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A terceira onda do café nasceu num boletim de 2002

Trish Rothgeb escreveu para torradores sobre quem trocava a marca da lata pela origem e pelo ponto de torra do grão.

Pacote de café com etiqueta amarrada e grãos de torra clara ao lado de um coador

Pacote com origem e data da torra na etiqueta

▼

Em 2002, a torradora americana Trish Rothgeb, que ainda assinava Trish Skeie, publicou no The Flamekeeper (o boletim do Roasters Guild, a associação de torradores ligada à Associação Americana de Cafés Especiais) um artigo que dividia a história do café nos Estados Unidos em 3 ondas. A terceira era a de quem vendia o grão pela origem e pelo ponto de torra, em vez de vender a marca da lata.

A primeira onda, no texto dela, era a do café de supermercado: lata a vácuo, preço baixo, consumo em escala. A segunda era a das cafeterias que ensinaram o americano a pedir espresso e a reconhecer a palavra arábica no cardápio. A terceira ainda engatinhava, e ela a descreveu pelos torradores pequenos que via trabalhar.

Rothgeb tinha passado temporadas na Noruega, onde as torrefações de Oslo vendiam café de torra clara com a fazenda escrita no pacote. Em 2000, o norueguês Robert Thoresen venceu o primeiro Campeonato Mundial de Baristas, disputado em Monte Carlo. O contraste com a torra escura das grandes redes americanas deu a ela a imagem da onda nova.

O texto era curto e saiu num boletim lido quase só por torradores. Não tinha tom de manifesto nem dado de pesquisa. Mesmo assim, a expressão terceira onda escapou das páginas do boletim e chegou às revistas, aos cardápios e às embalagens vendidas no Brasil.

Hoje o rótulo virou adesivo de marketing, colado em cafeteria que serve torra escura sem origem nenhuma. Por causa do adesivo solto, vale voltar ao critério que Rothgeb usou: quem assina o grão. Um pacote da terceira onda traz a região ou a fazenda, a altitude, o processo, a variedade e a data da torra.

Se o torrador esconde esses 5 dados atrás da marca, o pacote pertence a outra onda, por mais moderna que pareça a arte da embalagem. A etiqueta conta onde o café cresceu e até onde o fogo foi; a marca conta só quem vendeu.

A seção abaixo abre com um grão que cumpre os 5 dados e mostra o que cada linha da etiqueta avisa sobre a xícara antes da primeira água.

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I  O Grão do Dia

Um Catuaí que assina o pacote

O grão do dia é um Catuaí Amarelo da Mantiqueira de Minas, cultivado perto de 1.200 metros, processado pelo método lavado (o fruto perde a casca e a polpa antes de secar) e levado à torra clara. O Catuaí saiu do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) em 1972, do cruzamento entre Mundo Novo e Caturra Amarelo.

A planta é baixa, o que facilita a colheita na encosta, e o fruto amadurece amarelo em vez de vermelho. A Mantiqueira de Minas, no sul do estado, tem Indicação Geográfica registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o selo que amarra o café ao território de onde ele sai.

Cada linha da etiqueta antecipa uma parte do sabor. A altitude avisa sobre a acidez: em lavoura alta, as noites frias fazem o fruto amadurecer devagar, e o grão fica mais denso e mais ácido. O processo lavado avisa sobre a limpeza da xícara, porque sem a polpa grudada na secagem sobra menos sabor de fruta fermentada.

A variedade avisa sobre a doçura de base, e a data da torra avisa sobre o frescor. O grão recém-torrado ainda solta gás carbônico; os torradores de café especial costumam indicar o consumo entre 1 e 4 semanas depois da torra, quando o gás já baixou e o aroma ainda não se perdeu.

A ficha do grão:

A ficha do Catuaí Amarelo

VariedadeCatuaí Amarelo
RegiãoMantiqueira de Minas (MG)
Altitude de cultivocerca de 1.200 metros
Processolavado
Torraclara, cor de canela
Notaslaranja, mel, chocolate branco
Faixa de preço do pacote de 250gR$ 50 a R$ 80

O ponto de torra é a linha que Rothgeb mais cobrava. A torra escura cria sabores próprios, de queimado e de cacau amargo, que cobrem o que o grão trouxe da lavoura. Dois cafés de regiões distantes, torrados até soltar óleo, chegam à xícara parecidos.

Um pacote que diz a fazenda, a altitude e a data da torra assina o café; um pacote que só diz a marca pede confiança.

A torra clara para antes. O grão sai do torrador logo depois do primeiro crack (o estalo que ele dá quando a água de dentro vira vapor e racha a casca), com a acidez da altitude e a doçura do lavado ainda no lugar.

Daí vem a laranja que o pacote anuncia no Catuaí do dia. Ela nasce da acidez do grão de altitude, e a torra clara apenas não a apagou. Numa torra escura, a mesma laranja sumiria por baixo do amargo de queimado.

