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ED 106

A broca fura o grão, e uma vespa entra atrás dela

Em Garça, um Mundo Novo chega ao coador com furos contados na amostra e uma vespa africana trabalhando dentro da lavoura.

Cerejas de café maduras sobre bancada de madeira em vista aproximada, uma delas virada mostrando um furo escuro minúsculo na coroa, alguns grãos crus abertos ao lado revelando uma galeria interna, uma pinça de aço e uma lupa apoiadas na madeira, um coador cônico de papel e uma caneca de cerâmica desfocados ao fundo e um saco de aniagem dobrado na borda

O furo da broca na coroa da cereja

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E m 1929, o Instituto Biológico de São Paulo soltou nos cafezais paulistas uma vespa preta de 2 milímetros trazida de Uganda, a Prorops nasuta. Ela entra pelo furo que a broca-do-café abriu na cereja e caça a larva do besouro lá dentro, no escuro.

A broca chegou ao Brasil por volta de 1913, provavelmente em sacaria ou muda vinda da África, e se instalou primeiro nas lavouras paulistas. O nome científico dela é Hypothenemus hampei, um besouro escuro do tamanho de uma cabeça de alfinete.

A fêmea perfura a cereja pela coroa, o pontinho oposto ao cabinho, escava uma galeria até a semente e põe os ovos ali dentro. As larvas comem o endosperma, a parte da semente que vira o grão que você mói na cozinha.

Quando o produtor colhe, o estrago já está fechado por dentro. Por fora a cereja parece madura e sadia, com um furo escuro de menos de um milímetro na ponta que passa despercebido a olho nu numa lavoura inteira.

A resposta montada em 1929 foi biológica. O Instituto Biológico buscou o inimigo natural do besouro no continente de origem da praga, no lugar de aumentar a dose de veneno numa lavoura que já era a maior do mundo.

Prorops nasuta não caça no ar nem na folha. Ela anda pela superfície da cereja, encontra o furo, entra pelo túnel aberto pelo próprio besouro e trabalha num espaço escuro do tamanho de um grão de arroz.

Nada dessa guerra aparece no pacote torrado. Aparece na xícara: grão furado fermenta por dentro antes da secagem terminar, e o gole entrega um travo de mofo que chega na frente da doçura.

O grão de hoje sai de uma lavoura do oeste paulista que aprendeu a conviver com o besouro sem nunca zerar a praga, e que entrega uma xícara limpa mesmo com furos contados na amostra.

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I  O Grão do Dia

O Mundo Novo de Garça que convive com o besouro

O grão do dia é o Mundo Novo IAC 379-19 de Garça, Coffea arabica de processo natural cultivado entre 620 e 720 metros na Alta Paulista, colhido por derriça com repasse e vendido em pacote de 250g.

O Mundo Novo é um híbrido natural entre Bourbon Vermelho e Sumatra, encontrado na região de Urupês, no interior paulista, nos anos 1940, e depois selecionado pelo Instituto Agronômico de Campinas. Planta alta, rústica, de produção generosa, foi o cultivar que sustentou a expansão cafeeira brasileira do pós-guerra.

Garça fica na faixa de transição entre o planalto paulista e o vale do Paranapanema. A altitude ali é modesta para o padrão do café fino, o calor acelera a maturação, e o mesmo calor faz a broca completar mais gerações por safra do que completaria numa lavoura mineira de 1.100 metros.

O processo é natural em terreiro de concreto, com a cereja inteira secando ao sol por 14 a 20 dias, revolvida quatro vezes ao dia. A secagem rápida é uma escolha defensiva: cereja que passa muito tempo úmida com um furo aberto na coroa vira fermentação descontrolada e grão preto.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Mundo Novo de Garça

Altitude de cultivo620 a 720 metros
Grãos brocados em 300g de café cru6
Cerejas caídas recolhidas no repasseprática obrigatória da fazenda
Umidade final do grão seco11,5 por cento
Ponto de torramédio, logo depois da primeira crepitação
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 26 a R$ 34

Seis grãos brocados numa amostra de 300 gramas é um número baixo para uma lavoura de altitude modesta em ano quente. A conquista não vem de veneno caro, vem da colheita: a fazenda passa duas vezes no talhão e recolhe do chão a cereja que sobrou, porque é dentro dela que a broca atravessa a entressafra.

O besouro não voa longe. A fêmea sai de um grão remanescente, cruza poucos metros e ataca a cereja mais próxima em ponto de maturação. Talhão limpo depois da colheita corta o estoque de praga da safra seguinte antes que a primeira flor abra.

Cada cereja esquecida no chão depois da colheita é uma incubadora de broca para a safra que vem.

Na torra, o grão brocado escurece junto com os outros e o furo some. O torrador experiente pega o defeito na fase verde, com o grão cru espalhado na luz, e por isso lote que declara a contagem de brocado na etiqueta está mostrando trabalho feito antes do fogo.

Na xícara, o resultado é um café de corpo médio para encorpado, doçura de caramelo, acidez baixa e retrogosto longo e limpo. Notas de chocolate meio amargo, castanha e caramelo. Faixa de preço do pacote de 250g: R$ 26 a R$ 34.

