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As mudas de Caiena e o café que entrou no Brasil por Belém
Um sargento-mor volta da Guiana Francesa em 1727 com mudas proibidas, e o primeiro cafeeiro do país cresce num quintal de Belém do Pará.
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Muda de cafeeiro em quintal de Belém do Pará
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Em 1939, o historiador Affonso de Escragnolle Taunay publicou pelo Departamento Nacional do Café o primeiro tomo da História do Café no Brasil, e o marco inicial que ele cravou ali não fica em Minas Gerais nem em São Paulo: 1727, Belém do Pará, no extremo norte da colônia. Quem levou a planta para lá foi o sargento-mor Francisco de Melo Palheta, militar do Estado do Maranhão e Grão-Pará. Ele desceu o litoral até Caiena, capital da Guiana Francesa, numa missão oficial de arbitragem de limites entre as duas colônias na região do rio Oiapoque. A França guardava o cafeeiro como reserva de mercado. Sair com semente fértil ou muda viva das plantações de Caiena era proibido, e a fiscalização do porto existia justamente para impedir a saída do arbusto. Holandeses e franceses tinham levado décadas para adaptar a planta às colônias da América, e nenhum queria concorrente na fronteira. Palheta voltou com o material mesmo assim. As primeiras plantas foram ao chão num quintal de Belém, cidade de clima equatorial úmido, quente o ano inteiro e sem a noite fria que hoje se considera obrigatória para café de qualidade. Do Pará o arbusto desceu devagar. Passou pelo Maranhão, pela Bahia, chegou ao Rio de Janeiro na segunda metade do século 18 e só depois subiu o Vale do Paraíba rumo às serras. As lavouras mineiras que hoje dão nome ao café brasileiro entraram na história quase um século depois do quintal paraense. A versão romanceada da viagem virou folclore escolar: Madame d'Orvilliers, esposa do governador francês, teria escondido sementes num buquê de flores entregue ao brasileiro na despedida. Taunay já tratava a cena com reserva em 1939, e o texto de hoje separa o que tem documento do que tem apenas repetição. Começamos pelo grão que ainda cresce naquele mesmo rumo amazônico, com nome de cultivar, ficha de processo e preço de pacote. Continue lendo ↓
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I O Grão do Dia
O canéfora que ficou na Amazônia depois que o arábica desceu
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O grão do dia é um Robusta Amazônico BRS Ouro Preto, colhido em Rondônia, no mesmo rumo de floresta por onde Francisco de Melo Palheta trouxe as primeiras mudas de café para o território brasileiro em 1727.
Vale marcar a espécie logo de saída. Palheta trouxe Coffea arabica, o arábica, que acabou prosperando nas serras do Sudeste. O café que se firmou na Amazônia é Coffea canephora, o canéfora, espécie de grão menor, mais cafeína e muito mais tolerância ao calor, conhecida no mercado pelo nome comercial robusta.
BRS Ouro Preto é uma cultivar clonal, ou seja, propagada por estaca e não por semente, desenvolvida pela Embrapa Rondônia e lançada para os produtores da região. Clonal quer dizer que cada pé do talhão é geneticamente idêntico ao vizinho, o que uniformiza maturação e sabor dentro do lote.
A lavoura fica entre 200 e 600 metros de altitude, num estado que colhe canéfora em plena Amazônia ocidental. Os robustas amazônicos ganharam indicação geográfica reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI, em 2021, e passaram a poder carregar a origem no pacote.
A ficha do lote, em números:
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A ficha do Robusta Amazônico BRS Ouro Preto
| Altitude de cultivo | 200 a 600 metros |
| Espécie | Coffea canephora, o canéfora, cultivar clonal BRS Ouro Preto |
| Colheita | derriça seletiva no pano, em duas passadas |
| Processo | despolpado, com remoção da casca e secagem em terreiro suspenso |
| Perfil de torra | 11 minutos no total, com descarga 1 minuto e 30 depois do primeiro estalo |
| Cafeína | cerca do dobro da de um arábica de mesma torra |
| Faixa de preço do pacote de 250g | R$ 38 a R$ 52 |
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Despolpado quer dizer que a casca e boa parte da polpa saíram por máquina logo depois da colheita, e o grão secou com a mucilagem ainda grudada. O método corta o gosto de mato que o canéfora mal processado carrega e deixa o açúcar da fruta trabalhar a favor do doce.
