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ED 125

Esta pauta venceu a urna de 20/09.

Os 80 pontos que fazem um café virar especial

A prova de xícara da SCA dá nota de 0 a 100, e o exame de Q Grader, criado em 2004, calibra quem segura a colher.

Mesa de prova com tigelas de vidro em fila, crosta de café na superfície e uma colher funda apoiada

Quinze tigelas e a crosta antes da quebra

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Uma mesa comprida, quinze tigelas de vidro em fila, e cada uma recebe exatos 8,25 gramas de café moído grosso. A água entra a 93 graus, 150 mililitros por tigela, e ninguém toca em nada por quatro minutos. Então uma colher funda quebra a crosta de pó que subiu à superfície, o provador encosta o nariz rente ao vidro e inspira.

A cena se repete em armazém de Santos, em cooperativa do sul de Minas e em importadora de Hamburgo, com roteiro idêntico, porque segue o protocolo de prova de xícara da Specialty Coffee Association, a SCA, entidade que reúne torrefadores, importadores e produtores. Em cada tigela, o provador dá nota a dez atributos numa folha de 100 pontos.

A nota que decide o destino do lote é 80. Da linha para cima, a SCA chama o café de especial, e o saco de grão verde muda de mercado: sai da cotação da bolsa de Nova York, onde se paga por quilo de mercadoria, e passa a ser negociado por lote, com prêmio acima da bolsa. Um ponto abaixo, aquele grão volta a ser commodity (mercadoria vendida pela cotação da bolsa).

Uma nota só vale se quem a dá for confiável. Por isso, em 2004, o Coffee Quality Institute, instituto de certificação criado pela associação americana de cafés especiais, lançou o exame de Q Grader (provador licenciado para assinar a nota), uma bateria de testes de nariz, língua e olho que dura quase uma semana.

A linha dos 80 também chega à sua cozinha. Lote pontuado acima dela costuma trazer a nota impressa no rótulo, e a nota diz bastante sobre a xícara, desde que se saiba ler a folha que a produziu. Começamos pelo lote de hoje, com a ficha da prova ao lado da ficha da lavoura.

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I  O Grão do Dia

Um Catuaí do Cerrado que passou na mesa com 86

O grão do dia é um Catuaí Amarelo do Cerrado Mineiro, colhido em Patrocínio e pontuado em 86 na prova de xícara pelo protocolo da SCA. Lote de produtor familiar, processado como cereja descascado.

O Cerrado Mineiro é chapada: terreno plano, entre 900 e 1.250 metros, com estação seca bem marcada na época da colheita. A seca firme deixa a cereja amadurecer por igual e facilita a colheita mecanizada, que domina a região. Este lote cresce a 1.100 metros.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Catuaí Amarelo de Patrocínio

VariedadeCatuaí Amarelo, porte baixo, cereja amarela quando madura
OrigemPatrocínio, Cerrado Mineiro, Minas Gerais
Altitude de cultivo1.100 metros, em chapada de solo vermelho
Colheitamecanizada seletiva, com repasse manual
Processocereja descascado, 12 dias em terreiro de cimento
Nota na prova da SCA86 pontos
Perfil de torramédia, 10 minutos, descarga 90 segundos depois do primeiro estalo
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 45 a R$ 65

Cereja descascado (processo em que a casca sai numa máquina e a mucilagem, a camada doce e pegajosa sob a casca, seca grudada no grão) fica no meio do caminho entre o natural e o lavado. Guarda parte da doçura da fruta e tira da xícara o risco de fermentação descontrolada.

O Catuaí saiu do Instituto Agronômico de Campinas, do cruzamento entre Mundo Novo e Caturra, e chegou às lavouras nos anos 1970. Ocupa boa parte do parque cafeeiro brasileiro e por isso aparece com frequência no café comum. Com ele, os pontos acima de 80 vêm da colheita madura e da secagem cuidadosa.

Os 86 se distribuem pela folha da SCA. Seis atributos recebem nota de 6 a 10, em frações de 0,25: fragrância e aroma, sabor, retrogosto (o gosto que fica depois de engolir), acidez, corpo e equilíbrio. Um sétimo, a impressão geral, segue a mesma escala e traz o julgamento pessoal do provador.

Três atributos contam tigela por tigela. Uniformidade, xícara limpa e doçura valem 2 pontos por tigela aprovada, em cinco tigelas, o que soma 30 pontos quando o lote não falha em nenhuma. Defeito percebido desconta: 2 pontos por tigela com gosto estranho leve, 4 por tigela com gosto que estraga a bebida.

Para chegar a 80, o lote precisa de média pouco acima de 7 nos sete atributos de escala e das três contagens de tigela cheias. Um gosto de fermentado numa única tigela já custa pontos que o resto da folha raramente devolve.

Neste lote, a acidez tirou 7,75 e o corpo tirou 8, notas que na boca aparecem como acidez de laranja madura e textura cheia. A doçura fechou nas cinco tigelas.

Na xícara, um café de corpo médio para alto, acidez de laranja e doçura de caramelo. Notas de caramelo, laranja e chocolate ao leite, no pacote de 250g entre R$ 45 e R$ 65.

 
 

II  Como Preparar

A prova da SCA montada na bancada de casa

O preparo de hoje é a prova de xícara em casa, pelo protocolo da SCA: 8,25 gramas de café para 150 mililitros de água a 93 graus, moagem grossa, quatro minutos de infusão e quebra da crosta com colher.

A proporção do protocolo corresponde a 1 para 18, café mais diluído que o do coador comum. A diluição é proposital: deixa defeito e virtude à mostra, sem corpo pesado cobrindo nenhum dos dois.

