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A terra roxa que fez Ribeirão Preto capital do café
No oeste paulista, o basalto decomposto virou o solo mais fértil do país e puxou a lavoura do Vale do Paraíba gasto para a Alta Mogiana.
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O basalto decomposto que virou lavoura
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Há uns 130 milhões de anos, muito antes de existir qualquer cafeeiro no planeta, a América do Sul e a África começaram a se separar e o continente rachou. Pela fenda subiu lava basáltica em derrames sucessivos, um sobre o outro, empilhando camadas de rocha escura sobre boa parte do que hoje é o interior de São Paulo, o norte do Paraná e o oeste de Minas.
O basalto é uma rocha densa, pobre em quartzo e cheia de minerais escuros: piroxênio, plagioclásio, magnetita. Nenhum deles resiste bem a milhões de anos de chuva tropical. A água quente e ácida do clima úmido dissolve a estrutura mineral, arrasta a sílica para baixo e deixa para trás argila fina, ferro e alumínio.
O ferro liberado oxida no contato com o ar e pinta o solo de vermelho tijolo. É esse resíduo, profundo, poroso e argiloso, que o lavrador paulista batizou de terra roxa. O nome não tem nada de cor arroxeada. Vem de rossa, o vermelho em italiano, trazido pelos colonos que chegaram para trabalhar nas fazendas no fim do século 19 e chamavam a terra pelo que enxergavam.
A camada tem profundidade rara. Em muitos pontos do planalto passa de dois metros até chegar na rocha, e essa espessura é o ativo escondido: raiz de cafeeiro desce fundo, o perfil segura água na seca sem encharcar na chuva e a matéria orgânica se acumula em vez de escorrer. Um solo arenoso raso oferece o oposto, e a diferença aparece na saca por hectare.
Quando a lavoura do Vale do Paraíba começou a dar sinais de cansaço, o café precisava de terra nova. Ele encontrou a melhor do país esperando ali, a oeste, num planalto que ninguém tinha arado. O que veio depois transformou uma cidade sem importância na maior praça cafeeira que o mundo já teve.
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I O Grão do Dia
O Mundo Novo que a lava deixou pronto
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O grão do dia é o Mundo Novo da Alta Mogiana, Coffea arabica de processo natural cultivado entre 900 e 1.100 metros em latossolo vermelho de basalto, nas terras altas entre Ribeirão Preto e Altinópolis, colhido em derriça seletiva e vendido em pacote de 250g.
O Mundo Novo é uma variedade brasileira de origem acidental. Ele apareceu por volta de 1943 num cruzamento natural entre o Sumatra, do grupo Typica, e o Bourbon Vermelho, numa lavoura do município que deu nome à planta, hoje Urupês, no interior paulista.
O que o Instituto Agronômico de Campinas selecionou dali foi vigor bruto. A planta é alta, cresce rápido, aguenta solo mais duro que o Bourbon puro e produz de 20 a 30 por cento mais por pé que os cultivares antigos. Por décadas ela foi o cavalo de trabalho da lavoura brasileira.
A altitude da Alta Mogiana muda o desenho da xícara. Acima dos 900 metros a noite esfria, o fruto amadurece mais devagar e a planta acumula açúcar em vez de queimar em respiração. Sai um grão mais denso, com doçura mais concentrada que a mesma variedade plantada a 600 metros.
O processo natural fecha a conta da doçura. O fruto inteiro vai para o terreiro suspenso com a casca e a mucilagem, seca em cima do próprio açúcar por 15 a 20 dias, e a fermentação lenta empurra para dentro do grão o corpo e a nota de fruta seca que o processo lavado não entrega.
O solo não some da xícara. O potássio e o cálcio disponíveis no latossolo de basalto sustentam o enchimento do fruto até o fim, e a acidez desse café sai baixa e redonda em vez de cítrica, com peso na boca em vez de brilho na ponta da língua.
A ficha do lote, em números:
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A ficha do Mundo Novo da Alta Mogiana
| Altitude de cultivo | 900 a 1.100 metros |
| Profundidade média do solo até a rocha | acima de 2 metros |
| Umidade final do grão seco | 11 por cento |
| Ponto de torra | médio claro |
| Secagem em terreiro suspenso | 15 a 20 dias |
| Faixa de preço do pacote de 250g | R$ 34 a R$ 58 |
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A colheita é em derriça seletiva, com a lavoura passada em duas ou três levas para tirar o cereja maduro e deixar o verde na planta mais um tempo. A uniformidade de maturação é o que separa o lote de fazenda do café de armazém.
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A lava não fez o café, fez a terra de dois metros onde a raiz pôde descer.
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O ponto de torra é médio claro, o suficiente para caramelizar o açúcar sem levar o grão para a segunda crepitação. Torra escura demais apaga a rapadura e joga amargor de carvão por cima de um café que foi construído inteiro em cima da doçura.
Na xícara, o resultado é um café de corpo médio cheio, doçura de rapadura, acidez baixa e redonda, com um retrogosto de castanha que segura por bastante tempo. Notas de amendoim torrado, chocolate ao leite e cana. Faixa de preço do pacote de 250g: R$ 34 a R$ 58.
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II Como Preparar
Os 92 graus que puxam a rapadura do natural
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O preparo deste grão é V60: 15g de café moído em granulometria média para 250ml de água a 92 graus, num tempo total entre 2min45 e 3min15 do primeiro fio ao último gole que desce.
A escolha do método vem do que o grão precisa mostrar. O natural da Alta Mogiana tem doçura pesada e acidez baixa, e uma prensa francesa devolveria isso tudo empastado, com o corpo cobrindo o açúcar. O papel do V60 retém óleo e sólido fino e deixa a rapadura aparecer limpa.
A temperatura é o ajuste fino. Água a 96 graus arranca junto o amargor da torra e o amendoim vira casca queimada, e água a 88 graus subextrai o grão denso de altitude e a xícara sai aguada com azedume de fundo. Os 92 graus ficam no meio, onde o açúcar sai inteiro antes do amargor começar.
Chegar aos 92 sem termômetro é simples. Ferva, desligue e espere 30 segundos com a chaleira aberta, que a queda é próxima de 4 graus nesse intervalo numa cozinha de temperatura normal.
A régua do preparo:
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A régua do natural no V60
| Receita | 15g de café para 250ml de água |
| Proporção | 1 para 16,6 |
| Água | 92 graus, filtrada |
| Moagem | média, textura de açúcar cristal |
| Branqueio do filtro | 100ml de água quente, descartar |
| Pré-infusão | 45ml por 40 segundos |
| Tempo total | 2min45 a 3min15 |
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Branqueie o filtro antes de tudo, com o coador já montado sobre a jarra, e jogue fora a água que passou. O papel seco carrega gosto de celulose e ele aparece na xícara com um café de acidez baixa, que não tem brilho suficiente para esconder o defeito.
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Água a 96 graus queima o amendoim, água a 88 deixa a xícara aguada.
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Comece pela pré-infusão. Molhe o pó com 45ml de água, o triplo do peso do café, e espere 40 segundos. O natural libera bastante gás carbônico da torra e a espera dá tempo do leito assentar antes do despejo grande chegar por cima.
Despeje o restante em três levas iguais, em espiral do centro para fora, sem encostar o fio de água na parede do filtro. Água que corre pela lateral atravessa o papel sem passar pelo pó, e cada leva que escapa assim é uma parte da xícara que sai sem café dentro.
Sirva por volta de 65 graus. É nessa faixa que a rapadura se separa do chocolate ao leite, e acima dela o calor achata os dois numa doçura genérica de café quente qualquer.
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