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ED 085

O Obatã Amarelo de Garça e a régua dos mil metros

Sítio familiar na Alta Paulista, lavoura a 700 metros, cereja amarelo secando inteiro no terreiro e chocolate meio amargo no bule da Moka.

Bule de Moka de alumínio de três peças com a câmara de cima aberta sobre uma mesa de madeira gasta em sítio familiar de Garça, no oeste paulista, com tigela rasa de frutos de café amarelos maduros, um punhado de amêndoas torradas, um quadrado de chocolate meio amargo partido, um pedaço de rapadura sobre tábua de madeira, xícara pequena e grossa com café concentrado, pacote kraft de 250g com etiqueta escrita à mão e, ao fundo, um terreiro de cimento com o fruto amarelo inteiro secando em camada fina e um rodo de madeira encostado, com fileiras de cafeeiros de copa fechada no solo vermelho e o horizonte baixo do espigão com neblina no vale

A Moka e o cereja amarelo do sítio em Garça

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Em 18 de julho de 1975 uma massa de ar polar subiu pelo sul do Brasil e queimou o cafezal do norte do Paraná ao oeste de São Paulo. A geada negra derrubou perto de um bilhão e meio de pés numa noite só.

Depois dela, a lavoura migrou para o norte, para as chapadas de Minas Gerais e para o Cerrado, onde o frio de julho chega enfraquecido. Junto com a mudança de endereço pegou uma frase que virou régua de mercado: café bom nasce acima de mil metros.

A régua tem fundamento. Quanto mais fria a média, mais devagar o fruto enche, e mais tempo o grão tem para acumular açúcar e os precursores de aroma que a torra depois transforma em chocolate e castanha.

Tem também origem comercial. Na América Central a altitude virou grau de etiqueta, e o café de montanha alta passou a valer mais só pela cota que aparece no mapa.

O que a etiqueta esquece é a latitude. Perto do equador, subir a serra é a única forma de conseguir noite fria. A 22 graus ao sul, o planalto entrega o frio sem cobrar altitude, e cada grau de distância do equador vale perto de cem metros na conta da temperatura.

No oeste paulista existe uma cidade que vive dessa conta. Garça fica a 670 metros, no espigão entre os vales do Peixe e do Aguapeí, numa região que o trilho abriu para o café nos anos 1920 e que continuou plantando mesmo depois de 1975.

O inverno seco do planalto faz o resto. Em junho e julho a noite cai para perto de 10°C, a amplitude entre a tarde e a madrugada passa de 15 graus, e a planta gasta menos açúcar respirando no escuro. O que sobra vai para dentro do fruto.

Numa lavoura pequena a diferença aparece na xícara antes de aparecer na balança. O café de hoje vem de um sítio de família plantado nessa faixa, com uma cultivar de fruto amarelo que amadurece tarde de propósito.

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I  O Grão do Dia

O cereja amarelo do sítio em Garça

O grão do dia é um Obatã Amarelo natural, de sítio familiar em Garça, na Alta Paulista, colhido a 700 metros e comprado direto de quem planta.

Obatã é cultivar do Instituto Agronômico de Campinas, saída da progênie Sarchimor, que veio do cruzamento entre o Villa Sarchi, um porte baixo da Costa Rica, e o Híbrido de Timor. Do mesmo trabalho de seleção saiu o Tupi.

O Híbrido de Timor não foi feito em laboratório. É um cruzamento natural entre arábica e canéfora encontrado na ilha de Timor, e é dele que vem a resistência à ferrugem que o Obatã carrega até hoje.

Na roça a planta se reconhece pelo porte. Copa fechada, internódio curto, altura média que dispensa escada e aguenta plantio adensado, com muita roseta de fruto por metro de ramo.

A característica que interessa aqui é o calendário. O Obatã é de maturação tardia, fecha a colheita depois do Catuaí e do Mundo Novo, e numa região quente o atraso vira vantagem: o fruto termina de encher já dentro do inverno seco.

A cor amarela vem de um gene recessivo, o mesmo que apareceu no Bourbon Amarelo do oeste paulista nos anos 1930. Para fixar o caráter numa cultivar de fruto vermelho, o melhorista cruza e retrocruza até a lavoura inteira nascer amarela.

Fruto amarelo cobra atenção na colheita. Ele não escurece até o vermelho de vinho que denuncia o ponto: passa de verde a amarelo e depois a âmbar, e quem colhe com pressa leva verde junto.

A colheita do sítio é manual e seletiva, com pano estendido no chão e três passadas no mesmo talhão ao longo da safra, tirando só o que já está cereja.

O processo é natural, que quer dizer secar o fruto inteiro, com casca e polpa grudadas no grão, sem lavar e sem descascar antes. O açúcar da polpa passa para dentro do café durante a secagem.

A secagem é o passo que decide a xícara. Camada fina no terreiro, rodo passando várias vezes ao dia, pilha coberta no fim da tarde e de quinze a vinte dias até a umidade cair para perto de 11%.

No amarelo o revolvimento pesa mais, porque a casca clara esconde a mancha do fruto que fermentou demais. Terreiro mal cuidado entrega gosto de fruta passada no lugar do chocolate.

Depois do terreiro vem o descanso em tulha, que iguala a umidade dentro do caroço antes do beneficiamento.

Cultivar de maturação tardia, fruto amarelo colhido na mão a 700 metros e secagem inteira no terreiro do sítio.

Na xícara o natural de Garça abre em chocolate meio amargo, mostra amêndoa torrada no meio e fecha em rapadura, com corpo alto e acidez baixa. Notas de chocolate meio amargo, amêndoa torrada e rapadura. Faixa de preço dos 250g comprados direto do produtor: R$ 45 a R$ 75.

