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ED 082

O Typica de 70 anos que sobrou num talhão do Sul de Minas

Um remanescente do varietal que abriu a cafeicultura brasileira, colhido em meio hectare de Minas e coado no Melitta 103.

Coador de plástico trapezoidal sobre uma jarra de vidro numa mesa de madeira gasta em sítio familiar de montanha no Sul de Minas, com filtro de papel de fundo reto encaixado, chaleira de bico fino, balança digital, tigela rasa de grãos verdes compridos e estreitos, potinho de mel com colher de madeira, ameixas amarelas partidas e um pêssego na mesa, xícara branca de porcelana com líquido âmbar claro, pacote kraft de 250g meio aberto e, ao fundo, um terreiro suspenso de tela com o café pergaminho secando em camada fina, uma lona de derriça amontoada no pé de um cafeeiro alto de tronco único e ramos abertos, com fileiras de pés velhos descendo pelos morros verdes

O Melitta 103 e os grãos do talhão velho

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Todo cafezal brasileiro tem data marcada para ser derrubado. O pé de café vive décadas, mas a lavoura é tratada como máquina: rende forte dos quatro aos vinte anos, cai depois e, por volta dos vinte e cinco, o produtor arranca tudo ou recepa, que é cortar o tronco a quarenta centímetros do chão para forçar broto novo.

Cada renovação dessas é uma escolha de varietal. E ninguém replanta o que rende menos. A cada troca a lavoura sobe um degrau de produtividade, e o material antigo sai do talhão sem que nada tenha sido decretado em lugar nenhum.

Foi por esse caminho que o café que abriu a cafeicultura brasileira sumiu dos pacotes. Ele chegou ao Pará em 1727, desceu para o Rio, subiu o Vale do Paraíba e cobriu São Paulo e Minas antes de qualquer outro. Na roça era chamado de Comum, Crioulo ou Nacional.

O Bourbon apareceu por aqui por volta de 1860 e rendia mais. O Mundo Novo, achado no interior paulista nos anos 1940, rendia mais que o Bourbon. O Catuaí, lançado pelo IAC em 1972, rendia mais ainda e aceitava plantio apertado na linha.

Cada geração empurrou a anterior para fora. Em duas ou três renovações um município inteiro trocava de material genético, e do varietal fundador sobrava o que estava em lugar difícil de arrancar.

Setenta anos de pé em pé é raridade contábil. Nesse tempo o mesmo pedaço de terra teria passado por duas renovações inteiras e estaria rendendo o triplo do que rende hoje naquele talhão.

O que restou do fundador é lote pequeno e disperso. Um talhão que o avô plantou, o filho não derrubou e o neto agora colhe separado do resto da fazenda, em saca própria, com o nome do varietal escrito à mão no rótulo.

A xícara desse tipo de lote costuma contrariar a fama do café brasileiro. Em vez de corpo pesado e chocolate escuro, aparece doçura de mel, fruta amarela e um final leve, mais perto de chá que de sobremesa.

O Grão do Dia é um desses remanescentes, num talhão de meio hectare do Sul de Minas, com pés que já passaram das sete décadas.

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I  O Grão do Dia

Meio hectare que ninguém arrancou

O grão do dia é um Typica remanescente, colhido num talhão de meio hectare no Sul de Minas, entre 1.100 e 1.250 metros de altitude.

Talhão é o nome que o cafeicultor dá a cada bloco fechado de lavoura, com a mesma idade e o mesmo varietal dentro. Meio hectare é pouco: cabe num quarteirão de cidade.

Os pés foram plantados em meados dos anos 1950, no desenho antigo de quatro metros entre as ruas e dois metros entre as covas, com três mudas por cova. O plantio apertado que veio depois apagou esse traçado das fazendas.

Reconhecer Typica na roça é simples. Tronco único e alto, que passa dos três metros quando ninguém poda, ramos abertos quase na horizontal, entrenós compridos e as pontas novas do ramo puxando bronze em vez de verde.

O grão também entrega o varietal. Sai mais comprido e estreito que a média brasileira, e o lote é separado em peneira alta antes de ir para a torra.

A colheita não tem como ser mecanizada. Pé alto, ramo aberto e terreno em declive tiram a colheitadeira da conversa, então o talhão inteiro sai na mão.

A primeira passada é a derriça no pano: lona estendida embaixo do pé e o galho corrido entre os dedos, quando a maior parte do fruto já está no ponto de cereja. Depois o que caiu vai para o lavador, o tanque de água que separa o fruto seco e passado, que boia, do cereja maduro, que afunda.

Só então entra o descascador. O processo é cereja descascado: a máquina tira a casca do fruto e deixa a mucilagem, a camada grudenta e doce em volta do grão, que na fazenda todo mundo chama de mel. O lote seca com esse mel colado.

A secagem é em terreiro suspenso, aquelas mesas de tela a um metro do chão. Camada fina, rodo passando várias vezes ao dia, meia sombra nos dois primeiros dias e de dez a dezesseis dias até a umidade chegar perto de 11%.

Depois o café descansa trinta dias em tulha, o silo de madeira da fazenda, antes do beneficiamento que tira o pergaminho. O descanso iguala a umidade dentro do grão e tira o gosto verde da secagem recente.

Typica remanescente do Sul de Minas, meio hectare de pés com sete décadas: colheita na mão, cereja descascado e trinta dias de tulha antes da torra.

Na xícara, o Typica velho do Sul de Minas abre em mel, passa por fruta amarela de ameixa e pêssego e fecha num final de chá preto, leve e seco. Notas de mel, fruta amarela e chá. Faixa de preço dos 250g em torrador nacional, com data de torra na etiqueta: R$ 110 a R$ 160.