A ficha do preparo:

A ficha da prova de xícara em casa

Café8,25g por tigela
Água150ml, filtrada, a 93 graus
Proporção1 para 18, em peso
Moagemgrossa, pouco mais fina que a da prensa francesa
Métodoinfusão em tigela ou xícara larga, sem filtro
Tempo4 minutos até a quebra, prova entre 8 e 20 minutos
Rendimento3 a 5 tigelas por café provado
1  Pese 8,25g de café em cada tigela, moído na hora, e cheire o pó seco antes da água: é a fragrância, atributo que abre a folha.
2  Despeje 150ml de água a 93 graus, molhando todo o pó, e dispare o cronômetro.
3  Aos 4 minutos, empurre a crosta com a colher três vezes, rente à borda, com o nariz sobre a tigela: é o aroma da quebra.
4  Retire com duas colheres a espuma e o pó que boiam, sem mexer no fundo.
5  Aos 8 minutos, quando o líquido cai para perto de 70 graus, sorva uma colherada com força, espalhando o café pela boca inteira.
6  Prove de novo aos 12 e aos 20 minutos, anotando o que muda com o frio.

O sorvo barulhento tem função. O ar puxado com o líquido espalha o café pela língua e leva o vapor ao fundo do nariz, onde age o olfato retronasal (o cheiro percebido por dentro, pela boca).

A temperatura muda a nota. Acidez aparece melhor com o café morno, e defeito como gosto de terra ou de madeira cresce quando esfria. O protocolo manda provar em três momentos por isso, e o provador só fecha doçura e uniformidade na última rodada.

Use três tigelas do mesmo café. Se uma sair diferente das outras, o problema está no grão, e é assim que a folha mede a uniformidade.

Moagem fina demais afunda o pó e deixa a crosta fraca, o que atrapalha a quebra. Moagem grossa demais entrega tigela aguada, e o atributo sabor some.

Para comparar com o café do dia a dia, monte duas fileiras lado a lado: o lote de 86 e um café de supermercado, na proporção do protocolo. O café comum costuma mostrar amargor alto, corpo raso e gosto de madeira quando esfria.

O grão torrado dura cerca de 30 dias em pacote com válvula, contados da data de torra. O protocolo pede amostra torrada entre 8 e 24 horas antes da prova; em casa, qualquer pacote dentro do prazo serve.

Moedor e balança de precisão →
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Quem banca a edição de hoje

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III  O Detalhe

O exame de seis dias que licencia o provador

O Q Grader nasceu em 2004 no Coffee Quality Institute, entidade sem fins lucrativos fundada em 1996 pela Specialty Coffee Association of America, a SCAA, que em 2017 se fundiu com a associação europeia para formar a SCA atual. O instituto queria resolver um problema de comércio: a nota de um provador em Campinas precisava bater com a de outro em Seattle.

O exame original somava 22 testes em seis dias. Entre eles, provas de olfato com 36 frascos de aroma do kit francês Le Nez du Café, testes de triangulação (três xícaras, duas iguais, achar a diferente), identificação de ácidos orgânicos, classificação de café verde e torrado e sessões completas de prova pela folha da SCA.

A calibração pesa mais que o vocabulário. Nas sessões de prova, a nota do candidato precisa cair numa faixa estreita em torno da nota dos instrutores, lote após lote. Quem descreve bem o sabor mas pontua alto demais reprova igual.

A licença vale três anos. Para renovar, o provador passa por recalibração, e quem deixa vencer sem refazer perde o direito de assinar prova como Q Grader.

"Café especial é aquele que pontua 80 ou mais na escala de 100 pontos", define o protocolo de prova da SCAA, Cupping Specialty Coffee, em tradução livre da edição de 2015.

SCAA · Cupping Specialty Coffee · 2015

A linha dos 80 tem uma limitação que a própria SCA reconheceu: a folha mede qualidade pelo paladar treinado num padrão, e um café fermentado de propósito, que agrada muita gente, podia perder pontos como defeito. Em 2024 a SCA publicou a Coffee Value Assessment (avaliação de valor do café), sistema que separa a descrição do gosto da nota de qualidade. A folha antiga segue em uso no comércio de café verde.

Falta um dado para fechar a conta do produtor, e vale dizer sem rodeio: nenhuma entidade publica série aberta que ligue a pontuação ao preço pago na porteira. Os prêmios por lote de 80 a 84 dependem de contrato privado entre comprador e fazenda, e por isso ninguém fora da negociação consegue medir quanto cada ponto rende.

Na nossa opinião: a nota no rótulo ajuda a separar lote cuidado de café comum, e vale olhar. Dois pontos entre 84 e 86 cabem na variação entre provadores e não justificam pagar muito mais. O preparo de hoje ensina a julgar pelo próprio paladar.

Teste hoje: monte duas tigelas do seu café habitual e uma do lote de 86, e peça para alguém embaralhar sem contar qual é qual. Se você achar a tigela diferente pelo aroma da quebra, passou pelo teste de triangulação do exame.

"Qual nota você daria ao café que toma toda manhã, se tivesse a folha da SCA na mão?"

 
 
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Quiz da edição

Quando um lote chega a 80 pontos ou mais na prova de xícara da SCA, o que muda na forma como o grão verde é negociado?

APassa a ser vendido só torrado, direto ao consumidor final
BContinua na cotação de Nova York, com um desconto por quilo
CSai da cotação da bolsa de Nova York e é negociado por lote, com prêmio acima da bolsa
DFica isento de nova prova e é vendido por um preço fixo tabelado pela SCA

Resultado da última edição: 75% acertaram.

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ED 126 · amanhã às 08:08

A AeroPress de Alan Adler e o campeonato do tubo

O inventor do anel Aerobie lançou o tubo em 2005, e desde 2008 um torneio mundial premia receitas feitas nele.

 

Bom café. In cafea veritas.

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