 
 

II  Como Preparar

A Moka no fogo baixo

A prova de hoje é na Moka, o bule italiano de três peças que trabalha em cima do fogão e custa menos que qualquer cafeteira elétrica.

Alfonso Bialetti registrou o desenho em 1933, com a base de água embaixo, o cesto de pó no meio e a câmara de cima onde a bebida sobe.

O princípio é pressão de vapor. A água da base esquenta, o vapor empurra o líquido pelo tubo e a bebida atravessa o pó de baixo para cima, com algo entre 1 e 1,5 bar.

Longe dos 9 bar de uma máquina de espresso, então a Moka não faz espresso. Faz um café concentrado, denso, com corpo de sobra e sem crema de verdade.

O casamento com esse grão é direto. Natural doce, corpo alto e acidez baixa aguentam a concentração e entregam o chocolate meio amargo inteiro; um café cítrico e floral sairia áspero no mesmo bule.

A Moka tem três defeitos famosos, e todos têm conserto.

O primeiro é a água fria. Enchendo a base com água da torneira, o alumínio leva minutos para esquentar e o pó cozinha no vapor antes de a extração começar.

Conserto: use água da chaleira, perto de 90°C, e segure a base com um pano para rosquear. A extração começa quase junto com o fogo e o pó não fica torrando em cima da chama.

O segundo é o fogo alto. Chama larga passando pela lateral da base joga a bebida no teto da câmara em jorro violento e queima o que já subiu.

Conserto: boca pequena, fogo baixo, tampa aberta para acompanhar. A bebida tem que subir num fio grosso e contínuo, com cor de melado, sem espirrar.

O terceiro é o fim da extração. Quando a água da base acaba, sobe vapor puro, o bule chia e o último jato claro leva amargor e adstringência para dentro da xícara.

Conserto: tire do fogo assim que o líquido clarear e encoste a base numa toalha molhada para cortar a extração na hora.

A régua do Obatã Amarelo na Moka

Receita17g de café no cesto de 3 xícaras
Águaaté a base da válvula, perto de 120ml, já a 90°C
Moagemmédia fina, textura de açúcar refinado
Fogobaixo, boca pequena, tampa aberta
Tempo3 a 4 minutos do fogo ao primeiro jorro
Custo por bule250g rendem perto de 14 bules, de R$ 3,00 a R$ 5,10 cada

Nivele o pó no cesto sem calcar. Moka não é porta-filtro: pó comprimido segura a água, a pressão sobe além da conta e a válvula de segurança vira o assunto da cozinha.

Moagem média fina é o ponto de equilíbrio. Fina de espresso entope o cesto e sobe queimada; grossa demais deixa a água correr solta e entrega bebida rala apesar da pressão.

Sirva em xícara pequena, dois goles de cada vez. O chocolate meio amargo domina quente, a amêndoa torrada aparece quando a bebida desce dos 60°C e a rapadura fica no fim, junto com o corpo.

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III  O Detalhe

A régua dos mil metros

Agora a parte que explica o pacote: uma lavoura a 700 metros não deveria dar café doce e limpo, segundo a régua que o mercado repete.

A régua nasceu longe daqui. Na Guatemala, na Costa Rica e em El Salvador a altitude virou classificação oficial de lote, e o Strictly Hard Bean guatemalteco é justamente o café colhido acima de 1.350 metros.

O motivo é geográfico. A Guatemala está a 15 graus do equador, e naquela latitude só a montanha alta entrega noite fria o bastante para o fruto amadurecer devagar.

O Brasil planta café entre 20 e 23 graus ao sul. A distância do equador já faz parte do trabalho que o produtor da América Central só consegue subindo a serra.

Na prática, a conta que interessa não é o metro, é o termômetro na hora em que o fruto enche. Arábica trabalha bem numa média anual entre 18°C e 22°C, e o oeste paulista vive dentro dessa faixa.

A noite responde pela outra metade. Fruto que passa a madrugada a 10°C queima menos açúcar na respiração, enche devagar e chega ao terreiro com o grão mais denso.

A cultivar tardia fecha o arranjo, porque empurra a fase final de enchimento para junho e julho, os meses em que o planalto está mais frio e mais seco.

O Brasil, aliás, nunca classificou café por altitude. A régua velha daqui é a bebida na xícara, com escala própria: estritamente mole, mole, apenas mole, dura, riada e rio.

Uma escala que julga o resultado, não o endereço. Um lote de 700 metros que chega a estritamente mole vale mais que um lote de 1.200 metros que chega duro.

O contrapeso existe e é honesto dizer. Altitude baixa perdoa menos: num ano quente a média sobe, o fruto enche correndo, a acidez cai e a xícara sai plana.

Comprar direto de quem planta tem o contrapeso da escala. O lote é pequeno e acaba, e o torrador da região oscila mais que uma indústria grande, então vale perguntar a data da torra, o processo e a cultivar antes de pagar.

Na nossa opinião: vale a compra para quem gosta de café doce, encorpado e de acidez baixa, do tipo que aguenta a Moka e ainda sustenta o leite. Quem procura xícara cítrica e floral vai sentir falta de brilho.

A prova está no terreiro do espigão. Fruto amarelo colhido no ponto, secando inteiro sob o sol seco de julho, com a noite fria de Garça segurando o relógio da maturação até o chocolate e a rapadura chegarem à xícara.

 
 
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No texto, de qual cruzamento nasceu a cultivar Obatã Amarelo plantada no sítio de Garça?

ABourbon Amarelo com Mundo Novo
BCatuaí com Icatu
CVilla Sarchi com Híbrido de Timor
DTypica com Caturra

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