|
|
|
50% escolheram Bolsa do Café de Santos. Sai em 22/09.
|
A xícara que muda de gosto enquanto esfria
Karel Talavera mostrou na revista Nature, em 2005, que a língua lê açúcar melhor perto dos 35 graus, e a mesa de prova só começa a avaliar aos 71.
|
Xícaras de prova esfriando na bancada
|
| ▼ |
|
Em 2005, o fisiologista Karel Talavera e colegas da Universidade Católica de Leuven publicaram na revista Nature o trabalho Heat activation of TRPM5 underlies thermal sensitivity of sweet taste, e o resultado central é de bancada: a corrente elétrica do TRPM5, o canal iônico que traduz o sinal do açúcar dentro da célula gustativa, cresce de forma acentuada quando a temperatura sobe de 15 para cerca de 35 graus, e a resposta ao doce acompanha essa subida. O canal tem um teto. Acima da faixa de temperatura corporal a célula gustativa sai do terreno em que trabalha bem, e o que a boca registra passa a ser calor, não sabor. Café recém-coado sai por volta dos 85 graus, quase cinquenta acima do ponto em que a língua lê açúcar com mais facilidade. O primeiro gole de uma xícara fumegante entrega aroma, temperatura e um amargor de fundo, e quase nada da doçura que o produtor construiu na cereja. O mesmo café, dez minutos depois, é outra bebida na boca. A rapadura aparece, a acidez ganha contorno de fruta madura, e defeitos que o calor escondia também vêm à tona: adstringência que seca a lateral da língua, um fundo de papelão de grão velho, azedo de extração curta. A mesa de prova profissional trata a temperatura como variável de método, não como detalhe de conforto. O protocolo de xícara da Specialty Coffee Association manda romper a crosta com a colher, esperar a bebida cair para perto dos 71 graus e só então dar a primeira nota, voltando ao mesmo copo enquanto ele esfria até a temperatura ambiente. Uma xícara, várias leituras, e nenhuma sentença dada no primeiro gole. Começamos pelo lote do dia, um Bourbon Amarelo natural de Piatã, na Chapada Diamantina, escolhido justamente por ser um grão que muda bastante de retrato entre o primeiro e o último gole, com ficha de lavoura, perfil de torra e preço de pacote. Continue lendo ↓
|
|
I O Grão do Dia
Bourbon Amarelo de Piatã que abre na segunda metade
|
|
O grão do dia é um Bourbon Amarelo da Fazenda Serra do Boné, em Piatã, na Chapada Diamantina baiana. Lote de talhão único, colhido em três passadas e processado como natural.
Piatã fica no alto da Chapada, com lavouras em topo de serra, solo arenoso e amplitude térmica larga entre o meio-dia e a madrugada. Este lote cresce entre 1.180 e 1.320 metros, altitude que estica a maturação da cereja e concentra açúcar no grão.
A ficha do lote, em números:
|
A ficha do Bourbon Amarelo da Serra do Boné
| Variedade | Bourbon Amarelo, cereja amarela quando madura, porte alto |
| Origem | Fazenda Serra do Boné, Piatã, Chapada Diamantina, Bahia |
| Altitude de cultivo | 1.180 a 1.320 metros, em solo arenoso de topo de serra |
| Colheita | manual, a dedo, em três passadas, com descarte do verde |
| Processo | natural, com 18 dias em terreiro suspenso e revolvimento de hora em hora |
| Perfil de torra | 12 minutos no total, com descarga 100 segundos depois do primeiro estalo |
| Faixa de preço do pacote de 250g | R$ 62 a R$ 90 |
|
Natural quer dizer que a cereja secou inteira, com casca e polpa, sobre o terreiro. O açúcar da polpa migra para o grão nas quase três semanas de secagem, e a bebida sai com doçura densa de rapadura e mais corpo que a de um café lavado.
O Bourbon Amarelo é linhagem tradicional de porte alto, com produtividade menor por pé e muito açúcar na cereja madura. A cereja amarela dificulta ler o ponto de colheita a olho nu, o que explica as três passadas.
A torra média com descarga 100 segundos depois do primeiro estalo existe para segurar esse açúcar. Torra escura vira amargor de caramelo queimado, e torra clara demais num natural deixa o gole com peso de fruta fermentada sem doçura para equilibrar.
