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Notas do Café   Notas do Café
ED 088

A cereja que enruga no pé antes de virar café

Sacramento MG1 de pequeno produtor do Alto Paranaíba, colhido a dedo numa passada só, secado inteiro no terreiro e coado na Kalita Wave.

Coador Kalita Wave de fundo plano em aço com filtro de papel ondulado sobre jarra de vidro grossa em mesa de madeira gasta num sítio do Alto Paranaíba, no Cerrado Mineiro, com uma bandeja rasa cheia de cereja enrugada e escura ao lado de um punhado de cereja vermelha cheia para comparação, pano estendido sob um cafeeiro baixo logo atrás com frutos murchos ainda pendurados no galho, tigela rasa de grãos verdes, um figo seco partido, uma ameixa escura e um pedaço de cacau amargo sobre tábua de madeira, caneca grossa de café preto, pacote kraft de 250g com etiqueta escrita à mão e, ao fundo, a lavoura plana no solo vermelho do cerrado, o terreiro de cimento com o fruto secando em camada fina e o rodo de madeira apoiado

A Kalita Wave e o Sacramento MG1 em ponto passa

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No mesmo galho, no mesmo dia, o cafeeiro carrega fruto verde, fruto amarelado e cereja vermelha no ponto. A florada não é uniforme, e o que nasce em rodadas diferentes amadurece em rodadas diferentes.

O nome de cada estágio vem da lavoura, não do laboratório. Verde é o fruto duro, com o açúcar ainda por formar. Cana é o amarelado do meio do caminho. Cereja é a fruta cheia, vermelha ou amarela, com a polpa doce colada na semente.

Depois da cereja vem um quarto estágio que quase ninguém imprime no rótulo: a passa. O fruto para de receber água da planta, murcha ainda pendurado, escurece e enruga como uva esquecida no cacho.

Na maior parte do Brasil, a passa entra na conta como perda. No lavador, o tanque que separa o café por densidade antes da secagem, a cereja cheia afunda e o fruto murcho sobe. A linha que sobe se chama boia e costuma sair mais barata.

O desconto tem razão de ser. Fruto que seca preso ao galho e ainda pega chuva fermenta dentro da própria casca, e defeito fermentado é o mais difícil de esconder: vinagre, álcool e um fundo de iodo que atravessa qualquer torra.

Do outro lado da mesma moeda está o açúcar. A passa perdeu água e manteve o que era doce, então cada grama de polpa chega mais concentrada, e a xícara ganha corpo e sabor de fruta seca.

A conta de rendimento também muda de lugar. Fruta com menos água entrega mais grão por quilo colhido, e o balde que parece leve na mão do apanhador rende mais no fim do beneficiamento.

O que decide entre defeito e doçura é o clima do lugar e a mão de quem colhe. Onde a colheita cai no meio da estação seca, com umidade relativa baixa e sol firme, o fruto murcha em vez de apodrecer.

O café do dia veio de um talhão pequeno onde o produtor esperou a lavoura inteira chegar a esse ponto, marcou o dia e tirou tudo de uma vez, fruto por fruto.

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I  O Grão do Dia

O Sacramento MG1 de chapada em ponto passa

O grão do dia é um Sacramento MG1 de pequeno produtor do Alto Paranaíba, em Minas Gerais, colhido em ponto passa e comprado direto de quem planta.

O nome não é do produtor nem da fazenda. Sacramento é uma cidade mineira do Alto Paranaíba, perto da Serra da Canastra, e a cultivar carrega o nome dela.

Quem batizou foi a EPAMIG, a empresa de pesquisa agropecuária do estado, que deu nome de município a uma família inteira de plantas: Araponga, Catiguá, Pau Brasil e Sacramento.

A planta saiu do cruzamento entre o Catuaí Amarelo e o Híbrido de Timor. Do Catuaí veio o açúcar e o porte baixo; do Híbrido de Timor veio a resistência à ferrugem, a doença que fura a folha e derruba a safra.

Híbrido de Timor é um cruzamento natural entre o arábica e o robusta, achado na ilha de Timor no século passado e usado desde então como fonte de resistência.

A lavoura fica a pouco mais de 1.100 metros, na chapada do Cerrado Mineiro, com solo profundo e estação seca marcada de maio a setembro. O sol firme na colheita permite o resto.

O produtor deixou o talhão passar do ponto de cereja. São de quinze a vinte dias a mais na planta, com o fruto perdendo água, a casca escurecendo e a pele enrugando de vez.

A cereja cheia chega ao terreiro com perto de 60% de umidade. A passa chega entre 35% e 40%, porque metade do trabalho de secagem já aconteceu pendurada no galho.

A diferença aparece no beneficiamento, o maquinário que descasca o fruto seco e libera o grão verde. Onde a cereja fecha perto de seis quilos de fruto por quilo de grão, a passa fecha perto de quatro.

Colher a dedo numa passada só quer dizer esperar a lavoura chegar junta ao ponto e tirar tudo de uma vez, com a mão fechando no galho e o pano estendido embaixo.

A aposta tem prazo curto. Passado o ponto, um vento forte ou uma chuva fora de hora derruba o fruto no chão, e café varrido do terreno chega ao copo com gosto de terra.

No terreiro o fruto vai inteiro, sem lavar e sem descascar, que é o que a palavra natural quer dizer no rótulo. A polpa seca agarrada à semente e empurra açúcar para dentro.

Como o lote já entrou meio seco, a camada fina precisa de oito a doze dias para chegar aos 11% de umidade, com rodo várias vezes ao dia e lona antes do sereno.

