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Notas do Café   Notas do Café
ED 107

Em 1970 um fungo alaranjado trocou o cafezal brasileiro

Da folha manchada no sul da Bahia ao Obatã de Piatã, o café que você coa hoje carrega genética escolhida contra a ferrugem.

Folha de cafeeiro verde escura sobre bancada de madeira gasta, com a face de baixo virada para cima mostrando manchas alaranjadas e pulverulentas, uma lupa de mão e uma pinça de aço ao lado, grãos crus esverdeados espalhados, um saco de aniagem dobrado na borda e uma jarra de vidro com filtro de papel espesso desfocada ao fundo

As manchas alaranjadas na face de baixo da folha

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E m janeiro de 1970, técnicos da CEPLAC recolheram folhas manchadas num cafezal do sul da Bahia, na região de Aurelino Leal, e o Instituto Biológico de São Paulo confirmou o diagnóstico ainda no primeiro semestre: Hemileia vastatrix, a ferrugem alaranjada do cafeeiro, tinha atravessado o Atlântico e estava nas Américas.

O fungo já era conhecido pelo estrago que fez no Ceilão, hoje Sri Lanka, a partir de 1869, quando derrubou uma cafeicultura inteira e empurrou a ilha para o chá. Até aquele janeiro, o continente americano era o único grande produtor livre dele.

A doença ataca a folha, não o fruto. Os esporos germinam na face de baixo, formam manchas com pó cor de laranja e a folha cai antes da hora. Cafeeiro sem folha não enche o grão da safra que está na planta e chega desidratado na florada seguinte.

A primeira reação foi química e cara. Calda bordalesa e fungicidas cúpricos entraram no calendário de todas as lavouras do país, com pulverizações repetidas do começo das chuvas ao fim do enchimento do grão, safra após safra, sem interrupção.

A segunda reação demorou mais e mudou o país. O Instituto Agronômico de Campinas e o Instituto Agronômico do Paraná passaram a cruzar as variedades comerciais brasileiras com o Híbrido de Timor, um cruzamento natural entre arábica e robusta encontrado no Timor Português nos anos 1920, que carrega genes de resistência ao fungo.

Desses cruzamentos saíram os cultivares que hoje ocupam boa parte das lavouras: Icatu, Tupi, Obatã, Catucaí, Iapar 59, entre outros. O mapa de variedades do Brasil foi reescrito por causa de um pó alaranjado visto numa folha em 1970.

Para quem mói café em casa, a herança aparece no rótulo. Quando a etiqueta traz Obatã, Tupi ou Catucaí, o produtor escolheu uma planta que dispensa parte do calendário de pulverização, e isso muda o custo do saco e o cuidado que sobra para a colheita.

O grão de hoje veio de uma lavoura baiana de altitude que faz exatamente essa aposta, a menos de 500 quilômetros do talhão onde a ferrugem apareceu pela primeira vez.

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I  O Grão do Dia

O Obatã de Piatã que nasceu do Híbrido de Timor

O grão do dia é o Obatã IAC 1669-20 de Piatã, Coffea arabica processado como cereja descascada, cultivado entre 1.150 e 1.280 metros na Chapada Diamantina e vendido em pacote de 250g.

O Obatã foi desenvolvido pelo Instituto Agronômico de Campinas a partir do cruzamento entre o Villa Sarchi e o Híbrido de Timor, com seleções feitas ao longo de décadas até o lançamento comercial em 2000. Planta de porte baixo, internós curtos, maturação tardia e resistência de campo à ferrugem alaranjada.

Piatã fica no alto da Chapada Diamantina, no centro-sul baiano. As noites frias de junho a agosto seguram a maturação, o dia seco reduz a pressão de fungo na folha e a colheita tardia do Obatã cai justamente na janela sem chuva da região.

O processamento é cereja descascada, que significa retirar a casca da fruta madura em máquina e secar o grão ainda envolto pela mucilagem doce. A secagem acontece em terreiro suspenso, com camada fina e revolvimento a cada duas horas nos três primeiros dias.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Obatã de Piatã

Altitude de cultivo1.150 a 1.280 metros
Colheitaduas passadas seletivas, com 91 por cento de cereja madura
Secagem12 a 16 dias em terreiro suspenso
Umidade final do grão seco11 por cento
Ponto de torramédio-claro, cerca de um minuto depois da primeira crepitação
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 34 a R$ 46

Noventa e um por cento de cereja madura na colheita é um índice alto para lavoura mecanizada, e depende de uma planta que amadurece junto. O porte baixo do Obatã e os internós curtos deixam o cacho concentrado no ramo, o que permite a segunda passada seletiva sem derrubar fruto verde.

A resistência genética entra na xícara por um caminho indireto. Lavoura que pulveriza menos gasta menos combustível e menos hora de trator no talhão, e o dinheiro que sobra costuma migrar para o terreiro, que é onde a qualidade sensorial se ganha ou se perde.

Folha que fica na planta até o fim do enchimento é o que dá açúcar ao grão, e a genética resistente serve para manter essa folha no galho.

Na torra, o Obatã de altitude pede parada precoce. Grão denso de café da Chapada aguenta calor, mas passar do médio-claro apaga o melado e empurra a bebida para o amargo de torra, que é o defeito mais comum em café baiano vendido moído no supermercado.

Na xícara, o resultado é um café de corpo médio, doçura de melado, acidez cítrica moderada e retrogosto de amêndoa tostada. Notas de chocolate ao leite, amêndoa e melado. Faixa de preço do pacote de 250g: R$ 34 a R$ 46.