 
 

II  Como Preparar

Os 92 graus que abafam o travo do grão furado

O preparo deste grão é o coador cônico de papel: 22g de café em moagem média para 330ml de água a 92 graus, extraídos em cerca de 2 minutos e 45 segundos.

O papel manda bem aqui pelo mesmo motivo que o repasse na lavoura manda: ele barra o que sobrou. As partículas finas e boa parte dos óleos ficam retidos no filtro, e com eles fica o traço fenólico que os poucos grãos furados carregam para dentro do pó.

A temperatura sobe dois graus em relação ao que se usa num lote de defeito alto, e a razão é a torra média. Grão torrado mais claro solubiliza mais devagar, e água morna demais devolve um café aguado, sem doçura de caramelo e com a acidez da castanha exposta.

A moagem média, textura de areia grossa de praia, mantém a extração previsível nos primeiros dois minutos. Partícula grande demais deixa passar água limpa pelo canal e entrega bebida rala; partícula fina demais alonga o coado e puxa o amargor de fim de extração.

A ficha do preparo:

A ficha do coado deste lote

Receita22g de café para 330ml de água
Proporção1 para 15
Água92 graus, aferida com termômetro
Moagemmédia, textura de areia grossa
Métodocoador cônico de papel, filtro escaldado
Pré-infusão45ml por 35 segundos
Tempo total2 minutos e 45 segundos

Escalde o filtro e jogue fora a água do bule antes de colocar o pó. Papel seco absorve os primeiros mililitros da extração e devolve gosto de papelão, que num café de torra média se instala por cima da nota de chocolate.

Faça a pré-infusão com 45ml e espere 35 segundos. A torra média retém mais gás carbônico do que a escura, a cama de pó incha visivelmente nessa etapa, e a água que vem depois passa por igual, sem abrir um canal na lateral do coador.

A 92 graus a torra média entrega o caramelo inteiro, e o coado fecha antes do amargor de fim de extração aparecer.

Despeje o resto em três círculos lentos, do centro para fora, sem molhar a borda do papel. Água que escorre pela parede do filtro chega ao bule sem atravessar o pó, e a xícara sai desequilibrada mesmo com a pesagem certa.

Se o coado passar de 3 minutos e 15 segundos, engrosse um pouco a moagem na próxima rodada. Tempo longo com pó fino é o cenário em que o traço do grão brocado aparece: primeiro como um travo de terra molhada no fundo do gole, depois como um amargor seco que fica na boca.

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III  O Detalhe

Por que a vespa de Uganda nunca acabou com a praga

A introdução de 1929 funcionou dentro do limite dela. Prorops nasuta se estabeleceu em cafezais brasileiros, se reproduz sozinha desde então e faz uma pressão constante sobre a broca sem custo recorrente para o produtor.

O limite é aritmético. A vespa põe poucos ovos por vez e leva semanas para completar o ciclo, enquanto uma fêmea de broca produz dezenas de descendentes dentro de um único grão e recomeça na cereja vizinha em poucos dias.

Some a chuva. Cada temporal derruba cereja madura no chão, e a cereja caída fica fora do alcance de uma vespa que caminha pela superfície e enxerga pouco, mas segue perfeitamente disponível para a broca que já vive dentro dela.

Controle biológico segura a curva da praga, e a vassoura do repasse é quem tira o estoque dela do talhão.

"O manejo da broca-do-café depende mais da sanidade da colheita do que de qualquer inimigo natural isolado", escreveram Mike Waller, Mike Bigger e Rory Hillocks em Coffee Pests, Diseases and Their Management, de 2007.

Mike Waller, Mike Bigger e Rory Hillocks · Coffee Pests, Diseases and Their Management · 2007

A frase explica por que o Brasil nunca aposentou a vespa nem apostou tudo nela. O trabalho pesado é do calendário da fazenda: colher no ponto, repassar o talhão, recolher a cereja do chão e secar rápido.

Existe um mito de balcão que vale desmontar. Muita gente ouve controle biológico e imagina praga erradicada, quando a vespa apenas mantém a população do besouro abaixo do nível que estraga o lote. A broca segue presente em praticamente todo cafezal brasileiro, e o que separa um lote limpo de um lote sujo é o zelo de quem colhe.

Na nossa opinião: trate a contagem de brocado como sinal de rotina de fazenda, nunca como sinal de altitude ou de varietal. Lavoura baixa e quente com repasse feito entrega grão mais limpo que lavoura alta e famosa que deixou cereja apodrecendo entre as ruas.

Vale usar a pista prática na hora de comprar. Rótulo que informa a data da colheita e o tipo de secagem está declarando calendário, e calendário declarado é o que separa quem colheu no ponto de quem colheu quando deu.

Teste amanhã de manhã, com o café que já está na sua casa: separe 50 grãos numa folha branca, gire cada um contra a luz da janela e procure na ponta arredondada um furo do tamanho de uma picada de agulha. Conte quantos aparecem. Até 3 furos em 50 grãos, você tem um lote de colheita cuidadosa; acima de 6, o travo de terra molhada no fim do gole já tem endereço.

"Quantos furos de agulha você achou nos seus 50 grãos?"

 
 
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