Depois vem o descanso na tulha, o compartimento de madeira onde o lote iguala a umidade por dentro antes de descascar.

Quinze dias a mais na planta, e metade da secagem já aconteceu no galho.

Na xícara o Sacramento MG1 em ponto passa abre em figo seco, mostra ameixa no meio e fecha em cacau, com corpo alto e acidez baixa. Notas de figo seco, ameixa e cacau. Faixa de preço dos 250g comprados direto do produtor: R$ 62 a R$ 95.

 
 

II  Como Preparar

Água a 93 graus no leito plano

A prova é na Kalita Wave, o coador japonês de fundo chato que troca o buraco único do cone por três furos pequenos.

A fabricante é japonesa e a linha Wave chegou ao mercado em 2010. O nome está no papel: um filtro de vinte ondas que fica de pé sozinho e encosta na parede do suporte só na crista de cada dobra.

As ondas deixam uma camada de ar entre o papel e o metal, e essa camada de ar segura a temperatura da água dentro da cama de pó do começo ao fim.

O fundo chato espalha o café numa camada rasa, de espessura parecida do centro à borda, e os três furos controlam a vazão em vez de deixar a gravidade mandar sozinha.

Café de fruta passa é generoso demais para um cone fundo. O açúcar concentrado sai rápido, e extração desigual puxa o fim do gole para o amargo antes de a fruta seca aparecer inteira.

A moagem vai um passo mais grossa que o normal, textura de açúcar cristal graúdo. Pó fino num café doce assim entrega quase tudo nos primeiros trinta segundos, e o resto da água só carrega amargor.

A água fica em 93°C. Grão de chapada alta é denso e precisa de calor para abrir, mas água fervendo sobre uma casca que já secou no galho traz o lado fermentado para a frente.

A régua do Sacramento MG1 na Kalita Wave

Receita20g de café para 320ml de água, proporção 1:16
Água93°C, filtrada
Moagemmédia para grossa, textura de açúcar cristal graúdo
Pré-infusão40ml e 40 segundos de espera
Despejoem três levas, em círculos pequenos no centro
Tempo total2min40 a 3min10 até a última gota
Custo por coada250g rendem perto de 12 coadas, de R$ 5,17 a R$ 7,92

Escalde o papel com o coador já montado na jarra e descarte a água do escaldo. Papel cru deixa gosto de papelão, e metal frio rouba calor logo na primeira leva.

Na pré-infusão, molhe todo o pó com 40ml e conte 40 segundos. Café natural torrado há poucos dias solta gás carbônico, e a bolha empurra a água para fora do caminho que ela deveria fazer.

Despeje em três levas, sempre em círculos pequenos no meio do leito. Na Kalita a borda do papel não tem pó embaixo, e o fio que cai encostado na parede escapa sem levar sabor nenhum.

No fim, gire a jarra com o coador em cima, num movimento curto, para assentar o pó nas paredes e nivelar a cama antes da última drenagem.

Sirva assim que parar de pingar. O cacau domina quente, o figo seco aparece quando a bebida desce dos 60°C e a ameixa fica no fundo do copo, junto com o corpo.

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III  O Detalhe

O que separa a passa do fruto estragado

Existe uma pergunta que todo mundo faz na primeira vez que ouve a história: fruto enrugado no pé não é fruto estragado?

A resposta começa no lavador. O tanque separa o café por densidade assim que o balde chega da lavoura: o fruto cheio afunda e o que já perdeu água sobe.

A linha que sobe leva o nome de boia e vai misturada com tudo que caiu no chão, mais o fruto que apodreceu na chuva. O lote inteiro sai barato, e a fama gruda na ruga.

O defeito, então, não está no fruto murcho. Está na companhia. Quando a passa desce ao chão, junta terra, mofa na pilha molhada e fermenta sem controle, o problema chega ao copo inteiro.

Quem colhe passa de propósito quebra a mistura em três pontos. Tira o fruto antes de cair, seca separado do lote comum e espalha em camada fina para a água sair rápido.

Dá para conferir na xícara, sem laboratório nenhum. Fruta seca bem conduzida aparece como figo, ameixa preta e uva passa, doce e redonda, com o cacau segurando o fim do gole.

Fermentado ruim aparece como vinagre, álcool e um travo de iodo ou de remédio. Quando o gole arde na garganta e deixa lembrança de esmalte, o lote passou do ponto.

O nariz ajuda antes do primeiro gole. Passa bem feita cheira a fruta em calda e a chocolate amargo; passa estragada cheira a cachaça velha e a fruta caída no chão.

No pacote a checagem é mais simples ainda. Procure a data de torra impressa, não a validade de dois anos, e procure cultivar, região, altitude e o processo escrito por extenso.

Um pacote que diz apenas café especial, sem nenhum dos cinco dados, está vendendo rótulo. Preço alto não prova nada sobre o que está dentro.

A torra é o outro teste. Café de fruta passa já carrega açúcar demais, e torra escura por cima transforma a doçura em queimado. Grão marrom médio, sem brilho de óleo na superfície, é o ponto certo.

Na nossa opinião: compre se o seu café preferido é doce, denso e de fruta escura, do tipo que enche a boca sem precisar de açúcar. Quem gosta de xícara leve, floral e cítrica vai achar o gole pesado.

A prova está no terreiro do Alto Paranaíba. O mesmo fruto que o tanque de água manda para o lote barato, colhido no dia certo e secado separado do resto, é o que põe figo seco e cacau na caneca da manhã.

 
 
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