 
 

II  Como Preparar

Água mais quente para o grão claro

O preparo do dia é o coador de papel, em porção para 1 pessoa: 15 gramas de café, 250 mililitros de água a 94 graus, moagem média para fina e cerca de 3 minutos e meio do primeiro jato ao último pingo.

A torra clara pede ajuste. O grão que saiu cedo do torrador é mais duro e mais denso, e cede o sabor mais devagar para a água. Com a receita de uma torra média, a xícara sai rala e azeda, com a laranja virando limão verde.

Por causa da dureza, a receita sobe a temperatura e afina um pouco a moagem. A água mais quente dissolve mais depressa, e o pó mais fino oferece mais superfície ao contato. Os 2 ajustes juntos puxam a doçura do mel que a acidez sozinha esconderia.

A ficha do preparo:

A ficha do preparo

Café15g, moagem média para fina
Água250ml, filtrada, a 94 graus
Proporção1 para 16,7, em peso
Moagemmédia para fina
Métodocoador de papel
Tempo totalcerca de 3 minutos e meio
Rendimento1 xícara de cerca de 220ml

1  Escalde o filtro de papel com água quente e descarte essa água.

2  Coloque os 15g de café moído e nivele o pó com uma leve batida no coador.

3  Despeje 40ml de água, molhe todo o pó e espere 40 segundos.

4  Complete até 150ml em jatos lentos e circulares, pelo centro.

5  Espere o nível baixar um dedo e complete até 250ml.

6  Deixe escorrer até o fim e sirva numa xícara de louça escaldada.

O passo 3 é mais longo que o de uma torra média. O grão claro e fresco segura mais gás carbônico, e 40 segundos dão tempo para o pó parar de borbulhar antes que a água principal chegue.

O passo 5 divide a água em 2 partes. Assim a coluna de líquido no coador fica baixa, o pó não boia e a extração acontece por igual, sem canais onde a água passa rápido e sai fraca.

Torra clara pede água mais quente e moagem mais fina; a receita de torra média deixa a origem pela metade.

Para ajustar pelo paladar, mude um fator de cada vez. Xícara azeda e sem doçura pede moagem um ponto mais fina. Amargo seco no final pede moagem um ponto mais grossa ou água a 92 graus, mantendo os 15 gramas.

Vale anotar a data da torra ao lado da receita. O mesmo pacote muda ao longo das semanas: aberto há poucos dias, pede pausa maior no passo 3; aberto há quase um mês, solta menos gás e aceita a pausa de 30 segundos.

Coador, moedor e balança →
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III  O Detalhe

A onda que não ganhou dono

Rothgeb não escreveu que uma onda apagava a anterior. No artigo de 2002, as 3 andavam juntas: a lata a vácuo continuava no supermercado enquanto a cafeteria de espresso crescia e o torrador pequeno começava a assinar o grão.

A primeira onda tem marcos fáceis de datar. A Folgers nasceu em São Francisco em 1850, e a Hills Bros. passou a fechar café em lata a vácuo em 1900, o que deixou o grão moído durar meses na prateleira. A segunda onda tem Alfred Peet, que abriu a Peet's Coffee em Berkeley em 1966 e ensinou a torra escura aos fundadores da Starbucks, aberta em Seattle em 1971.

A terceira não tem marco de abertura, e Rothgeb nunca deu a ela um fundador. Ela descreveu um comportamento, o de torradores que tratavam o café como os produtores de vinho tratam a uva: com a origem, o ano e o método na etiqueta.

Rothgeb seguiu no ofício depois do artigo. Em 2012, abriu com Nick Cho a Wrecking Ball Coffee Roasters, em São Francisco, e trabalhou como classificadora certificada de café, a profissional que prova lotes e dá nota ao grão cru.

A expressão que ela criou ganhou vida própria. Revistas e cafeterias passaram a falar em quarta onda, para cafeterias que medem tudo com balança e refratômetro (o aparelho que lê quanto do café se dissolveu na água). Essa quarta onda não tem autor nem texto de origem conhecido, e nenhuma associação de torradores adotou uma definição para ela; o termo circula sem dono, e ninguém sabe dizer quem o usou primeiro.

Na nossa opinião: a terceira onda se reconhece pelo pacote, nunca pela decoração da cafeteria. Se a etiqueta traz os 5 dados, o torrador assumiu a responsabilidade pelo grão; se traz só a marca, o café pode ser bom, mas ninguém assinou por ele.

Teste hoje: separe 2 pacotes, um que traz os 5 dados na etiqueta e outro que traz só a marca. Prepare os 2 na receita acima, lado a lado, e dê uma nota de 1 a 5 para a acidez e para a doçura de cada xícara. Espere o pacote assinado marcar 1 ou 2 pontos a mais nas 2 notas.

“Quantos dos 5 dados o seu pacote de café traz na etiqueta?”

 
 
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Quiz da edição

O artigo de Trish Rothgeb que batizou as 3 ondas do café saiu em 2002 em qual publicação?

ABarista Magazine
BFresh Cup
CThe Flamekeeper, boletim do Roasters Guild
DSpecialty Coffee Chronicle

Resultado da última edição: 89% acertaram.

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