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O Topázio do planalto de Vitória da Conquista e a chapada plana de 900 metros
Um lavado do sudoeste da Bahia colhido por máquina em terreno plano, coado no V60 a 92 graus em 1:16, com a noite fria fazendo o serviço da altitude.
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Café em linha reta na chapada de Vitória da Conquista
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Em julho de 1975, a geada negra do Paraná queimou a lavoura do maior parque cafeeiro do país, e o levantamento do IBGE no ano seguinte mediu o estrago na safra brasileira: de cerca de 23 milhões de sacas para algo perto de 9 milhões. O café nacional perdeu dois terços do que colhia. O governo respondeu tirando o arábica do lugar onde o frio tinha alcançado. O Instituto Brasileiro do Café, o IBC, autarquia federal que mandava no setor na época, passou a financiar plantio em terras novas, mais ao norte, fora do eixo Minas e São Paulo. Uma delas era o planalto do sudoeste da Bahia, na altura de Vitória da Conquista, onde até então se criava gado e se plantava mandioca. Quem tinha terra ali recebeu crédito, muda e assistência técnica para virar cafeicultor de uma hora para outra. O terreno tinha um desenho que ninguém tinha pensado como vantagem: chapada. Superfície plana e larga, sem morro, a uns 900 metros de altitude, com solo profundo e horizonte reto até onde a vista vai. No Sul de Minas, 900 metros existem, só que em meia encosta, no meio de uma serra rachada de grotas. A colheita ali sobe e desce de saco nas costas porque máquina nenhuma fica em pé numa rampa daquelas. Na chapada baiana, a mesma altitude vem deitada. A colheitadeira automotriz atravessa a rua inteira de ponta a ponta sem tombar, e uma fazenda média tira em três dias o que a encosta mineira tira em cinco semanas de turma. E o frio, que é o outro serviço da altitude, continua chegando. A noite do planalto cai para perto de 13 graus no inverno seco, e o fruto amadurece devagar, com açúcar se acumulando dentro da cereja em vez de queimar no calor da noite. O nome dessa região quase nunca aparece no pacote do supermercado. O café sai dali em saca sem identificação, entra no blend de marca grande e vira apenas "café do Brasil" no rótulo. Começamos pelo lote que veio dessa chapada. Continue lendo ↓
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I O Grão do Dia
O Topázio que amadurece no frio de uma terra plana
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O grão do dia é um Topázio MG-1190 do planalto de Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia, processado como lavado e vendido em pacote de 250g.
Topázio é varietal de arábica desenvolvido pela EPAMIG, a empresa de pesquisa agropecuária do estado de Minas Gerais, a partir do cruzamento entre Mundo Novo e Catuaí Amarelo. Ele foi escolhido pelas fazendas do planalto por maturação uniforme, que é exatamente o que uma colheitadeira exige: a máquina passa uma vez só e leva o que estiver no galho.
A ocupação agrícola desse planalto começou na década de 1970, com dinheiro público. O IBC bancava a muda, o preparo do solo e o primeiro ano sem receita, e o produtor devolvia depois, quando a lavoura entrava em produção. Em quinze anos, pasto virou lavoura de horizonte a horizonte.
A cidade de Vitória da Conquista fica no alto da Serra do Periperi, e o planalto se espalha a partir dela por municípios vizinhos como Barra do Choça, Planalto e Encruzilhada. Quem chega de carro não vê montanha nenhuma, vê uma mesa de terra vermelha com café plantado em linha reta.