 
 

II  Como Preparar

Os 94 graus que abrem o melado do Obatã

O preparo deste grão é a Chemex: 30g de café em moagem média-grossa para 500ml de água a 94 graus, extraídos em cerca de 4 minutos.

O filtro da Chemex é bem mais espesso que o papel comum de coador cônico. Ele retém óleo e finos com folga, entrega uma bebida translúcida e deixa a acidez cítrica do Obatã aparecer separada da doçura, sem a camada gordurosa que embaralha as duas.

A temperatura sobe para 94 graus por causa da torra médio-clara e da densidade do grão de 1.200 metros. Café denso e claro resiste à extração, e água abaixo de 92 graus devolve uma bebida azeda de fachada, com acidez sem o melado por trás.

A moagem média-grossa compensa o papel espesso. Pó fino demais entope a malha do filtro da Chemex, o coado passa de seis minutos e a bebida chega com amargor adstringente de fim de extração, que é o erro clássico de quem migra do coador cônico direto para essa jarra.

A ficha do preparo:

A ficha da Chemex deste lote

Receita30g de café para 500ml de água
Proporção1 para 16,6
Água94 graus, aferida com termômetro
Moagemmédia-grossa, textura de açúcar cristal
MétodoChemex, filtro espesso escaldado
Pré-infusão60ml por 40 segundos
Tempo total4 minutos

Escalde o filtro com água fervente até ele encostar na parede de vidro e despeje fora a água acumulada. O papel da Chemex é o que mais devolve gosto de papelão quando entra seco, e num café de doçura delicada esse gosto se instala por cima do melado.

Faça a pré-infusão com 60ml e espere 40 segundos. Café de terreiro suspenso costuma chegar à sua casa com poucos dias de torra e libera bastante gás carbônico, e a cama de pó precisa desse tempo para assentar antes do jato principal.

A 94 graus a Chemex abre o melado do Obatã e a acidez cítrica chega atrás, separada, sem a gordura do coador comum.

Despeje o restante em quatro etapas de 110ml, esperando o nível baixar até a metade da cama entre uma e outra. Despejo único de 440ml afoga o pó, cria um caminho preferencial na lateral e entrega bebida rala mesmo com a pesagem correta.

Se o coado passar de 5 minutos, engrosse a moagem antes de mexer em qualquer outra variável. Tempo longo nesse filtro puxa o amargor da casca do grão e apaga a amêndoa do retrogosto, que é justamente o que este lote tem de melhor.

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III  O Detalhe

Resistência à ferrugem não é imunidade à ferrugem

A confirmação de 1970 fechou o mapa mundial da doença, e o fungo nunca mais saiu daqui. A ferrugem alaranjada está hoje em todo cafezal brasileiro, em intensidade que muda com a chuva, a carga de frutos na planta e o adensamento do talhão.

A resistência genética funciona por reconhecimento. A planta identifica a raça do fungo pelo gene que carrega e fecha a reação antes da lesão se espalhar, e enquanto esse reconhecimento vale a folha permanece verde e presa no galho.

O problema é que Hemileia vastatrix tem dezenas de raças fisiológicas catalogadas e produz novas combinações a cada ciclo. Uma raça que o gene do cultivar não reconhece encontra a planta desprotegida, e é isso que os produtores chamam de quebra de resistência.

Cultivar resistente compra tempo de lavoura, e o tempo comprado dura enquanto o fungo não muda de raça.

"A resistência vertical ao fungo tem duração limitada no campo, e a diversidade de fontes genéticas é o que sustenta o programa a longo prazo", escreveram Ajjamada C. Kushalappa e Albert B. Eskes em Coffee Rust: Epidemiology, Resistance and Management, de 1989.

Ajjamada C. Kushalappa e Albert B. Eskes · Coffee Rust: Epidemiology, Resistance and Management · 1989

A frase explica por que os institutos brasileiros nunca pararam de lançar cultivar novo. Cada material resistente colocado no campo tem prazo de validade biológico, e o programa de melhoramento precisa entregar o substituto antes do prazo vencer.

Vale desmontar o mito de balcão que anda junto com a palavra resistente. Muita gente ouve resistência à ferrugem e imagina uma planta que nunca adoece, quando o que existe é uma planta que adoece menos, mais tarde e com menos folha perdida. Lavoura de Obatã bem manejada ainda leva pulverização em ano chuvoso, só que duas em vez de cinco.

Na nossa opinião: leia o nome do cultivar no rótulo como informação de manejo, nunca como promessa de sabor. Obatã, Tupi e Catucaí dizem que o produtor pensou em sanidade de lavoura, e o sabor da xícara continua vindo do ponto de colheita, do terreiro e da torra.

A pista prática na hora de comprar é a combinação de dois campos na etiqueta. Cultivar declarado junto com altitude e mês de colheita mostra um produtor que controla o próprio calendário, e calendário controlado é o que separa lote limpo de lote de sorte.

Teste amanhã de manhã com o café que já está na sua casa: coe 250ml no seu método de sempre, separe metade numa xícara e deixe esfriar 15 minutos antes de provar. Anote se a doçura ainda aparece morna. Café de cereja madura mantém o melado na bebida fria; café colhido verde entrega só adstringência quando a temperatura cai.

"O seu café ainda estava doce depois de 15 minutos esfriando?"

 
 

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Quiz da edição

Em janeiro de 1970, técnicos da CEPLAC recolheram as primeiras folhas com ferrugem alaranjada em qual região?

APiatã, na Chapada Diamantina
BCeilão, atual Sri Lanka
CAurelino Leal, no sul da Bahia
Duma lavoura do Paraná

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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