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O bule de café de Cambridge virou a primeira webcam

Em 1991, dois pesquisadores apontaram uma câmera para a jarra do corredor e acabaram com a viagem até o café vazio.

Cafeteira elétrica com jarra pela metade e uma câmera antiga apontada para ela

O bule do Trojan Room, Cambridge, 1991

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Em novembro de 1991, no Laboratório de Computação da Universidade de Cambridge, Quentin Stafford-Fraser e Paul Jardetzky ligaram uma câmera de vídeo a um bule de café. O resultado foi uma imagem cinza de 128 por 128 pixels (os pontinhos que formam a foto), renovada cerca de 3 vezes por minuto na tela de cada colega do prédio.

O bule ficava no corredor diante do Trojan Room, uma sala de computadores do laboratório. Servia a equipe inteira, espalhada por vários andares, e a jarra esvaziava rápido nas manhãs de trabalho pesado.

O problema era a viagem perdida. Um pesquisador largava o código, enfrentava a escada com a caneca na mão e encontrava a jarra vazia, ou com um resto escuro e queimado no fundo. Voltava para a mesa sem café e com a concentração quebrada.

A dupla resolveu com sucata do próprio laboratório. Uma câmera velha foi presa numa haste, apontada para a jarra e ligada a um capturador de vídeo (a placa que transforma o sinal da câmera em imagem de computador) instalado num computador Acorn Archimedes.

Jardetzky escreveu o servidor, o programa que capturava a foto e a deixava disponível na rede interna. Stafford-Fraser escreveu o cliente, batizado de XCoffee, que abria uma janela pequena no canto da tela de quem quisesse acompanhar o bule.

A imagem dispensava detalhe. Bastava enxergar o nível escuro dentro do vidro: jarra cheia, a caminhada compensava; jarra pela metade, melhor ir logo; jarra vazia, a caneca esperava na mesa.

Por 2 anos, só a rede do laboratório via o bule. Em novembro de 1993, os pesquisadores Daniel Gordon e Martyn Johnson ligaram a câmera à World Wide Web (a rede de páginas abertas que o navegador lê), e qualquer pessoa no mundo passou a acompanhar a jarra de Cambridge pela tela de casa.

O aparelho filmado era uma cafeteira elétrica de filtro, a mesma de muita cozinha brasileira. A primeira seção apresenta o grão certo para enchê-la.

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I  O Grão do Dia

Um Mundo Novo do Cerrado para a jarra

O grão do dia é um Mundo Novo do Cerrado Mineiro, plantado perto de 1.000 metros de altitude na região de Patrocínio, em Minas Gerais, processado como cereja descascado (o fruto perde a casca no despolpador e seca com parte da mucilagem, a camada doce e grudenta em volta da semente) e torrado até o ponto médio.

O Mundo Novo nasceu no Brasil. É um cruzamento natural entre o Sumatra e o Bourbon Vermelho, encontrado nos anos 1940 em lavouras do município paulista de Mundo Novo, hoje Urupês, e selecionado pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC). A planta é alta e vigorosa, e por décadas sustentou boa parte do café brasileiro.

O Cerrado Mineiro foi a primeira região do país a receber do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) a Denominação de Origem (o selo que liga o sabor do produto ao clima e ao solo do lugar) para café, em 2013.

O clima ajuda o processo. O Cerrado tem estações bem marcadas: chuva no verão e inverno seco, justamente quando acontece a colheita. Com o tempo firme, o café seca no terreiro sem risco de mofo, e a doçura da mucilagem chega inteira à semente.

Na xícara, o grão entrega corpo médio, acidez baixa e notas de chocolate ao leite, castanha e laranja. É o perfil de café que aguenta jarra: sabor redondo, sem uma acidez cortante que peça para ser bebido nos primeiros minutos.

A ficha do grão:

A ficha do Mundo Novo

VariedadeMundo Novo
RegiãoCerrado Mineiro (MG)
Altitudecerca de 1.000 metros
Processocereja descascado
Torramédia
Notaschocolate ao leite, castanha, laranja
Pacote de 250gR$ 40 a R$ 70

A torra no ponto médio tem motivo. Na cafeteira elétrica, a água atravessa o pó uma vez só e não dá tempo de extrair bem um grão muito claro. Uma torra escura, por sua vez, fica amarga em poucos minutos sobre a placa quente.

Uma jarra que espera precisa de um grão sem pressa: doce, redondo e de acidez baixa.

Confira no rótulo o dia da torra. O grão rende melhor entre a primeira e a quarta semana depois dela, quando o gás carbônico já saiu e o aroma continua preso no pacote.

A moagem é média, parecida com açúcar cristal. Mais fina, ela entope o filtro da cafeteira e faz o porta-filtro transbordar; mais grossa, a água desce rápido e a jarra sai rala.

Foi uma jarra desse tipo, cheia ou vazia, que a câmera de Cambridge mostrou por quase 10 anos, e é nela que a receita da próxima seção trabalha.

