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O Siriema VC4 que a família colhe em Divisa Nova
Siriema VC4 natural de sítio familiar em Divisa Nova, no Sul de Minas, cultivar do IAC criada contra o bicho-mineiro e prensado na francesa.
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A prensa francesa e o Siriema de Divisa Nova
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A larva tem o tamanho de um grão de areia e entra na folha do cafeeiro sem furar nada por fora. Ela nasce de um ovo posto na face de cima, atravessa a casca da folha e passa a vida inteira dentro dela.
O bicho-mineiro come o tecido verde por dentro, entre as duas faces, e vai abrindo uma galeria que aparece de fora como uma mancha marrom seca. A folha atacada perde a capacidade de fazer açúcar e cai antes da hora.
Folha caída não volta na mesma safra. O pé fica com menos superfície para trabalhar, manda menos açúcar para o fruto, e uma lavoura tomada pela praga chega a perder de trinta a cinquenta por cento da colheita.
A resposta comum é química. Inseticida sistêmico no solo no começo das águas, pulverização de reforço na seca, e a conta se repete todo ciclo, ano após ano, sem nunca resolver de vez.
Para o sítio pequeno a conta pesa duas vezes. Pesa no caixa, porque o defensivo é dos itens mais caros da lavoura, e pesa no corpo de quem aplica, que costuma ser a própria família no meio do cafezal.
Houve outro caminho, muito mais lento. Em vez de matar a larva todo ano, procurar dentro do próprio gênero Coffea uma planta em que ela não consegue viver, e trazer essa característica para dentro do café que se toma.
O Instituto Agronômico de Campinas foi buscar essa planta no Coffea racemosa, um café selvagem do litoral de Moçambique, de folha pequena e dura, que a larva do bicho-mineiro não consegue habitar.
O cruzamento entre o racemosa e o arábica não deu certo de primeira. A primeira geração trouxe a resistência junto com uma xícara ruim, herança do café selvagem, e foram necessárias décadas de retrocruzamento com arábica para tirar o defeito de sabor sem perder a folha resistente.
O nome que saiu no fim dessa fila de gerações foi Siriema. A numeração VC4 marca a seleção que ficou de pé no campo depois dos testes de comportamento em lavoura comercial.
O café de hoje é essa cultivar plantada num sítio de Divisa Nova, colhida pelos mesmos três irmãos há trinta anos, e vendida em pacote de 250g direto de quem planta.
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I O Grão do Dia
O Siriema VC4 de terreiro em Divisa Nova
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O grão do dia é um Siriema VC4 natural de sítio familiar em Divisa Nova, no Sul de Minas, onde três irmãos colhem a mesma lavoura desde os vinte anos de idade.
Divisa Nova fica no Sul de Minas, perto da divisa com o Sul do estado, num relevo de morro ondulado que sobe e desce sem planalto. O talhão está entre 900 e 1.000 metros.
A região é de propriedade pequena. A maior parte dos sítios tem menos de vinte hectares, a lavoura é tocada pela família e a colheita se faz na mão porque o morro não aceita colhedeira.
O Siriema não é uma cultivar comum de encontrar. Ela nasceu no Instituto Agronômico de Campinas do cruzamento entre o arábica e o Coffea racemosa, e o objetivo declarado era a resistência ao bicho-mineiro.
O racemosa entrou no cruzamento como doador de defesa. É um café selvagem de folha pequena, coriácea e estreita, em que a larva não consegue abrir galeria, e o programa passou gerações limpando o resto da herança.
O que sobrou na planta é visível no campo. A folha do Siriema é mais estreita e mais dura que a do Catuaí, o porte é alto, e o pé atravessa a safra com a copa cheia enquanto o vizinho perde folha.
O que a cultivar cobra é produtividade e paciência. O pé enche menos que um Catuaí moderno e a maturação é desigual dentro da mesma planta, o que obriga o apanhador a voltar mais vezes.
Por isso a colheita aqui é cereja a cereja. A mão fecha no fruto, sente se ele solta sozinho, e o mesmo pé recebe três ou quatro repasses ao longo da safra.
