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A niacina fabricada pela torra tem uma história ligada à fome. No começo do século 20, o sul dos Estados Unidos vivia uma epidemia de pelagra (a doença da falta de niacina, que causa feridas na pele, diarreia e confusão mental), concentrada em famílias pobres que comiam quase só milho.
Em 1914, o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos mandou o médico Joseph Goldberger investigar. Ele mostrou, com experimentos em orfanatos e numa prisão do Mississippi, que a doença vinha da dieta, e não de um micróbio, como se acreditava na época. Mudar a comida curava os doentes.
A substância em falta só foi identificada em 1937. Conrad Elvehjem, bioquímico da Universidade de Wisconsin, isolou o ácido nicotínico de extrato de fígado e curou com ele a língua negra (a versão canina da pelagra) em cachorros. Era a mesma molécula produzida pelos torradores de café havia séculos, sem ninguém saber.
O café entrou na história pelas mãos dos químicos de alimentos. Nas medições da equipe de Susana Casal, da Universidade do Porto, publicadas em 2000, a torra escura saiu com mais ácido nicotínico e menos trigonelina que a clara. E o ácido nicotínico se dissolve bem na água quente, o que leva a vitamina do pó para a caneca.
Ainda não existe uma medida única de quanto dessa vitamina o corpo aproveita de um café diário, porque a quantidade varia com o grão, a torra e o preparo. Ninguém deve contar com a caneca para cobrir a B3 da dieta; o seguro de afirmar é que a torra cria a vitamina e a água quente a leva para a bebida.
A outra parte da trigonelina vira cheiro. As piridinas formadas acima de 160 graus entram no grupo de aromas que os provadores chamam de tostado: pão, castanha, fumaça leve. Em dose pequena, lembram pão na chapa; numa torra que passa do ponto, viram fumaça pesada e cinza.
O nariz humano percebe essas moléculas em quantidade minúscula. Por esse motivo, um pacote recém-aberto de torra escura perfuma a cozinha inteira, enquanto um de torra clara pede que se encoste o rosto na embalagem para sentir alguma fruta.
Teste hoje: moa 10g de um café de torra clara e 10g de um de torra escura, cada um num pote com tampa. Espere 1 minuto, abra os 2 potes ao mesmo tempo e cheire a 30 centímetros de distância. O escuro deve chegar primeiro, com cheiro de pão tostado; o claro só aparece de perto, com cheiro de fruta e de grão.
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“Na sua cozinha, o cheiro do café chega antes da caneca?”
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