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Em Sumatra, o café perde a casca com 40% de água

No norte da Indonésia, o grão é descascado ainda molhado e seca nu ao sol: azulado, encorpado e com pouca acidez.

Grãos verde-azulados de café secando sobre lona em Sumatra

Grão verde-azulado secando ao sol em Sumatra

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Numa manhã de colheita em Takengon, nas terras altas de Gayo, na província de Aceh, um agricultor despeja na lona um saco de café ainda úmido ao toque. O grão perdeu a polpa na véspera, passou a noite de molho e secou só algumas horas ao sol. Por dentro do pergaminho (a película dura que envolve a semente), ainda guarda de 30% a 40% de água.

No Brasil, um café nesse estado ficaria semanas no terreiro antes de ir ao descascador. Em Sumatra ele segue no mesmo dia para a máquina, que arranca o pergaminho de uma semente mole, com textura de borracha. O nome local do método é giling basah (moagem molhada, em indonésio).

A pressa tem explicação no calendário. Nas montanhas do norte de Sumatra chove em quase todos os meses, e um terreiro aberto passa dias sem sol firme. Secar o café com casca até o fim levaria semanas, com risco de mofo a cada pancada de chuva.

Pesa também o bolso do agricultor. A maior parte das lavouras de Gayo e do lago Toba pertence a famílias com 1 ou 2 hectares, que vendem o café úmido a um coletor da vila e recebem o dinheiro na mesma semana. O coletor descasca, e o comprador seguinte termina a secagem.

Sem o pergaminho, a semente nua seca em poucos dias até ficar perto de 11% de umidade, o ponto de armazenagem. No caminho ela muda de cara: sai azulada, verde-escura, inchada nas pontas, longe do grão claro e liso de um café lavado da Colômbia.

Na xícara, a mudança aparece como corpo pesado, quase xaroposo, acidez baixa e um fundo de terra molhada, cedro e cacau amargo. Há quem ame e há quem estranhe. A secagem lenta e completa, com o grão protegido pela casca, não chega a esse perfil.

A primeira seção apresenta o grão de Gayo que carrega essas marcas e mostra o que procurar no pacote antes de comprar.

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I  O Grão do Dia

Um Gayo de Aceh com a casca molhada

A resposta de ontem

Que frase está na placa da porta do Café de l'Ambre?

A placa diz Coffee Only, ou seja, só café. Ichiro Sekiguchi definiu o Café de l'Ambre como casa de uma bebida só: no balcão de Ginza não há sanduíche nem refeição, e o cardápio lista apenas cafés coados na flanela, dos lotes do ano aos envelhecidos por décadas, além do Blanc et Noir.

O grão do dia é um café do planalto de Gayo, em Aceh, no extremo norte de Sumatra, na Indonésia, beneficiado em giling basah (o descascamento do grão ainda úmido) e torrado até o ponto médio escuro, quando o óleo começa a brilhar na superfície.

As lavouras ficam entre 1.200 e 1.600 metros, em volta do lago Laut Tawar, perto da cidade de Takengon. Quem planta são famílias do povo gayo, que cultivam café na região desde a época colonial holandesa.

No pé, as variedades mais comuns têm nomes locais. Ateng é a família do catimor (um cruzamento resistente à ferrugem das folhas). Tim Tim é o híbrido de Timor, vindo da ilha de mesmo nome. Abyssinia é um arábica antigo, trazido da Etiópia. Na saca, quase sempre chegam misturadas.

A mistura não atrapalha o perfil, porque o processo pesa mais que a variedade. Quem prova um Gayo e um Bourbon de Minas lado a lado percebe primeiro a textura: o de Sumatra encosta no céu da boca como leite integral, e o mineiro desce como suco.

A explicação mais aceita entre torradores está no caminho da semente. Descascada mole, ela perde a proteção cedo e seca exposta ao ar e ao sol. O grão incha, parte dos ácidos se perde antes da torra, e a torra encontra uma semente com menos acidez para mostrar e mais estrutura para dar peso.

A ficha do grão:

A ficha do Gayo

OrigemGayo, Aceh (Sumatra)
Altitude1.200 a 1.600 metros
Processogiling basah
VariedadesAteng, Tim Tim, Abyssinia
Torramédia escura
Notascacau, cedro, especiarias
Pacote de 250gR$ 60 a R$ 110

A casca que sai cedo leva junto boa parte da acidez; o corpo fica no grão.

Na prateleira, o nome Mandheling aparece mais que Gayo. Ele vem dos mandailing, povo do norte de Sumatra, e virou rótulo comercial para o café da região do lago Toba e de Lintong. Segue o mesmo método, com o perfil um pouco mais terroso.

Na compra, procure a data de torra e use o pacote entre 10 e 30 dias depois dela. Café de corpo pesado aguenta bem a terceira semana, e o aroma de cedro fica mais claro depois do descanso.

