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ED 091

O Siriema VC4 que a família colhe em Divisa Nova

Siriema VC4 natural de sítio familiar em Divisa Nova, no Sul de Minas, cultivar do IAC criada contra o bicho-mineiro e prensado na francesa.

Prensa francesa cilíndrica de vidro com armação e êmbolo de aço, cheia até a metade de café escuro com uma crosta grossa de pó boiando, sobre mesa de madeira gasta num sítio familiar em Divisa Nova, no Sul de Minas, com uma colher de madeira pesada ao lado, duas canecas grossas de cerâmica, bandeja rasa cheia de cereja vermelha madura ao lado de um punhado de grãos verdes, uma barra partida de chocolate ao leite, castanhas-de-caju cruas e um bloco escuro de rapadura numa tábua, pacote kraft de 250g com etiqueta escrita à mão, algumas folhas estreitas de café com as galerias claras do bicho-mineiro sobre a mesa e, ao fundo, os morros de café, o terreiro de cimento com o fruto vermelho inteiro secando em camada fina e a neblina sobre o vale

A prensa francesa e o Siriema de Divisa Nova

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A larva tem o tamanho de um grão de areia e entra na folha do cafeeiro sem furar nada por fora. Ela nasce de um ovo posto na face de cima, atravessa a casca da folha e passa a vida inteira dentro dela.

O bicho-mineiro come o tecido verde por dentro, entre as duas faces, e vai abrindo uma galeria que aparece de fora como uma mancha marrom seca. A folha atacada perde a capacidade de fazer açúcar e cai antes da hora.

Folha caída não volta na mesma safra. O pé fica com menos superfície para trabalhar, manda menos açúcar para o fruto, e uma lavoura tomada pela praga chega a perder de trinta a cinquenta por cento da colheita.

A resposta comum é química. Inseticida sistêmico no solo no começo das águas, pulverização de reforço na seca, e a conta se repete todo ciclo, ano após ano, sem nunca resolver de vez.

Para o sítio pequeno a conta pesa duas vezes. Pesa no caixa, porque o defensivo é dos itens mais caros da lavoura, e pesa no corpo de quem aplica, que costuma ser a própria família no meio do cafezal.

Houve outro caminho, muito mais lento. Em vez de matar a larva todo ano, procurar dentro do próprio gênero Coffea uma planta em que ela não consegue viver, e trazer essa característica para dentro do café que se toma.

O Instituto Agronômico de Campinas foi buscar essa planta no Coffea racemosa, um café selvagem do litoral de Moçambique, de folha pequena e dura, que a larva do bicho-mineiro não consegue habitar.

O cruzamento entre o racemosa e o arábica não deu certo de primeira. A primeira geração trouxe a resistência junto com uma xícara ruim, herança do café selvagem, e foram necessárias décadas de retrocruzamento com arábica para tirar o defeito de sabor sem perder a folha resistente.

O nome que saiu no fim dessa fila de gerações foi Siriema. A numeração VC4 marca a seleção que ficou de pé no campo depois dos testes de comportamento em lavoura comercial.

O café de hoje é essa cultivar plantada num sítio de Divisa Nova, colhida pelos mesmos três irmãos há trinta anos, e vendida em pacote de 250g direto de quem planta.

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I  O Grão do Dia

O Siriema VC4 de terreiro em Divisa Nova

O grão do dia é um Siriema VC4 natural de sítio familiar em Divisa Nova, no Sul de Minas, onde três irmãos colhem a mesma lavoura desde os vinte anos de idade.

Divisa Nova fica no Sul de Minas, perto da divisa com o Sul do estado, num relevo de morro ondulado que sobe e desce sem planalto. O talhão está entre 900 e 1.000 metros.

A região é de propriedade pequena. A maior parte dos sítios tem menos de vinte hectares, a lavoura é tocada pela família e a colheita se faz na mão porque o morro não aceita colhedeira.

O Siriema não é uma cultivar comum de encontrar. Ela nasceu no Instituto Agronômico de Campinas do cruzamento entre o arábica e o Coffea racemosa, e o objetivo declarado era a resistência ao bicho-mineiro.

O racemosa entrou no cruzamento como doador de defesa. É um café selvagem de folha pequena, coriácea e estreita, em que a larva não consegue abrir galeria, e o programa passou gerações limpando o resto da herança.

O que sobrou na planta é visível no campo. A folha do Siriema é mais estreita e mais dura que a do Catuaí, o porte é alto, e o pé atravessa a safra com a copa cheia enquanto o vizinho perde folha.

O que a cultivar cobra é produtividade e paciência. O pé enche menos que um Catuaí moderno e a maturação é desigual dentro da mesma planta, o que obriga o apanhador a voltar mais vezes.

Por isso a colheita aqui é cereja a cereja. A mão fecha no fruto, sente se ele solta sozinho, e o mesmo pé recebe três ou quatro repasses ao longo da safra.

No terreiro o fruto vai inteiro, sem lavar e sem descascar, que é o que a palavra natural quer dizer no rótulo. A polpa seca colada na semente e empurra açúcar para dentro do grão.

O trabalho de terreiro é de hora em hora. O rodo abre o lote em camada fina de manhã, junta em leiras à tarde e cobre com lona antes do sereno, por dezesseis a vinte e dois dias, até o grão chegar aos 11% de umidade.

O Siriema seca mais devagar que a média porque o grão é graúdo e a casca é grossa, e apressar o terreiro nele custa caro: o miolo fica mais úmido que a superfície e o lote perde uniformidade na torra.

Depois vem o descanso na tulha, o compartimento de madeira onde o lote iguala a umidade por dentro antes do beneficiamento.

