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Notas do Café   Notas do Café
ED 109

As 78 milhões de sacas que o Brasil queimou de propósito

Entre 1931 e 1944, fornalhas de usina e porões de navio sumiram com 78 milhões de sacas para segurar o preço no porto de Santos.

Sacas de aniagem cheias de café empilhadas ao lado da porta aberta de uma fornalha industrial num galpão de tijolo antigo, grãos verdes escorrendo de uma saca rasgada sobre o piso de concreto coberto de fuligem, luz alaranjada do fogo atravessando as sacas pela direita, fumaça no ar e um carrinho de carga de madeira junto ao trilho de um antigo ramal de porto ao fundo

Sacas de café a caminho da fornalha

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E 1959, na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de São Paulo, o economista Antônio Delfim Netto fechou a contabilidade da destruição de café ordenada pelo Estado brasileiro: cerca de 78 milhões de sacas compradas e eliminadas entre 1931 e 1944. Três safras inteiras da época, retiradas do mercado por decisão administrativa.

A saca de 60 quilos que saiu do terreiro não seguiu para o navio. Foi para a fornalha de usina, para a caldeira de locomotiva, para a vala aberta com trator, e em parte para o porão de embarcações que despejavam a carga em alto-mar, longe da vista do porto.

A conta que levou a esse ponto começou na década de 1920. O Brasil respondia por volta de 70 por cento do café consumido no mundo, e cada ano bom de chuva empurrava mais cafeeiro novo para a terra roxa do oeste paulista e do norte do Paraná.

Cafeeiro plantado leva de três a quatro anos para dar a primeira safra comercial. Quem plantou em 1927 e 1928, animado com o preço firme, colheu em 1931 e 1932, no meio do buraco aberto pela quebra da bolsa de Nova York.

O consumo do outro lado do Atlântico encolheu junto com a renda das famílias americanas e europeias. O estoque brasileiro parado no porto de Santos passou de uma safra inteira, e cada saca acumulada empurrava a cotação para baixo com o peso de uma pedra amarrada ao pé.

Foi aí que o governo Vargas criou o Departamento Nacional do Café, em 1933, com uma atribuição incomum na história econômica do país: comprar mercadoria boa para destruí-la. O dinheiro veio de um imposto cobrado sobre a própria saca exportada.

A lógica cabe numa frase de balcão: se a oferta encolhe à força, o preço do que sobra sustenta a lavoura, o emprego na fazenda e a entrada de dólar no país. O custo ficava distribuído entre exportadores e o Tesouro.

O grão da edição de hoje nasce num pedaço de São Paulo que viveu a queima de perto, o nordeste do estado, e que hoje vende a saca por motivo oposto ao de 1931: escassez de lote fino.

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I  O Grão do Dia

O Bourbon Vermelho de Franca em terreiro suspenso

O grão do dia é o Bourbon Vermelho de Franca, na Alta Mogiana paulista, Coffea arabica processado como cereja descascado, cultivado entre 900 e 1.050 metros e vendido em pacote de 250g.

Franca fica no nordeste de São Paulo, na divisa com Minas, e é uma das regiões que estavam em plena expansão quando o Departamento Nacional do Café começou a comprar safra para eliminar. As fazendas que sobreviveram àquele período trocaram volume por seleção de lote ao longo das décadas seguintes.

O Bourbon Vermelho é a variedade original que chegou ao Brasil pela Ilha de Bourbon, hoje Reunião, no século XIX. Produz menos por pé que os híbridos modernos, tem grão de tamanho irregular e entrega doçura alta quando a colheita respeita o ponto de cereja.

O processo é o cereja descascado, que significa retirar a casca do fruto ainda úmido e deixar a mucilagem grudada na semente durante a secagem. A mucilagem é a camada de polpa doce e pegajosa que fica entre a casca e o grão, e ela empurra o café para o corpo denso e o melado.

A ficha do lote, em números:

A ficha do Bourbon Vermelho de Franca

Altitude de cultivo900 a 1.050 metros
Colheitaduas passadas com derriça sobre pano, com 82 por cento de cereja madura
Secagem9 dias em terreiro suspenso e 20 horas em secador a 40 graus
Umidade final do grão seco11 por cento
Perfil de torra12 minutos no total, com descarga 2 minutos depois do primeiro estalo
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 34 a R$ 46

O terreiro suspenso é uma mesa de tela a um metro do chão, que deixa o ar circular por baixo da camada de café. Grão que seca ventilado pelos dois lados perde umidade de forma parelha e chega ao armazém sem o gosto de terra molhada que o cimento devolve em ano chuvoso.

Dois minutos de desenvolvimento sobre doze de tambor colocam este lote no ponto médio, mais longo que o de um café de acidez cítrica. A escolha faz sentido para um Bourbon de altitude moderada: a acidez aqui é discreta, e alongar um pouco a torra constrói o chocolate meio amargo que sustenta a bebida.

Café de altitude moderada não briga por acidez, ele ganha no corpo, e o corpo se constrói com mucilagem na secagem e paciência no tambor.

Na xícara, o resultado é um café de corpo denso, doçura de melado, acidez baixa de laranja-lima e retrogosto longo de amendoim. Notas de chocolate meio amargo, amendoim torrado e melado de cana. Faixa de preço do pacote de 250g: R$ 34 a R$ 46.

 
 

II  Como Preparar

Os 94 graus do coador de pano

O preparo deste grão é o coador de pano: 24g de café em moagem média-grossa para 360ml de água a 94 graus, extraídos em cerca de 3 minutos e 30 segundos.