A ficha do lote, em números:
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A ficha do Topázio do planalto de Vitória da Conquista
| Altitude de cultivo | 900 metros |
| Relevo | chapada plana, declividade abaixo de 5 por cento |
| Temperatura mínima média da noite no inverno seco | 13 graus |
| Colheita | mecanizada, passada única com colheitadeira automotriz |
| Processo | lavado, com despolpa mecânica e secagem mista de terreiro e secador |
| Perfil de torra | 10 minutos e 40 segundos no total, com descarga 2 minutos depois do primeiro estalo |
| Faixa de preço do pacote de 250g | R$ 42 a R$ 56 |
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Lavado quer dizer que a casca e a polpa saíram por despolpador mecânico logo depois da colheita, e o grão secou sem a fruta em volta. O resultado é uma xícara mais limpa e mais previsível, com menos fermentação e menos surpresa, que combina com lote grande e colhido de uma vez.
A declividade baixa também muda o custo. Colher à mão no Sul de Minas custa por saca o preço de uma turma inteira em campo; na chapada, a mesma saca sai por uma fração, porque a máquina faz o trabalho de dezenas de pessoas num dia.
A noite fria é o que segura a qualidade apesar da pressa da máquina. O fruto que amadurece devagar acumula açúcar, e o açúcar é a matéria-prima das reações de torra que geram caramelo e cacau na xícara.
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Altitude não é o número em si, é o frio que o número traz. Uma chapada a 900 metros com noite de 13 graus entrega ao grão o mesmo tempo lento que um morro mineiro mais alto.
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Na xícara, o resultado é um café de corpo médio-alto, doçura de rapadura, acidez baixa e redonda e retrogosto de amendoim torrado. Notas de cacau, amendoim torrado e melado, no pacote de 250g entre R$ 42 e R$ 56.
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II Como Preparar
V60 a 92 graus para um lavado de corpo cheio
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O preparo deste grão é o V60 em moagem média, água a 92 graus e proporção de 1 grama de café para 16 de água.
A temperatura desce dois graus abaixo do que se usa num natural de montanha por um motivo prático: este lote tem acidez baixa e corpo cheio, e água muito quente puxa amargor de casca sem ter acidez nenhuma para equilibrar do outro lado. A 92 graus, o cacau e o melado aparecem sem fundo seco.
A ficha do preparo:
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A ficha da coada no V60
| Café | 22g |
| Água | 352ml |
| Temperatura | 92 graus, aferida com termômetro |
| Moagem | média, textura de açúcar cristal |
| Método | V60 02 com papel branco, escaldado |
| Pré-infusão | 45g de água, 35 segundos |
| Tempo total | 3 minutos |
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| 1 Escalde o papel com água fervente e despeje fora a água do escaldo. |
| 2 Pese 22g e moa na granulometria média, no mesmo clique do moedor de sempre. |
| 3 Molhe com 45g de água a 92 graus e espere 35 segundos de pré-infusão. |
| 4 Complete até 352ml em três despejos circulares, sem encostar o jato na parede do funil. |
| 5 Retire o funil aos 3 minutos e prove a 55 graus. |
A pré-infusão de 35 segundos é mais longa do que a média porque a secagem mista deixa o grão com umidade final bem uniforme, e grão uniforme aceita molhar por mais tempo sem afundar a extração.
Os três despejos circulares importam mais aqui do que num café ácido. Corpo cheio pede leito de pó parelho: se o jato cavar um buraco no centro, a água escapa por ali e a caneca sai aguada no meio de um final amargo.
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Café de acidez baixa perdoa pouco no excesso e muito na falta. Se ficar em dúvida, tire o funil antes do tempo, que a doçura de rapadura ainda está lá.
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Aos 3 minutos, o leito termina plano e com pouca borra na parede, sinal de que a moagem estava certa. Leito afunilado, com montanha de pó nas bordas, indica moagem grossa demais e caneca fraca.
Este lote também vai bem na prensa francesa, com 4 minutos de infusão e a mesma proporção, porque o corpo alto tolera o pó em contato longo com a água. O que ele não aceita bem é o método de gotejamento lento de água gelada: a acidez baixa some por completo e a bebida fica chapada.
Se a sua caneca sair adstringente, suba a moagem um clique antes de mexer na temperatura. Adstringência em lavado de corpo alto costuma ser excesso de extração por pó fino, e não água quente demais.
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