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A broca fura o grão, e uma vespa entra atrás dela
Em Garça, um Mundo Novo chega ao coador com furos contados na amostra e uma vespa africana trabalhando dentro da lavoura.
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O furo da broca na coroa da cereja
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E m 1929, o Instituto Biológico de São Paulo soltou nos cafezais paulistas uma vespa preta de 2 milímetros trazida de Uganda, a Prorops nasuta. Ela entra pelo furo que a broca-do-café abriu na cereja e caça a larva do besouro lá dentro, no escuro.
A broca chegou ao Brasil por volta de 1913, provavelmente em sacaria ou muda vinda da África, e se instalou primeiro nas lavouras paulistas. O nome científico dela é Hypothenemus hampei, um besouro escuro do tamanho de uma cabeça de alfinete.
A fêmea perfura a cereja pela coroa, o pontinho oposto ao cabinho, escava uma galeria até a semente e põe os ovos ali dentro. As larvas comem o endosperma, a parte da semente que vira o grão que você mói na cozinha.
Quando o produtor colhe, o estrago já está fechado por dentro. Por fora a cereja parece madura e sadia, com um furo escuro de menos de um milímetro na ponta que passa despercebido a olho nu numa lavoura inteira.
A resposta montada em 1929 foi biológica. O Instituto Biológico buscou o inimigo natural do besouro no continente de origem da praga, no lugar de aumentar a dose de veneno numa lavoura que já era a maior do mundo.
Prorops nasuta não caça no ar nem na folha. Ela anda pela superfície da cereja, encontra o furo, entra pelo túnel aberto pelo próprio besouro e trabalha num espaço escuro do tamanho de um grão de arroz.
Nada dessa guerra aparece no pacote torrado. Aparece na xícara: grão furado fermenta por dentro antes da secagem terminar, e o gole entrega um travo de mofo que chega na frente da doçura.
O grão de hoje sai de uma lavoura do oeste paulista que aprendeu a conviver com o besouro sem nunca zerar a praga, e que entrega uma xícara limpa mesmo com furos contados na amostra.
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I O Grão do Dia
O Mundo Novo de Garça que convive com o besouro
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O grão do dia é o Mundo Novo IAC 379-19 de Garça, Coffea arabica de processo natural cultivado entre 620 e 720 metros na Alta Paulista, colhido por derriça com repasse e vendido em pacote de 250g.
O Mundo Novo é um híbrido natural entre Bourbon Vermelho e Sumatra, encontrado na região de Urupês, no interior paulista, nos anos 1940, e depois selecionado pelo Instituto Agronômico de Campinas. Planta alta, rústica, de produção generosa, foi o cultivar que sustentou a expansão cafeeira brasileira do pós-guerra.
Garça fica na faixa de transição entre o planalto paulista e o vale do Paranapanema. A altitude ali é modesta para o padrão do café fino, o calor acelera a maturação, e o mesmo calor faz a broca completar mais gerações por safra do que completaria numa lavoura mineira de 1.100 metros.
O processo é natural em terreiro de concreto, com a cereja inteira secando ao sol por 14 a 20 dias, revolvida quatro vezes ao dia. A secagem rápida é uma escolha defensiva: cereja que passa muito tempo úmida com um furo aberto na coroa vira fermentação descontrolada e grão preto.
A ficha do lote, em números:
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A ficha do Mundo Novo de Garça
| Altitude de cultivo | 620 a 720 metros |
| Grãos brocados em 300g de café cru | 6 |
| Cerejas caídas recolhidas no repasse | prática obrigatória da fazenda |
| Umidade final do grão seco | 11,5 por cento |
| Ponto de torra | médio, logo depois da primeira crepitação |
| Faixa de preço do pacote de 250g | R$ 26 a R$ 34 |
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Seis grãos brocados numa amostra de 300 gramas é um número baixo para uma lavoura de altitude modesta em ano quente. A conquista não vem de veneno caro, vem da colheita: a fazenda passa duas vezes no talhão e recolhe do chão a cereja que sobrou, porque é dentro dela que a broca atravessa a entressafra.
O besouro não voa longe. A fêmea sai de um grão remanescente, cruza poucos metros e ataca a cereja mais próxima em ponto de maturação. Talhão limpo depois da colheita corta o estoque de praga da safra seguinte antes que a primeira flor abra.
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Cada cereja esquecida no chão depois da colheita é uma incubadora de broca para a safra que vem.
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Na torra, o grão brocado escurece junto com os outros e o furo some. O torrador experiente pega o defeito na fase verde, com o grão cru espalhado na luz, e por isso lote que declara a contagem de brocado na etiqueta está mostrando trabalho feito antes do fogo.
Na xícara, o resultado é um café de corpo médio para encorpado, doçura de caramelo, acidez baixa e retrogosto longo e limpo. Notas de chocolate meio amargo, castanha e caramelo. Faixa de preço do pacote de 250g: R$ 26 a R$ 34.
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II Como Preparar
Os 92 graus que abafam o travo do grão furado
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O preparo deste grão é o coador cônico de papel: 22g de café em moagem média para 330ml de água a 92 graus, extraídos em cerca de 2 minutos e 45 segundos.
O papel manda bem aqui pelo mesmo motivo que o repasse na lavoura manda: ele barra o que sobrou. As partículas finas e boa parte dos óleos ficam retidos no filtro, e com eles fica o traço fenólico que os poucos grãos furados carregam para dentro do pó.
A temperatura sobe dois graus em relação ao que se usa num lote de defeito alto, e a razão é a torra média. Grão torrado mais claro solubiliza mais devagar, e água morna demais devolve um café aguado, sem doçura de caramelo e com a acidez da castanha exposta.
A moagem média, textura de areia grossa de praia, mantém a extração previsível nos primeiros dois minutos. Partícula grande demais deixa passar água limpa pelo canal e entrega bebida rala; partícula fina demais alonga o coado e puxa o amargor de fim de extração.
A ficha do preparo:
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A ficha do coado deste lote
| Receita | 22g de café para 330ml de água |
| Proporção | 1 para 15 |
| Água | 92 graus, aferida com termômetro |
| Moagem | média, textura de areia grossa |
| Método | coador cônico de papel, filtro escaldado |
| Pré-infusão | 45ml por 35 segundos |
| Tempo total | 2 minutos e 45 segundos |
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Escalde o filtro e jogue fora a água do bule antes de colocar o pó. Papel seco absorve os primeiros mililitros da extração e devolve gosto de papelão, que num café de torra média se instala por cima da nota de chocolate.
Faça a pré-infusão com 45ml e espere 35 segundos. A torra média retém mais gás carbônico do que a escura, a cama de pó incha visivelmente nessa etapa, e a água que vem depois passa por igual, sem abrir um canal na lateral do coador.
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A 92 graus a torra média entrega o caramelo inteiro, e o coado fecha antes do amargor de fim de extração aparecer.
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Despeje o resto em três círculos lentos, do centro para fora, sem molhar a borda do papel. Água que escorre pela parede do filtro chega ao bule sem atravessar o pó, e a xícara sai desequilibrada mesmo com a pesagem certa.
Se o coado passar de 3 minutos e 15 segundos, engrosse um pouco a moagem na próxima rodada. Tempo longo com pó fino é o cenário em que o traço do grão brocado aparece: primeiro como um travo de terra molhada no fundo do gole, depois como um amargor seco que fica na boca.
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