A derriça seletiva no pano também muda o resultado. Em duas passadas, o produtor tira primeiro o que está maduro e volta depois para o resto, o que evita jogar verde dentro da mesma saca e reduz a adstringência que deu má fama à espécie.
O calor constante, que na serra seria defeito, aqui vira regra do jogo. O canéfora amadurece bem com noites mornas e chuva farta, e responde à sombra das árvores que sobram no sistema agroflorestal de boa parte dos sítios rondonienses.
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Robusta ruim existe aos montes, e robusta ruim é escolha de processo, não destino de espécie. Colhido maduro e despolpado, o canéfora amazônico entrega doçura que muito arábica barato não alcança.
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Na xícara, o resultado é um café de corpo alto, crema densa quando extraído sob pressão, acidez baixa e retrogosto longo de castanha. Notas de castanha-do-pará, chocolate meio amargo e melaço, no pacote de 250g entre R$ 38 e R$ 52.
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II Como Preparar
AeroPress invertida a 85 graus para domar a cafeína
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O preparo deste grão é a AeroPress no método invertido, moagem média-fina, água a 85 graus e proporção de 1 grama de café para 14 de água.
A temperatura baixa tem motivo químico. O canéfora traz cerca do dobro de cafeína do arábica, e a cafeína é amarga; água perto da fervura arranca a molécula com mais eficiência e entrega uma caneca agressiva. A 85 graus, o chocolate e o melaço saem na frente do amargor.
A ficha do preparo:
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A ficha da AeroPress invertida
| Café | 17g |
| Água | 240ml |
| Temperatura | 85 graus, aferida com termômetro |
| Moagem | média-fina, textura de sal grosso fino |
| Método | AeroPress invertida, papel único escaldado |
| Agitação | 10 segundos de mexida com a pá, aos 30 segundos |
| Tempo total | 1 minuto e 45 segundos até o fim da prensagem |
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| 1 Monte a AeroPress invertida, com o êmbolo embaixo e a câmara para cima. |
| 2 Escalde o papel no filtro à parte e despeje fora a água do escaldo. |
| 3 Pese 17g, moa na textura média-fina e despeje toda a água de uma vez até 240ml. |
| 4 Aos 30 segundos, mexa 10 segundos com a pá e rosqueie o filtro. |
| 5 Vire sobre a caneca ao 1 minuto e prense em 45 segundos, parando no assobio. |
A mexida de 10 segundos existe para afundar a crosta seca que o canéfora forma no topo. Grão de cafeína alta e casca densa boia mais que arábica, e pó boiando não extrai.
Parar no assobio importa tanto quanto o tempo. O ar que atravessa o leito no fim da prensagem puxa as partículas mais finas junto, e são elas que trazem o amargor de borra para dentro da caneca pronta.
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Prensar até o fim é o erro mais comum com robusta bom. Solte a pressão no primeiro chiado e guarde os últimos mililitros na câmara, que a doçura já desceu.
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O resultado esperado é uma bebida encorpada, quase de textura oleosa, que aguenta leite sem sumir.
Este lote também funciona na moka italiana, com a mesma moagem e fogo baixo. O que ele não aceita é extração longa em coador de pano com água fervente: a combinação de tempo alto e temperatura alta transforma a cafeína num amargor que nenhum açúcar consegue esconder.
Se a sua caneca sair adstringente mesmo a 85 graus, corte a agitação pela metade antes de mexer na moagem. Adstringência em canéfora despolpado costuma vir de excesso de contato entre pó fino e água, não de temperatura.
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