No terreiro o fruto vai inteiro, sem lavar e sem descascar, que é o que a palavra natural quer dizer no rótulo. A polpa seca colada na semente e empurra açúcar para dentro do grão.
O trabalho de terreiro é de hora em hora. O rodo abre o lote em camada fina de manhã, junta em leiras à tarde e cobre com lona antes do sereno, por dezesseis a vinte e dois dias, até o grão chegar aos 11% de umidade.
O Siriema seca mais devagar que a média porque o grão é graúdo e a casca é grossa, e apressar o terreiro nele custa caro: o miolo fica mais úmido que a superfície e o lote perde uniformidade na torra.
Depois vem o descanso na tulha, o compartimento de madeira onde o lote iguala a umidade por dentro antes do beneficiamento.
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Folha que a larva não consegue habitar é folha que não cai antes da hora.
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Na xícara o Siriema VC4 de Divisa Nova abre em chocolate ao leite, mostra castanha-de-caju no meio e fecha em rapadura, com corpo alto e acidez baixa. Notas de chocolate ao leite, castanha-de-caju e rapadura. Faixa de preço dos 250g comprados direto do produtor: R$ 52 a R$ 78.
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II Como Preparar
A prensa que devolve o corpo do natural
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A prova é na prensa francesa, o cilindro de vidro com êmbolo de aço e uma tela de metal no lugar do papel.
A peça é de imersão, não de filtragem por gravidade. O pó fica dentro da água o tempo todo, sem cama, sem canal e sem alguém despejando em espiral por cima.
A tela de metal segura o pó grosso e deixa passar o óleo do café e uma parte do sedimento fino. É exatamente o que o papel retira, e é exatamente o que dá corpo à bebida.
Café natural de terroir doce como esse tem açúcar do terreiro e gordura de sobra. No papel, boa parte dessa gordura fica presa e a xícara sai limpa e leve demais para o que o grão tinha a oferecer.
A prensa devolve o corpo. O chocolate ao leite ganha textura de leite integral na boca, a castanha aparece na mordida do meio e a rapadura fica no fim, com o açúcar mascavo grudando um pouco no céu da boca.
A moagem precisa ser grossa de verdade, textura de sal grosso. Pó fino atravessa a tela, continua extraindo dentro da caneca depois de servido e entrega amargor de borra no último gole.
A água sobe para 96°C porque a imersão é mais preguiçosa que a coada: sem agitação constante, o calor faz o trabalho que o despejo faria.
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A régua do Siriema VC4 na prensa francesa
| Receita | 30g de café para 450ml de água, proporção 1:15 |
| Água | 96°C, filtrada |
| Moagem | grossa, textura de sal grosso |
| Imersão | 4 minutos com a tampa posta e o êmbolo em cima |
| Quebra da crosta | aos 4 minutos, três voltas de colher |
| Descanso | 5 minutos depois da quebra, antes de baixar o êmbolo |
| Custo por prensa | 250g rendem perto de 8 preparos, de R$ 6,50 a R$ 9,75 |
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Escalde o cilindro com água quente e jogue fora. O vidro é grosso e rouba calor da primeira leva, e o Siriema perde a doçura de rapadura se a extração começar abaixo dos 90°C.
Ponha o pó, despeje toda a água de uma vez e não mexa. Colher no começo derruba o pó e tira a agitação natural que a subida da crosta faz sozinha.
Aos quatro minutos, quebre a crosta com três voltas de colher encostada na borda. O pó afunda de vez, o aroma sobe na cara de quem prepara e a extração para de ser desigual entre o topo e o fundo.
Retire com a colher a espuma e a borra que continuam boiando. Elas são o que mais carrega amargor e é o passo que quase todo mundo pula.
Espere mais cinco minutos com o êmbolo parado em cima da água. O descanso é o que separa uma prensa limpa de uma prensa lamacenta: o sedimento assenta sozinho no fundo.
Baixe o êmbolo devagar, até encostar na superfície do líquido, sem empurrar até o fundo. Empurrar até o fim revolve a borra assentada e joga tudo de volta na bebida.
Sirva toda a prensa de uma vez, nas duas canecas, e não deixe sobra no cilindro. Café parado em cima do pó continua extraindo e em dez minutos vira outra bebida, mais amarga e mais seca.
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