 
 

II  Como Preparar

O fundo reto que segura a água

A prova de hoje é no Melitta 103, o coador de plástico que já está na cozinha de meio Brasil. Para esse grão não precisa comprar aparelho nenhum.

O 103 não é cone. O filtro é trapezoidal, de fundo reto e com costura nas duas bordas, e o papel sai mais grosso que o de coador especial.

A saída embaixo é estreita. A água empoça em cima do pó em vez de escorrer livre, e metade do preparo vira imersão sem que você faça nada.

O empoçamento é justamente o que serve a esse café. Typica de lavoura velha tem doçura fina e aroma leve, o tempo extra de contato puxa o mel, e o papel grosso segura o óleo e devolve uma xícara limpa, com o final de chá inteiro.

A receita: 30g de café para 500ml de água a 92°C, moagem média, moída na hora, filtro 103 escaldado. Cronômetro rodando desde o primeiro contato da água com o pó.

Escalde o papel antes de tudo. Passe uns 200ml de água quente pelo filtro vazio, jogue fora o que caiu na jarra e seque. Sai o gosto de papelão e o plástico entra no preparo já aquecido.

Molhe o pó com 60ml e espere 40 segundos. O café incha e solta o gás carbônico preso na torra; se não inchar nada, o pacote está velho.

Complete até 250ml em despejo calmo, em círculos, sem bater na borda do filtro. Espere o nível baixar até aparecer de novo a cama de pó.

Vá até 380ml no terceiro despejo e feche em 500ml no quarto. A bebida termina de descer entre 4 minutos e 4 minutos e 30.

A cama de pó tem que terminar plana. Cratera no meio é despejo forte demais; parede alta e seca grudada no papel significa que parte do café ficou de fora da extração.

A régua do Typica no 103

Receita30g de café para 500ml de água a 92°C
Moagemmédia, um ponto acima da do coador especial
Bloom60ml de água por 40 segundos
Despejos250ml, 380ml e 500ml, sempre em círculos
Total4 minutos a 4 minutos e 30 na jarra
Custo por xícara250g rendem 8 jarras, perto de 25 xícaras, de R$ 4,50 a R$ 6,50 cada

Moagem média resolve o gargalo do 103. Fina demais entope a saída estreita, a água fica parada seis minutos e volta amarga; grossa demais atravessa correndo e entrega xícara aguada.

Água a 92°C, e não os 96°C do café forte de padaria. O tempo de imersão já extrai bastante sozinho, e o grau a menos evita puxar o amargo da parte final do preparo.

Sirva em xícara branca e beba em duas temperaturas. O mel aparece nos primeiros goles, a fruta amarela chega quando a bebida baixa dos 60°C e o final de chá fica no fundo da xícara.

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III  O Detalhe

Doze sacas onde cabem quarenta

Agora o motivo do abandono, que não tem nada a ver com sabor. Typica dá café bom e dá pouco café.

Uma lavoura velha de Typica, no espaçamento largo e sem adubação pesada, entrega de 10 a 15 sacas por hectare em ano bom. Catuaí adensado e bem tratado no Sul de Minas passa de 40 no mesmo pedaço de terra.

A diferença começa na arquitetura da planta. O Typica tem entrenós compridos, então cabem menos rosetas de fruto por metro de ramo, e o porte alto com ramo aberto exige espaço que não sobra.

No desenho antigo cabiam de 1.200 a 1.500 covas por hectare. O Catuaí é de porte baixo e aceita meio metro entre plantas na linha, o que leva a lavoura para 4.000 a 5.000 pés no mesmo hectare.

Tem ainda a bienalidade, que castiga mais quem já produz pouco. O cafeeiro alterna ano de carga alta e ano de carga baixa, porque o ramo que encheu de fruto gasta a reserva e produz pouco na temporada seguinte.

E tem a ferrugem. O fungo chegou ao Brasil em 1970, pela Bahia, e o Typica não tem defesa nenhuma contra ele. Quem manteve o varietal passou a pagar fungicida todo ano para não perder a lavoura.

Some tudo e a decisão do produtor fica óbvia. Arrancar e replantar custa caro e cobra quatro anos até a primeira safra cheia, mas paga a conta em produtividade pelos vinte anos seguintes.

Então por que meio hectare ficou de pé? Por inércia e por geografia. Talhão pequeno, encravado num canto de acesso ruim, não entra na fila da renovação: o custo de derrubar não compensa o ganho num pedaço tão miúdo.

E porque o mercado virou. No microlote, a saca de remanescente antigo sai por três a cinco vezes o preço da saca de commodity, e 12 sacas de um talhão esquecido podem render mais que 40 sacas de lavoura comum.

O contrapeso é o risco. Lote pequeno acaba rápido, a safra oscila muito de um ano para o outro e pé de setenta anos não dura para sempre. Quando aparece, compra-se o que tem.

Na nossa opinião: vale a compra para quem gosta de xícara leve, doce e limpa, do tipo que se bebe pura e sem açúcar. Quem toma café forte com leite todo dia vai achar a bebida fraca dentro do copo.

A prova está no talhão. Pés de sete décadas, colheita na mão, mel secando grudado no grão e trinta dias de tulha, para que o mel e a fruta amarela cheguem inteiros na sua xícara.

 
 
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Em que ano o Typica, o café que abriu a cafeicultura brasileira, chegou ao Pará?

A1860, mesmo ano em que o Bourbon apareceu no Brasil
B1940, quando o Mundo Novo foi achado no interior paulista
C1727, mais de um século antes do Bourbon
D1972, ano de lançamento do Catuaí pelo IAC

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