Este lote se esconde no calor. Servido a 80 graus, chega quase monolítico: doce genérico, corpo, calor. Entre 60 e 45 graus, a maçã madura sobe, a castanha aparece no final e a rapadura ganha textura.
|
Um café que só tem graça fervendo costuma ser um café que perde pouco ao esfriar porque tinha pouco a mostrar. Doçura de verdade não evapora com dez minutos de bancada, ela fica mais legível conforme a língua sai da zona de queimadura.
|
Na xícara, um café de corpo sedoso, doçura de rapadura e final de castanha. Notas de rapadura, maçã madura e castanha-do-pará, no pacote de 250g entre R$ 62 e R$ 90.
|
|
II Como Preparar
Chemex a 93 graus, com três goles cronometrados
|
|
O preparo deste grão é a Chemex, moagem média grossa, 30 gramas de café para 500 mililitros de água a 93 graus, num tempo total de 4 minutos e meio.
A Chemex entra por causa do filtro grosso, que segura óleo e finos e devolve bebida limpa e translúcida. Café natural tem muito sólido em suspensão, e o filtro espesso deixa a doçura passar sem o peso turvo que embaça o gole quando a xícara esfria.
A ficha do preparo:
|
A ficha da Chemex a 93 graus
| Café | 30g |
| Água | 500ml, filtrada, a 93 graus |
| Proporção | 1 para 16,6, em peso |
| Moagem | média grossa, textura de açúcar cristal |
| Método | Chemex com filtro próprio, em quatro despejos |
| Tempo | 4 minutos e meio no total, com 45 segundos de pré-infusão |
| Rendimento | cerca de 420ml, servidos em duas xícaras |
|
| 1 Escalde o filtro com água fervente, com a dobra de três camadas virada para o bico da Chemex, e despeje fora a água do escaldo sem tirar o filtro. |
| 2 Despeje 70ml de água a 93 graus sobre os 30g de café moído na hora, em espiral do centro para fora, e espere 45 segundos de pré-infusão. |
| 3 Complete até 250ml num despejo lento e contínuo, mirando a cama de pó e evitando a parede do filtro. |
| 4 Despeje os 250ml restantes em dois movimentos curtos, com pausa de 15 segundos entre eles, e dê uma chacoalhada leve para nivelar a cama. |
| 5 Retire o filtro assim que a última gota cair, por volta de 4 minutos e meio, e sirva sem adoçar. |
Sirva em xícara de cerâmica de parede fina, sem escaldar. Louça grossa e pré-aquecida segura a bebida acima de 70 graus por muito tempo e atrasa a janela em que a doçura aparece.
A prova de três goles precisa de termômetro de cozinha, de espeto ou de leitura infravermelha. Sem medir, o paladar julga pela memória, que muda conforme a fome e a bebida anterior.
|
Prove o primeiro gole por volta dos 70 graus, o segundo entre 55 e 60, o terceiro perto dos 45. Anote uma palavra por gole antes de tomar o seguinte, com o papel do lado, porque o gole seguinte sobrescreve a lembrança do anterior em poucos segundos.
|
Aos 70 graus, avalie aroma, corpo e defeito gritante: fundo de queimado, azedo agressivo, adstringência forte. Nessa faixa a língua lê pouco açúcar e muito volátil, e serve para achar problema.
Entre 55 e 60 graus, avalie a doçura e a acidez. Este Bourbon entrega rapadura e maçã madura nessa janela, e uma acidez que lembra a casca da fruta, presente sem ser pontiaguda.
Perto dos 45 graus, avalie o final e o equilíbrio. Café bem torrado e bem extraído fica gostoso frio, com o doce firme e a castanha durando na boca. Café mal extraído fica amargo e seco aqui, sem onde se esconder.
O grão torrado dura cerca de 30 dias em pacote com válvula, contados da torra impressa no rótulo. Passado esse prazo, a doçura do natural achata primeiro, e a xícara fria revela o fundo de papelão antes de qualquer outro sinal.
Links de afiliado. Sem custo extra pra você, ajuda a manter Notas do Café de pé.
| |