O pano segura menos óleo que o papel. A trama de algodão deixa passar parte dos lipídios e das partículas finas que o filtro branco retém, e o resultado é uma bebida de textura mais cheia na boca, com o melado deste lote ocupando o centro do gole.

A temperatura sobe para 94 graus por causa da torra média e da moagem mais aberta. Grão descarregado dois minutos depois do estalo tem estrutura porosa e resiste bem à água quente, e a moagem grossa precisa de energia para entregar açúcar no tempo do coado.

A moagem média-grossa evita o entupimento da trama. Pó fino em coador de pano gruda no tecido, fecha a passagem e estica a extração para além de cinco minutos, e o café chega amargo com aquele fundo de terra que muita gente atribui ao pano quando a culpa é do moedor.

A ficha do preparo:

A ficha do coador de pano deste lote

Receita24g de café para 360ml de água
Proporção1 para 15
Água94 graus, aferida com termômetro
Moagemmédia-grossa, textura de açúcar cristal
Métodocoador de pano de algodão cru, molhado antes do uso
Pré-infusão60ml por 30 segundos
Tempo total3 minutos e 30 segundos

Molhe o pano com água quente e torça de leve antes de colocar o pó. Pano seco absorve parte da primeira água e resfria a infusão logo na largada, e a queda de temperatura nos primeiros trinta segundos custa doçura no gole final.

Faça a pré-infusão com 60ml e espere 30 segundos. Café de torra média com poucos dias de descanso ainda solta gás carbônico em volume, e a cama sobe como um pão crescendo; a água despejada em cima do gás escorre pela borda sem molhar o pó do meio.

A 94 graus e com moagem de açúcar cristal, o pano entrega o melado deste Bourbon sem cobrar os cinco minutos de extração que deixam a bebida áspera.

Despeje o restante em duas etapas de 150ml, em movimento circular do centro para a borda, esperando o nível baixar até um dedo acima da cama entre uma e outra. Coador de pano aceita despejo mais generoso que o cone de papel, porque a trama regula a vazão sozinha.

Lave o pano só com água corrente quente, sem detergente, e guarde submerso em água na geladeira dentro de um pote fechado. Sabão deixa resíduo perfumado na fibra e aparece no gole seguinte; pano guardado seco oxida a gordura presa na trama e devolve gosto de ranço em duas ou três semanas.

Se o coado passar de quatro minutos, abra um pouco a moagem no próximo. Extração longa demais nesse grão empurra o chocolate meio amargo para o amargor seco e apaga o melado que a mucilagem construiu na secagem.

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III  O Detalhe

A fornalha que existia para segurar o preço

A destruição de 1931 a 1944 não aconteceu porque o café estava ruim. O produto queimado era mercadoria de exportação, boa o bastante para embarcar, e era exatamente por ser vendável que o governo precisava tirá-la de circulação.

O mecanismo tem nome técnico: valorização por retenção de oferta. O Estado comprava a saca do produtor com dinheiro arrecadado num imposto sobre exportação, guardava o que dava para guardar e eliminava o excedente, para que a cotação em Santos não afundasse com o estoque que ninguém comprava.

O café destruído era mercadoria vendável, e a política existia justamente porque ele era vendável demais para o tamanho do mercado.

"A política de defesa do café funcionou, na prática, como um programa de sustentação do nível de emprego e da renda interna, financiado pelo próprio setor exportador", escreveu Celso Furtado em Formação Econômica do Brasil, de 1959.

Celso Furtado · Formação Econômica do Brasil · 1959

A leitura de Furtado explica por que a fumaça não foi apenas desperdício contábil. Ao pagar pela safra que destruía, o Tesouro mantinha salário circulando na zona rural paulista e mineira num período em que o resto do mundo demitia, o que ajudou a segurar a demanda interna e a acelerar a indústria nacional.

Vale desmontar o mito de que a queima resolveu o preço. A cotação internacional continuou pressionada durante boa parte do período, porque outros produtores aumentaram sua área plantada aproveitando o preço que o Brasil sustentava sozinho. A participação brasileira no mercado mundial caiu ao longo dessas duas décadas.

Na nossa opinião: a lição que sobra da fornalha é sobre estoque, não sobre café. Segurar preço destruindo produto funciona enquanto um só fornecedor domina a oferta, e deixa de funcionar no instante em que a concorrência entra pela porta que o próprio guarda-chuva de preço abriu.

O rastro daquele período ainda aparece no copo. A obsessão por volume que veio depois empurrou o Brasil para variedades produtivas e para colheita mecânica, e o café de lote pequeno, colhido a dedo, virou exceção cara em vez de rotina, como o Bourbon Vermelho de Franca do pacote de hoje.

Teste amanhã de manhã: prepare 300ml deste grão no coador de pano e separe 50ml numa xícara pequena, coberta com um pires. Beba os 250ml restantes quentes e volte aos 50ml quarenta minutos depois, já em temperatura ambiente. Anote quantas notas novas você identifica no café frio; corpo denso de cereja descascado costuma revelar de duas a três, com o melado sobressaindo sobre o chocolate.

"Quantas notas novas apareceram no seu café já frio?"

 
 

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Quem fechou, em 1959, a contabilidade das 78 milhões de sacas de café compradas e destruídas pelo governo brasileiro entre 1931 e 1944?

ACelso Furtado
BRoberto Simonsen
CAntônio Delfim Netto
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