depois de quebrar a crosta e só então baixe o êmbolo, devagar, até encostar na superfície. Empurrar o êmbolo até o fundo comprime a borra e reinicia a extração na hora de servir.

Sirva toda a prensa de uma vez em jarra ou nas xícaras, sem deixar café parado sobre o pó. Café esquecido dentro da prensa continua em contato com a borra e fica áspero em cinco minutos, e é daí que vem a fama injusta de que prensa francesa entrega bebida amarga.

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III  O Detalhe

A torneira coletiva que fechou e não voltou

O regime de quotas do café não era invenção de cartel privado. Era tratado internacional, assinado por países produtores e consumidores, com sede administrativa em Londres e assento dos Estados Unidos na mesa durante boa parte de sua vigência.

O interesse do lado consumidor tinha nome e contexto: manter renda na América Latina em plena Guerra Fria valia mais, no cálculo de Washington, do que o café barato na gôndola. Quando o contexto geopolítico mudou no fim dos anos 1980, o incentivo para bancar o acordo evaporou.

O tratado sobreviveu enquanto café barato foi menos importante que estabilidade política, e caiu no momento em que essa conta se inverteu.

"O colapso do regime de quotas transferiu poder de mercado dos países produtores para as grandes torrefadoras dos países consumidores", escreveu John M. Talbot em Grounds for Agreement, de 2004.

John M. Talbot · Grounds for Agreement · 2004

A leitura de Talbot explica o que os números mostram depois de 1989. A parcela do preço final do café que ficava nos países de origem encolheu ao longo dos anos 1990, enquanto a parcela retida por torrefação, distribuição e varejo cresceu, mesmo com a cotação da matéria-prima em queda.

Vale desmontar o mito de que o fim das quotas foi bom para o consumidor. O preço da matéria-prima caiu pela metade, mas o pacote no supermercado não acompanhou, porque grão verde responde por uma fatia pequena do custo de um café torrado embalado e distribuído.

Na nossa opinião: a lição de 1989 é sobre quem guarda o estoque, não sobre quem planta. Enquanto a retenção era decidida em conjunto, o produtor tinha algum poder sobre o momento da venda; sem quota, cada país passou a vender na pressa, e vender na pressa é vender para quem tem caixa para esperar.

O rastro daquele julho ainda aparece na sua xícara. A resposta brasileira ao preço baixo foi produzir mais barato, o que empurrou a lavoura para a chapada plana, para a máquina e para a passada única, exatamente o caminho que produziu o Catuaí Amarelo de Patrocínio do pacote de hoje.

Teste amanhã de manhã: monte duas prensas com 15g e 250ml cada, uma com moagem de sal grosso e outra com a moagem que você usa hoje, ambas a 93 graus e 4 minutos. Prove as duas lado a lado e conte quantos goles cada uma aguenta antes de aparecer o travo amargo no fim da língua; a moagem grossa costuma aguentar a xícara inteira, a fina trava por volta do terceiro gole.

"Quantos goles a sua moagem atual aguentou antes do travo?"

 
 

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Entre junho e dezembro de 1989, de quanto para quanto caiu o indicador composto de preço do café publicado pela Organização Internacional do Café?

ADe 130 para 90 centavos de dólar por libra-peso
BDe 95 para 60 centavos de dólar por libra-peso
CDe 107 para 70 centavos de dólar por libra-peso
DDe 120 para 80 centavos de dólar por libra-peso

Resultado da última edição: 70% acertaram.

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