 
 

II  Como Preparar

A cafeteira elétrica sem placa quente

O preparo do dia usa a cafeteira elétrica de filtro, o aparelho do corredor de Cambridge. A receita leva 60 gramas de café para 1 litro de água, o equivalente a 6 gramas a cada 100 mililitros, e rende cerca de 880 mililitros de bebida, perto de 6 xícaras grandes.

A cafeteira elétrica tem fama de café fraco, e quase sempre a culpa é da medida. A colher de plástico da caixa varia de tamanho, e muita gente põe pó de menos para a água do reservatório. Uma balança de cozinha resolve o problema em 10 segundos.

A temperatura vem pronta. A resistência da cafeteira aquece a água e a empurra pelo tubo até o chuveiro (a peça furada em cima do porta-filtro), de onde ela pinga sobre o pó por igual.

A ficha do preparo:

A ficha do preparo

Café60g, moagem média
Água1 litro, filtrada
Filtropapel número 103
Tempo totalcerca de 6min
Rendimentocerca de 880ml

1  Encha o reservatório com 1 litro de água filtrada e fria.

2  Dobre a costura lateral e a do fundo do filtro de papel e encaixe no porta-filtro, sem rugas.

3  Passe um pouco de água quente pelo papel e descarte, para tirar o gosto de celulose.

4  Pese 60g de café moído, espalhe no filtro e dê 2 batidinhas para nivelar.

5  Ligue a cafeteira e deixe a jarra no lugar do começo ao fim, sem tirar no meio.

6  Quando o último gorgolejo parar, mexa a jarra com uma colher.

7  Desligue a placa e passe a bebida para uma garrafa térmica preaquecida.

O passo 6 corrige uma diferença real. O café que pinga primeiro sai concentrado, e o do fim sai ralo; sem mexer, a primeira xícara servida é forte e a última, aguada.

O passo 7 é o mais importante. A placa quente mantém a jarra perto da fervura e continua cozinhando a bebida: com o passar dos minutos, o aroma vai embora e o amargo sobe.

A placa quente guarda o calor do café e leva junto o sabor; a garrafa térmica guarda os 2.

Se a jarra sair fraca mesmo com a balança, a moagem está grossa demais. Se o porta-filtro encher e a água ameaçar transbordar, o pó está fino ou há café demais para o tamanho do filtro.

Uma vez por mês, passe pelo circuito da cafeteira uma mistura de água e vinagre branco em partes iguais, seguida de 2 ciclos só com água. O calcário da água entope o tubo, deixa a passagem lenta e esfria a água que chega ao pó.

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III  O Detalhe

Um leilão de 3.350 libras em 2001

A câmera do Trojan Room ficou ligada por quase 10 anos. Nesse tempo, a jarra foi trocada algumas vezes, à medida que as cafeteiras se gastavam, e a lente seguiu apontada para a da vez.

A fama cresceu sozinha. Com a página aberta no navegador, o bule virou uma das atrações mais visitadas da internet nascente, e jornais e emissoras de televisão foram a Cambridge filmar a jarra mais vigiada do mundo.

O fim veio com uma mudança de endereço. Em 2001, o Laboratório de Computação deixou os prédios antigos do centro de Cambridge e foi para o novo William Gates Building, no oeste da cidade, e a equipe decidiu aposentar o bule na mudança.

A câmera foi desligada em 22 de agosto de 2001. A BBC noticiou o desligamento, e leitores do mundo inteiro mandaram mensagens de despedida para uma jarra de café.

A cafeteira em uso naquele ano, uma Krups, foi a leilão no eBay. Quem levou foi a revista alemã Spiegel Online, que pagou 3.350 libras esterlinas. A máquina chegou gasta, a Krups a restaurou, e a redação voltou a ligar uma câmera sobre a jarra.

Onde ela está hoje, o registro público não diz com segurança. As notícias sobre a cafeteira param depois dos primeiros anos na redação alemã, e nem a Spiegel nem o laboratório de Cambridge divulgaram o destino final da máquina.

Stafford-Fraser e Jardetzky não ganharam dinheiro com a ideia. O XCoffee nasceu como ferramenta interna, de código simples, e a webcam virou uma indústria inteira sem patente nenhuma em nome deles.

Na nossa opinião, o bule de Cambridge ensina a olhar a jarra como um relógio. Café de cafeteira elétrica tem prazo, e quem esperava a imagem cinza mudar corria para a escada quando o vidro aparecia cheio.

Teste hoje: passe a jarra inteira, deixe metade na placa ligada e despeje a outra metade numa garrafa térmica. Depois de 40 minutos, prove uma xícara de cada. A da placa deve chegar mais escura e amarga, com cheiro de queimado; a da garrafa, perto do sabor da primeira xícara.

“Na sua casa, o café da cafeteira fica na placa ou vai para a garrafa?”

 
 
Quiz da edição

Quanto tempo depois de a câmera ser instalada no bule de Cambridge, em 1991, a imagem passou a estar na World Wide Web e visível para qualquer pessoa no mundo?

A1 ano
B2 anos
C5 anos
D10 anos

Resultado da última edição: 75% acertaram.

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