Folha que a larva não consegue habitar é folha que não cai antes da hora.

Na xícara o Siriema VC4 de Divisa Nova abre em chocolate ao leite, mostra castanha-de-caju no meio e fecha em rapadura, com corpo alto e acidez baixa. Notas de chocolate ao leite, castanha-de-caju e rapadura. Faixa de preço dos 250g comprados direto do produtor: R$ 52 a R$ 78.

 
 

II  Como Preparar

A prensa que devolve o corpo do natural

A prova é na prensa francesa, o cilindro de vidro com êmbolo de aço e uma tela de metal no lugar do papel.

A peça é de imersão, não de filtragem por gravidade. O pó fica dentro da água o tempo todo, sem cama, sem canal e sem alguém despejando em espiral por cima.

A tela de metal segura o pó grosso e deixa passar o óleo do café e uma parte do sedimento fino. É exatamente o que o papel retira, e é exatamente o que dá corpo à bebida.

Café natural de terroir doce como esse tem açúcar do terreiro e gordura de sobra. No papel, boa parte dessa gordura fica presa e a xícara sai limpa e leve demais para o que o grão tinha a oferecer.

A prensa devolve o corpo. O chocolate ao leite ganha textura de leite integral na boca, a castanha aparece na mordida do meio e a rapadura fica no fim, com o açúcar mascavo grudando um pouco no céu da boca.

A moagem precisa ser grossa de verdade, textura de sal grosso. Pó fino atravessa a tela, continua extraindo dentro da caneca depois de servido e entrega amargor de borra no último gole.

A água sobe para 96°C porque a imersão é mais preguiçosa que a coada: sem agitação constante, o calor faz o trabalho que o despejo faria.

A régua do Siriema VC4 na prensa francesa

Receita30g de café para 450ml de água, proporção 1:15
Água96°C, filtrada
Moagemgrossa, textura de sal grosso
Imersão4 minutos com a tampa posta e o êmbolo em cima
Quebra da crostaaos 4 minutos, três voltas de colher
Descanso5 minutos depois da quebra, antes de baixar o êmbolo
Custo por prensa250g rendem perto de 8 preparos, de R$ 6,50 a R$ 9,75

Escalde o cilindro com água quente e jogue fora. O vidro é grosso e rouba calor da primeira leva, e o Siriema perde a doçura de rapadura se a extração começar abaixo dos 90°C.

Ponha o pó, despeje toda a água de uma vez e não mexa. Colher no começo derruba o pó e tira a agitação natural que a subida da crosta faz sozinha.

Aos quatro minutos, quebre a crosta com três voltas de colher encostada na borda. O pó afunda de vez, o aroma sobe na cara de quem prepara e a extração para de ser desigual entre o topo e o fundo.

Retire com a colher a espuma e a borra que continuam boiando. Elas são o que mais carrega amargor e é o passo que quase todo mundo pula.

Espere mais cinco minutos com o êmbolo parado em cima da água. O descanso é o que separa uma prensa limpa de uma prensa lamacenta: o sedimento assenta sozinho no fundo.

Baixe o êmbolo devagar, até encostar na superfície do líquido, sem empurrar até o fundo. Empurrar até o fim revolve a borra assentada e joga tudo de volta na bebida.

Sirva toda a prensa de uma vez, nas duas canecas, e não deixe sobra no cilindro. Café parado em cima do pó continua extraindo e em dez minutos vira outra bebida, mais amarga e mais seca.

Prensa francesa →
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III  O Detalhe

Comprar de quem planta em Divisa Nova

Três irmãos colhem esse talhão desde os vinte anos, e a lavoura tem mais ou menos a mesma idade que a rotina deles: o pé mais velho foi plantado por eles mesmos.

A escolha do Siriema também veio dessa convivência. Uma lavoura sem aplicação de inseticida contra o bicho-mineiro muda o calendário da família: menos dia de pulverização, menos gasto no meio da seca, menos gente exposta ao produto.

Vale dizer o que a resistência não é. O Siriema resiste ao bicho-mineiro e continua sujeito à ferrugem, à broca e ao clima, então lavoura sem veneno nenhum é conversa de rótulo, não de campo.

Vender em saca para a cooperativa apagaria tudo o que esse talhão tem de próprio. Vender direto inverte a ordem. O pacote sai com o nome de quem plantou, o preço é combinado entre quem produz e quem toma, e o dinheiro não passa por atravessador antes de chegar em casa.

No rótulo, procure o que dá para conferir: data de torra, cultivar, região, altitude e processo. Rótulo que só diz gourmet e superior não está dizendo nada sobre o café lá dentro.

Data de torra é o dado que mais importa. Café torrado no mês passado ainda está no ponto, café sem data pode ter um ano de armazém e não existe jeito de saber pelo pacote.

Siriema natural pede torra média. O açúcar já veio do terreiro, torra clara demais deixa o chocolate apagado e sem corpo, e torra escura transforma a rapadura em queimado. Grão marrom médio, sem óleo brilhando na superfície, é o ponto.

Na nossa opinião: compre se você gosta de xícara doce, cheia e de acidez baixa, do tipo que aguenta ser tomada em caneca grande de manhã. Quem procura café ácido e floral, de xícara transparente, vai achar pesado demais.

A lavoura de Divisa Nova está de pé há três décadas com a mesma família na mesma quadra, e o café que chega no pacote de 250g é o que sobrou depois de três repasses no pé e vinte e dois dias de terreiro.

 
 
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Quantos dias o café Siriema VC4 fica secando no terreiro do sítio em Divisa Nova até chegar aos 11% de umidade?

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D30 a 40 dias

Resultado da última edição: 88% acertaram.

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