A moagem certa é grossa, parecida com açúcar cristal. O preparo do dia deixa o pó de molho na água por 4 minutos e pede um método que não tire o óleo da caneca.

 
 

II  Como Preparar

A prensa francesa guarda o óleo

O preparo do dia usa a prensa francesa (o jarro de vidro com êmbolo e tela de metal). A tela segura o pó, mas deixa passar o óleo e as partículas finas que o filtro de papel prenderia, e são eles que levam o corpo do Gayo até a boca.

A receita leva 18 gramas de café para 300 gramas de água, um grama de pó para cada 16,7 de água, e rende uma caneca de cerca de 270 gramas.

A temperatura desce um pouco em relação ao coado. Café de acidez baixa e torra média escura solta os sabores rápido; com água a 92 graus, o amargor do cacau fica no lugar e não vira gosto de queimado.

A ficha do preparo:

A ficha do preparo

Café18g, moagem grossa
Água300g, a 92 graus
Relação1g para 16,7g
Métodoprensa francesa
Tempo total4min
Bebidacerca de 270g

1  Aqueça a prensa vazia com água quente por 1 minuto e descarte essa água.

2  Coloque os 18g de pó no jarro e zere a balança.

3  Despeje os 300g de água a 92 graus de uma vez, molhando todo o pó.

4  Mexa 3 vezes com uma colher, tampe sem baixar o êmbolo e conte 4 minutos.

5  Quebre a crosta da superfície com a colher e retire a espuma com a borra que boia.

6  Desça o êmbolo devagar, até encostar no café, sem forçar o fundo.

7  Sirva tudo de uma vez, sem deixar café parado na prensa.

O passo 5 vem do ofício da prova: a crosta é a camada de pó que sobe e flutua, e a retirada leva junto boa parte das partículas finas que deixariam a caneca turva.

O passo 7 importa porque a prensa não para de extrair. O café que fica no jarro continua em contato com o pó do fundo e endurece em poucos minutos.

Na prensa, a tela de metal deixa passar o óleo que o papel seguraria.

Se a caneca sair rala, moa um ponto mais fino ou suba para 20 gramas de pó. Se sair amarga e áspera, a moagem está fina demais e o pó atravessa a tela.

Quem prefere coar pode usar o coador de papel com 15 gramas para 250 de água, mas o corpo fica bem mais leve. O Gayo rende o melhor dele na tela de metal.

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III  O Detalhe

O azul do grão nu

O sinal mais fácil de reconhecer num café de giling basah é a cor do grão cru. Um café lavado da América Central sai do beneficiamento verde-claro ou cinza-esverdeado; o de Sumatra sai verde-azulado, às vezes cor de jade escuro, com a superfície brilhante.

A cor nasce da secagem sem proteção. Com o pergaminho arrancado a 30% ou 40% de umidade, a semente perde água direto pela pele fina, em poucos dias de sol, e o tecido escurece no processo. Ninguém explicou até hoje a química do tom azulado; o que se sabe é que ele aparece sempre nesse método e some nos outros.

A semente mole também deforma. Na descascadora, a pressão amassa as pontas, e parte dos grãos racha no meio, num defeito que os compradores indonésios chamam de kuku kambing (casco de cabra), pela forma da fenda.

Os lotes de exportação passam por catação à mão nos armazéns de Medan, a maior cidade da ilha. Equipes separam os grãos rachados, pretos e quebrados antes do embarque, e o preço do lote acompanha a quantidade de defeito que sobrou.

O tom azul do grão cru é a assinatura de uma secagem feita sem casca.

O nome Mandheling carrega uma história de origem que circula entre importadores: um soldado japonês, na ocupação da Indonésia durante a Segunda Guerra, teria perguntado de onde vinha o café e ouvido o nome do povo, não o do lugar. Nenhum documento comprova o episódio, e ninguém sabe quem foi o soldado; o relato sobrevive como lenda de balcão.

Na nossa opinião, o giling basah é um caso raro em que a resposta à chuva e à pressa criou um sabor procurado no mundo inteiro. Torradores que montam blends de espresso usam o grão de Sumatra para engrossar a mistura, e o perfil virou sinônimo de café encorpado.

Teste hoje: faça 2 prensas lado a lado, com a mesma receita de 18g para 300g, uma com o Gayo e outra com um café natural do Cerrado Mineiro. Prove as 2 depois de 5 minutos, segurando cada gole 3 segundos na boca. O Gayo deve deixar uma película oleosa e quase nenhuma pontada nas laterais da língua; o mineiro, menos peso e mais acidez nas bordas.

“Na sua xícara, você prefere corpo pesado ou acidez viva?”

 
 
Quiz da edição

No giling basah de Sumatra, qual faixa de umidade o grão ainda guarda dentro do pergaminho no momento em que vai para a máquina descascadora?

A10% a 20%
B20% a 30%
C30% a 40%
D50% a 60%

Resultado da última edição: 56% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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